O reality show de Lindsay Lohan é mau e não no sentido "é tão mau que é bom"

Muitos reality shows são tão maus que são bons - não é o caso deste. Desculpem.

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14 Janeiro 2019, 11:36am

Lindsay Lohan. Foto por Gareth Cattermole/MTV 2018/Getty Images para MTV.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Queria estar enganada sobre Lindsay Lohan's Beach Club. Apesar do trailer do novo reality show da actriz norte-americana me ter deixado triste, pensei que haveria alguma hipótese de que, por mais difícil que fosse, um salário da MTV pudesse abrir caminho para um regresso de Lohan. A menos que ela queira ser a nova Kris Jenner, rainha dos reality, neste momento isso parece improvável. Ainda assim, fiquei feliz pelo programa usar o seu single de 2008, “Bossy”. Agarra-te a esses royalties, miúda!

Em vez de engraçado, Beach Club é voyeurismo doloroso. Desde a primeira imagem - com Lindsay a usar demasiada maquilhagem, lábios pintados de cor-de-rosa technicolor a contrastarem com a sua pele delicada e sardenta - dá vontade de atravessar o ecrã e abraçá-la. Quando LiLo fugiu dos EUA para ir viver para o Dubai e Grécia, estava a tentar curar-se e reconstruir-se. Mas, o ambiente tóxico de um set de um reality show parece-me ser o pior lugar da Terra para se fazer isso.

Nos primeiros minutos, Beach Club aborda o passado doloroso de Lohan. Ela é famosa desde criança, os seus pais tiraram proveito disso e era constantemente assediada por paparazzis. Lindsay tentou fugir de tudo isto ao mergulhar na vida boémia, o que evoluiu para um transtorno de consumo de substâncias e acabou em cadastro criminal e reabilitação. É quase um milagre que tenha saído com vida.

Lindsay fala carinhosamente sobre a ilha de Mykonos, na Grécia, enquanto passam imagens de varandas brancas e rabos em biquíni a mergulhar num oceano azul turquesa (a sério, muitos, muitos rabos.) Todavia, a coisa de que ela mais gosta na ilha é o facto de se tratar de um lugar “seguro”, explica. Fora de contexto, é uma coisa estranha de se dizer.


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Há uma razão mais pesada para a actriz ter decidido comprar um pedaço de praia que transformou num destino turístico. Esse é o sítio onde o seu ex-noivo, Egor Tarabasov a atacou em 2016, à frente de toda a gente na praia e dos paparazzi. Nas fotografias, vê-se o “playboy russo” a agarrar violentamente a artista, emaranhada nos seus cabelos vermelhos, com a pele pálida exposta quando o seu vestido é rasgado. É difícil de ver.

Depois de se livrar de Tarabasov, Lohan ponderou qual seria o melhor “que se foda” para essa história e, assim, decidiu comprar a praia em que ele a agrediu. “Em vez de chorar e sentir raiva, pensei 'Um dia vou ser eu a dona desta praia', porque sempre quis que toda a gente se sentisse segura”, conta a actriz no episódio piloto de Beach House. E acrescenta: “Transformei esta praia em algo importante para mim”.

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Panos Spentzos e Lindsay Lohan no Lohan Beach House, em Mykonos, Grécia. Cortesia MTV.

A única coisa que diferencia Beach House é a própria Lohan. Fora isso, trata-se de uma cópia de todos os outros reality shows que existem por aí: colocar um monte de gente bonita numa casa de luxo com muito álcool disponível e, depois, é gozar e rir quando eles se portam mal. Ensaboar, enxaguar e repetir.

O mundo de Beach Club parece-se com um Jersey Shore passado na Grécia, com o mesmo tipo de pessoas de 20 e poucos anos que adoram bronzear-se e fazer exercício, só que ninguém é tão interessante como a Snooki ou Pauly D. O refúgio de Lohan em Mykonos é como um clube nocturno de LA, ou uma festa de piscina em Las Vegas, só que com mais areia. O lugar é tão extravagante como foleiro (agora, a abundância de rabos faz sentido).

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O elenco de 'Lindsay Lohan's Beach House'. Cortesia MTV.

Há outras coisas que dão vergonha alheia em Beach Club e que te fazem pensar “Sim, 2019 é um vácuo cultural”. Primeiro, o sócio de Lohan, Panos Spentzos, é a verdadeira Lisa Vanderpump a comandar o programa e é péssimo. A primeira vez que conhece os “Anfitriões VIP” que contratou, diz: “Tu és giro, todos vocês são, o que é muito bom para mim”. Mais tarde, Spentzos manda Brent Marks, um promotor de Las Vegas, atender uma “modelo” rica do Dubai que chega ao Beach House sozinha. Marks acaba a enrolar-se com ela numa cabana privada, enquanto o resto do staff entra em frenesim. Spentzos fez basicamente de chulo, mas por ele tudo bem, já que o próprio é um arquétipo de playboy. A névoa de tóxicas políticas sexuais é cansativa.

Todo o cosplay de “mulher de negócios” de Lohan parece uma charada, desde a cena em que ela e Spentzos surpreendem o elenco bêbado que estava a nadar nu com uma Reunião Séria™, até ao momento em que Lohan afirma “Não tenho emoções quando se trata de negócios”. Não vi o departamento financeiro do clube da Lohan, mas não parece que as coisas estejam a correr muito bem. Para ser justa, esta altura do ano é época baixa em Mykonos, mas uma visitante disse recentemente à Vanity Fair que viu “literalmente uma bola de feno” no clube durante a sua estadia.

Ainda assim, ao contrário de outros reality shows que tendem a ser “tão maus que são bons”, Beach Club deixou-me deprimida de uma forma que outros programas deste tipo não deixam. O reality show foca-se num grupo de narcisistas que largaram tudo para trabalhar para alguém que consideram um ícone, mas que, claramente, ainda está a tentar ultrapassar diversos traumas.

Mesmo que Lindsay esteja a realizar o seu sonho de ser dona de um negócio e, mesmo que ter comprado a praia tenha sido um grande “foda-se” para um ex abusivo, é preocupante e principalmente estranho ver a actriz a usar a sua dor para reconstruir a sua marca e, simultaneamente, alimentar as massas famintas por conteúdo.

Gostava que ela usasse o seu dinheiro e influência para fazer algo pelo país que ela diz que a curou. Lohan não é obrigada a fazer caridade, mas a sua riqueza e influência poderiam ter um grande impacto na Grécia, desde que ela trabalhasse com organizações de ajuda com boa reputação, por exemplo. Mas, de momento, enquanto Lindsay navega pelo próximo passo da sua jornada, temos Beach Club, um programa sobre o esconderijo dourado de uma estrela, em que ela ainda se faz rodear de câmaras, mas desta vez, de acordo com as suas palavras, a sentir-se segura.


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