Carlos Dafé fala sobre o seu primeiro disco, obra-prima do soul brasileiro
Foto: Felipe Larozza
Noisey

Carlos Dafé fala sobre o seu primeiro disco, obra-prima do soul brasileiro

Voz primordial dos anos 1970, o cantor, músico e compositor é um dos capítulos obrigatórios para entender a música negra, que não era samba, produzida na época.
16.1.18

No Disquecidos, relembramos os OUTROS álbuns clássicos da música brasileira. Nesta edição, o cantor, músico e compositor carioca Carlos Dafé, no auge de seus 70 anos, relembra as piras e as inspirações sobre o seu dançante disco de estreia solo que completou 40 anos em 2017.

Carlos Dafé toma seu café com adoçante na casa de sua produtora na Zona Oeste de São Paulo enquanto olha para si mesmo na capa de “Pra Que Vou Recordar”, obra que completou 40 anos em março de 2017. É inevitável reparar na generosidade do tempo com aquele senhor de 70 anos. Pequeno, bem vestido e ágil na memória e nas palavras, ele recebeu a reportagem do Noisey para falar sobre seu primeiro disco solo, aquele que fincou-se como clássico do soul brasileiro e que hoje é cobiçado, por algumas centenas de reais, por colecionadores e DJs de vinil.

Foto: Felipe Larozza

Se você nunca ouviu falar do Dafé, abre uma aba do Google e dê uma pesquisada de leve. Ele tocou com Elza Soares, Tim Maia, Tânia Maria, era do Grupo Senzala, diz que não participou do Grupo Abolição porque não tinha black power, gravou no disco clássico do Verocai — que já entrevistamos por aqui — e fez mais um monte de coisas que não couberam em 1h30 de conversa.

Fuzileiro da Marinha, ficou preso por oito meses, entre 1971 e 1972, por ser pego com “uns baseadinhos” da Mangueira. Segundo ele mesmo, ficou guardado na Ilha das Cobras, “onde ficou Tiradentes” e tem o nome registrado no Arquivo Nacional. Aproveitou o período “sabático” como laboratório para dois anos depois lançar sua obra-prima.

Nascido no dia 25 de outubro de 1947, com registro em 10 de novembro de 1947, Dafé dá o veredito. “Sou escorpião duas vezes”.

Ele falou longamente sobre as canções, os parceiros, a música produzida na época e as brisas que os inspiravam e mais uma porção de coisas que estavam em seu universo que misturava Landau, maconha e Marinha Nacional.

Entra no clima, dá o play e emenda no papo:

Noisey: Este é o seu primeiro LP?
Carlos Dafé: Eu participei como músico em dois, um foi o Pedrinho e os Diplomatas, do qual o Luiz Carlos foi o batera, eu toquei baixo e o irmão do Gilson Peranzetta, o Gelson, era o band leader. E depois veio o Fuzi 9, na Marinha, em 1970. Inclusive esse vinil hoje é cultuado pelos DJs. Eu nem sabia disso. Quando eu cheguei em Los Angeles os caras conheciam, em Amsterdã também. Em Recife eu tava em um concerto com o Arthur Verocai e um menino novinho levantou com o disco do Fuzi 9 embaixo do braço.

Então é o seu primeiro solo.
Sim, eu venho dos compactos simples. Em 1972 na Philips, 1974 na Som Livre. Antes do vinil a Warner lançou um compacto também, em 1976. Foi “Tudo era lindo” e “Pra que recordar”.

Quando eu achei o LP tinha o compacto também, mas tava caro para levar os dois. Dafé tá caro, pô.
Tá mesmo.

Como nasceu este disco?
A Equipe Soul Grand Prix, o Don Filó, o Nirto e o irmão do Oberdan, o Alcione Magalhães. Eles começaram a conversar com o André Midani e o Mazola. Toda gravadora que tem um catálogo internacional, por lei, tem que ter um catálogo nacional também, e a Warner tinha pouca gente e dentro do gênero não tinha praticamente ninguém. Eles começaram a conversar e sugeriram a galera.

Eles sugeriram o seu nome?
Eles sugeriram e foram a base do meu som. O Grupo Senzala era a base e a metaleira era da Banda Black Rio. E tem uns convidados como José Roberto Bertrame, Lincoln Olivetti e mais um tecladista do Index, o Marcos Resende. Aí juntou ainda com a metaleira da orquestra da Globo.

Como era o mundo em 1977?
Pô, esperança pra caramba, realização. O que você pensasse era possível realizar, claro que com luta. Era uma época que prevalecia o talento. Tinha dificuldade para furar o bloqueio, mas com o seu talento era possível. É diferente de hoje. Hoje a grana prevalece. Até pra quem canta, hoje o Pro Tools vai lá e afina.

Como era o papo com a gravadora nessa época? Eles falavam "ó, tá aqui o caminhão de dinheiro". Tinha alguma restrição?
Com nós artistas esse papo da grana não rolava.

Mas você teve tudo o que você pediu para gravar?
Eles deixaram a gente bem a vontade. Exploraram o nosso potencial. Agora, é claro, houve uma direção. O Mazola, o Liminha.

Você queria produzir esse disco com o Mazola ou eles que trouxeram o produtor?
Eles já chegaram e puseram as cartas na mesa. Nós queríamos a gravadora e eles falaram "nós estamos aqui". É desse jeito.

Esse é um dos primeiros discos que saíram pela Warner, né?
Sim, é do primeiro embalo.

Tinha o selo Atlantic que lançou o A Cor do Som e outras coisas também.
Exatamente.

Mas tinha a lacuna para o som que você fazia então.
Exatamente. Não tinha ninguém que fazia música black. Tinha A Cor do Som, tinha a Marina, Hermeto Pascoal e foi aumentando depois com Black Rio, Dafé, o próprio Tim (Maia) foi pra lá e gravou um disco.

O que você estava ouvindo nesse período para chegar nesse som?
A Rádio Mundial tinha dois caras: Pedrinho Nitroglicerina e Big Boy. Aí fuça daqui, fuça dali e descobrimos onde eles achavam as novidades que tocavam. Eram duas lojas em Copacabana. Aí nós fomos lá e fazíamos questão de vir na rua com o vinilzão embaixo do braço e "pô, que sonzaço", mas nem tinha ouvido ainda. Mas só o lance da capa já era um barato e falava que era importado. E depois veio a Motown e as trocas de informações com o Tim Maia.

Como foi sua relação com ele?
Eu fui músico dele. Ele mandou me buscar por causa de um compacto simples que eu gravei na Philips. O divulgador levou os suplementos para ele, que eram os internacionais e levou no meio o meu compacto simples que era “Verônica” e “Venha matar saudade”. Ele ouviu e "pôôô (imitando a voz do Tim Maia), o som desse garoto é legal". O divulgador, o Murilo, que hoje é meu compadre, encheu minha bola. "Ele toca teclado, canta, compõe, toca baixo", e o Tim Maia perguntou se eu queria tocar com ele. Eu fui tocar com ele e ficamos amigos.

Foto: Felipe Larozza

E como era essa amizade?
Eu, ele e o Paulinho Guitarra tínhamos um clima de pegar as novidades. A gente ficava pesquisando, comprava e emprestava para o outro.

E quanto tempo você tocou com ele?
Eu toquei um ano.

E ele tinha esse lance de, quando o músico não tava conseguindo pegar o andamento, ele sentar na batera e tocar?
Sim, ele sentava e mostrava. Outra coisa, eu dou a mão a palmatória num lance. Eu estudei teoria musical, fiz solfejo, mas eu aprendi a tocar no tempo com o Tim Maia. E tem um detalhe: chega um músico lá, por exemplo, no teclado. E o cara começa a (imita o som de um tecladista virtuoso e cheio de notas). Ele falava. "Pô, garoto. Tu é bom, mas guarda isso aí pro teu disco. Aqui eu quero o simples". É difícil fazer o simples com qualidade.

Quem eram os artistas que faziam a sua cabeça para você chegar nessa sonoridade? Porque não é o James Brown, não é a Black Rio, é o Dafé. É outro papo.
Eu ouvia o James Brown, tinha um álbum duplo que tinha “Sex Machine”. Kool & The Gang, Marvin Gaye, Curtis Mayfield e eu não posso esquecer do Ray Charles, BB King, Wes Montgomery, Chicago e tem a outra banda, a branca, qual o nome. Tinha um acorde de sétima, nona aumentada que ô rapaz… Aí tem a Diana Ross, o Michael Jackson, eu conversei com ele na época do Jackson Five. Gostava muito do (Jimmy) Hendrix.

Esse disco foi feito a base de quê? O que vocês bebiam, fumavam? O que vocês faziam naquela época?
Clínica geral. A gente veio do Woodstock, do ácido, do cogumelo. Eram os chás, os LSDs, as viagens, mas havia uma preocupação incrível com a natureza.

Você tocava e cantava bem quando tava doidão?
Tocava, mas eu preferia tocar lúcido. Até hoje. E hoje já passou, o organismo não aguenta.

Sem ler a ficha técnica dá para reconhecer a Black Rio neste disco, né?
Sim, porque a base da Black Rio era o Grupo Senzala onde eu amadureci as obras.

Havia uma fórmula estabelecida pela gravadora? Ó, tem que ter uma balada, uma disco ou deixaram na mão de vocês?
A gente apresentava e tinha o sim e às vezes o não. Por exemplo, “Pra que recordar”, que tem mais de 100 regravações, o Mazola não queria neste disco. Eu fui fazendo toda a vontade dele aí quando chegou no final falei: "agora deixa eu gravar a minha música?" Era a canção do sucesso da noite. Tem versão em espanhol, inglês, russo.

O disco abre com “De alegria raiou o dia”, que tem uma das bateras mais fodas do soul brasileiro. Ela começa tão sincopada, tão no tempo que não tem como essa música dar errado. Como foi o processo dessa música, a inspiração para a letra?
Eu e o meu parceiro Dom Mita viemos com um pacote de músicas para apresentar em São Paulo, porque ele já tinha alguns artistas para indicar aqui na Editora Arlequim, na avenida Rebouças. Eles editavam o Chico Buarque, Jorge Ben, Toquinho. Você conseguia um adiantamento e os editores eram pessoas mais sensíveis, por isso valia a pena.

O Dom Mita comprou um Landau, a gente lá atrás fumando um. Eu com o violão, ele escrevendo. Aí tem o Carlinhos, que botamos eles numas parcerias, tava dirigindo e a gente atrás. Aí pintou “De alegria raiou o dia”. Fizemos na Dutra.

Quando chegou na última parada, antes do último pedágio, nós paramos para fazer um lanche, mas a grana já estava escasseando. Reabastecemos, sobrou o do pedágio e fomos embora. Quando passamos, empolgamos com a música, percebi que tinha esquecido a minha capanga com os documentos lá no posto. Tu não sabe da maior, o Dom Mita não tinha um documento, eu era o procurador. Ficou ele e eu nus.

Conclusão: a música entrou no disco, o Roberto Thalma ligou e fizemos um clipe com 200 figurantes e tudo o que tinha de moderno naquela época.

Aqueles clipes do Fantástico?
É, tô correndo atrás daquele vídeo.

Aí a gente vem para “Tudo era lindo”. Ela tem bem a pegada de R&B, mas tem um backing vocal antes do refrão que lembra Raul Seixas, o jeito das vozes entrarem. O que era lindo nessa época?
Isso foi um tema que eu fiz quando estava preso na Marinha, tem o meu parceiro Jomari. Ele marinheiro e eu fuzileiro, mas juntos no presídio naval.

Por que você tava preso?
Ah, por nada (juntou o polegar com o dedo indicador simulando fumar uma ponta de um baseado). Tu imagina? Em plena Ditadura Militar.

Você passou muito tempo preso?
Eu fiquei oito meses, fui condenado a um ano.

Mas era diferente ficar preso lá em comparação a um presídio comum?
Diferente nada, preso é preso. A mudança só que tinham os caras que ficavam trancafiados, os presos políticos.

Você rodou como?
Eu fui preso saindo da Mangueira. Eu tava caguetado, um X9 me caguetou. Mas eu fui preso, porque não dei o meu gravador, eles queriam o meu gravador para me liberar e eu não dei. Imagina, um moleque pobre que queria ter um gravador, comprei a prazo, pagava 90 pau por mês, era um cruzeiro forte na Mesbla. Com aquele gravador eu fazia o meu laboratório. Aí saí de lá já gravando.

Foto: Felipe Larozza

Como era esse laboratório?
Foi lá no presídio que eu descolei o timbre de voz, foi lá que eu fiz altas composições.Eu tratei de ter uma ocupação, trabalhava na lavanderia, mas em qualquer pausa eu pegava o meu violão e os caras me davam essa colher de chá, porque sabiam que eu era do conjunto, o Fuzi 9. Eu fazia o meu som.

Você ficou preso em que período?
Eu fiquei preso de 1971 a 1972.

Período embaçado de Ditadura. Era o Governo Médici, né?
Eu fui parar no Cenimar (Centro de Informações da Marinha). Eu tenho o nome registrado no Arquivo Nacional.

Mas você foi torturado por fumar um baseado?
Ah, tortura de luz, mas eu tirei de letra aquilo. Eu desconversava tudo. Comecei a cantar, declamar minhas poesias. Eles tinham o olho em mim, porque eu era de Marinha, era envolvido em festivais estudantis. Tinha um colégio lá na Ilha do Governador que eu de vez em quando ia apresentar uma música e de repente alguém mandava eu vazar, porque o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social, um dos grupos mais temidos no período militar) tava lá.

Você tinha uma militância política?
Sempre tive.

Foto: Felipe Larozza

Mas conseguiram te pegar só por causa de um baseadinho.
De UNS baseadinhos. O cara enchia a mão no meu bolso e não parava de sair. Ele perguntou. ‘Que plantação é essa?’

Agora um detalhe: a parada da droga nessa época era paz e amor, era o lance de Woodstock, do hippie.

Mas as pessoas não costumam ter essa ideia sobre um fuzileiro e até hoje não é comum pensarem que mesmo militares possam ter aspirações artísticas, talento ou até experiências com drogas.
Nessa época era diferente. Os oficiais eram pessoas inteligentes, com outra formação. Formação intelectual, formação cultural. Eles sabiam quem era doidão, quem era maluco, mas eles primavam pelo lado criativo. O almirante, o comandante-geral, botou o Luiz Carlos (Batera) num colo e eu no outro colo lá no Batalhão da Toneleros.

Qual foi a inspiração para “Tudo Era Lindo”?
Foi a carta de amor que eu escrevi para uma namorada. Aí o Jomari veio comigo para virar música, aí virou a balada. E tocou muito na Rádio Cidade.

Aí vem “A Cruz”. Você é um cara religioso? Outra coisa, tem um solo de sax do Oberdan Magalhães, como foi isso?
Ela tem um detalhe muito mais forte do que um lance de religião e por sinal eu sou eclético, não sou católico, não sou macumbeiro. Eu sou geral.

Estávamos no ensaio na casa do Luiz Carlos Batera e a gente tocava com o Tim Maia. Era lá em Senador Camará, área de Mangu, Campo Grande. Saímos em dois carros para ir do outro lado no Pico da Serra Branca para fumar um. Tamo indo e daqui a pouco eu escutei uma voz assim: "olha pra trás". Aí olhei e vi uma cruz. "Olha direito, olha direito". Aí eu olhei direito e quando eu olhei vi que estava escrito "25/10", a data que eu nasci. Depois eu juntei com a Tânia Maria e fechamos a parada, ela gravou essa música primeiro na França. Ela gravou para o samba, eu gravei para o soul. Essa música hoje quando eu abro o bico para cantar eu vejo criançada cantando. Isso é herança.

A música que fecha o lado A é “Mr. Wonder”. É um groove desgraçadamente bom. Era um recado para o Steve Wonder?
Isso era bom demais, meu coração batendo até sambar. Na Rádio Jornal do Brasil tocava um tema do Sérgio Mendes em parceria com ele aí fizemos "isso é bom, legal demais, rapaz /

Seu coração batendo até sambar / Noutro dia por aí te ouvi cantar / Nossa canção com seu calor, irmão" . É essa onda aí que é sucesso nos bailes do Rio.

Aí você ouve bem a Black Rio.
Sim, porque aí você sente a mistura do samba com o soul.

O lado B abre com “Bem Querer” que tem uma energia do samba e do funk. Como foi o processo?
Na real quando pintou o lance da harmonia com a melodia eu lembrei de um som que eu ouvi nos anos 1960 no rádio. Me deu aquela lembrança. Era brasileiro, mas já com uma conotação internacional. Aí fizemos "Tanta dor, tanta tristeza / Vim de longe, pra buscar meu bem querer".

Era você, o Lucio Flavio e o Tião da Vila.
Isso mesmo. O Tião da Vila era o homem da parada de sucesso, eu acho que ele ficou aqui, mas acho que já faleceu. Ele tá deixando de ganhar uma grana, porque o Seu Jorge gravou e ninguém se manifestou, até tem que procurar a família dele.

Como surgiu “Pra que vou recordar o que chorei”?
Inclusive esse tema, “Pra que vou recordar”, foi sobre uma bailarina que se matou no Hotel Nacional, no Rio de Janeiro. Me chamaram num canto para eu dar conselho a outra bailarina que queria se matar também, tudo por questão de amor. Eu tava beirando a 30 anos, falei que não tinha experiência, mas falaram para mim. ‘Tem sim, cara. Quando tu canta aí na frente, elas cantam aqui atrás. E outra coisa, tu esqueceu que quando tua mulher tava grávida da sua filha elas te traziam presentinhos pra tu levar. Os pedidos que elas faziam.

Fui para casa no outro dia de manhã, lá plantando no meu jardim e veio uma melodia, na sequência eu peguei um lápis, um caderno e cobri a melodia, cantei no camarim e cantei ela cinco vezes naquela noite.

Um dia um cara me parou no aeroporto aqui em São Paulo, indo para o Rio, e um rapaz me falou assim: ‘pô, parabéns. Você salvou a minha mulher com tua música “Pra que vou recordar”. Eu sou o marido da Miriam, aquela lá do Hotel Nacional. Nós temos dois casais de gêmeos.

Seu presente tá aí,né?
Pô.

Por que você abreviou o nome para o disco?
Não fui eu não. Eu não sei o que aconteceu. O título originalmente era “Pra que vou recordar o que chorei”, mas acho que isso aqui foi ideia do Mazola. Ele não gostava dessa música. De repente ele chorou muito e fez isso.

Em “Zé Marmita” tem uma subida sua no começo que acaba com tudo. É você e um piano e depois vira um samba jazz muito foda. Como rolou isso?
Tem um papo político aí. Era uma época em que o povo brasileiro tava ali futebol, samba e Carnaval e o couro comendo. Aí eu fiz "Deixa de fita, seja sincero / Ô Zé Marmita, abra seu peito" e coloquei "cantando na avenida você nem vê que amanheceu"… Aí o Sérgio Cabral, o pai, colunista do jornal O Globo, de esquerda, botou no jornal que eu tava tirando o sonho do sambista. Não, eu só tava acordando o sambista.

E quem é o Vandenberg que assina a canção com você?
É meu parceiro dos festivais, meu parceiro das perseguições políticas. Era ele e o Antônio José do Espírito Santo.

A gente vai chegando no final do disco com “Bichos e Crianças” que é uma disco foda. Como rolou esse som?
Isso sou eu e minha mulher levando a nossa filhinha, com dois anos de idade, no zoológico na Quinta da Boa Vista para ver os bichinhos, aquele negócio todo e tal. Verônica se deliciando e o que sacamos? Um barato. A gente começou a falar que a mamãe girafa também levava a girafinha para ver a gente. "Olha lá aquele negão". Aí saímos de lá numa tempestade com água no joelho salvando a nossa filha. Chegamos em casa, tomamos banho quente, chá e eu vou para o piano, ela começa a cantar comigo.

Aí ela virou sua parceira na faixa?
Isso, Marilda Barcelos.

É sua esposa até hoje? Há quanto tempo vocês estão casados?
Ih, já perdi a conta.

Quantos filhos vocês têm?
Dois, a Verônica e o Dafézinho.

Aí temos “Metrô”, que é uma das porradas mais legais da Black Rio está no seu disco.
É uma música que eu toco pouco, mas é pedida pra caramba.

Ela tem trechos bem psicodélicos, da guitarra, tudo.
E aquela metaleira maluca, que foi coisa do Oberdan. Ele me mostrou a parada e eu criei em volta.

É, já tinha uma parada urbana nesse som.
Sim, porque estava sendo construído o metrô no Rio, mas eu criei o cenário envolto na pirâmide que o Oberdan me apresentou. Eu tenho dificuldade de tocar no show, porque eu não posso violentar a obra do jeito que ela tá. Se for tocar tenho que tocar na íntegra.

Quantas cópias o disco vendeu na época?
Eles nunca revelaram para nós.

Esse era um grande problema das gravadoras, né?
Sim, nunca deram um disco de ouro para nós nem para a Banda Black Rio sendo que em todo lugar que a gente vá até hoje as pessoas conhecem a nossa obra.

Você tem um chute de quanto vendeu?
Pode pôr aí umas 200 mil cópias.

Você escreveu todas as letras e toca no disco inteiro. Como você fez para participar ativamente em tudo?
Eu sempre participei de tudo, é um filho.

E qual foi a inspiração para a capa?
Isso foi porque a moda era disco.

Você lembra o dia em que rolou a foto?
O dia não, mas foi em Santa Teresa. Foto do Sebastião Barbosa.

Foto: Felipe Larozza

Nos agradecimentos, além das pessoas que já mencionamos, tem uma mulher chamada Regina. Quem é ela?
Ela era da parte administrativa da Warner, ela era secretária lá. Ela ajudou muito.

E qual a importância dela, do Guti, Alcione, Don Filó e da Equipe Soul Grand Prix para a realização desta obra?
Foi 10. Eles foram de suma importância.

Quanto tempo você ficou em estúdio produzindo?
Nós ficamos cerca de dois meses gravando. A Warner tinha o maior zêlo, eles tinham a maior preocupação.

E saiu do jeito que você esperava?
Saiu. Saiu até melhor.

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