Publicidade
análise

Vale a pena linchar neo-nazis nas redes sociais?

Talvez existam alternativas mais eficazes a longo prazo.

Por Whitney Phillips
21 Agosto 2017, 11:53am

Imagem: Getty

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

O ano de 2017 tem sido de desgraças, atrás de desgraças, atrás de desgraças. desta vez, a questão que se coloca é a de se vale mesmo a pena expor e humilhar fascistas nas redes sociais. Por mais que, num ímpeto, achemos que a resposta é óbvia, vale a pena respirar e racionalizar.

O argumento mais forte contra a identificação dos manifestantes de Charlottesville, por exemplo, é a possibilidade - que já se provou ser real - de erros. Identificações erradas na Internet são sempre um pesadelo. Os alvos ficam vulneráveis e incapazes de limpar o nome e a imagem. Muitas vezes, o engano persegue-os por toda a vida, tanto no âmbito pessoal quanto profissional. Imagina seres confundido com um nazi? É uma das piores atribuições, se não a pior, que podemos conferir a alguém.


Vê: "Charlottesville: Raça e Terror"


Outro problema sério é a facilidade com que agentes mal-intencionados se apropriam da vigilância online para semear discórdia só pelo prazer da discórdia, ou mesmo para deixar um lado oposto em maus lençóis. E se os nacionalistas brancos resolvessem descreditar anti-racistas, apontando-os como se fossem participantes da marcha neo-nazi? É a lição que aprendemos com quase 10 anos de estudo de casos: quanto mais turva estiver a corrente de acontecimentos, maior tem de ser a cautela. É necessário ter cuidado com o posicionamento de desconhecidos nas redes. Na dúvida, não reajas.

Por outro lado, o melhor argumento para denunciar os manifestantes é o de que participaram, por livre e espontânea vontade, numa marcha supremacista, amplamente coberta pela comunicação social, sem máscaras, iluminados por tochas. Foram eles que se expuseram. A divulgação das suas informações pessoais é consequência natural dessa escolha.

Além disso, ser nazi (utilizo o termo "nazi" aqui sem muita precisão, em tom provocador, porque o grupo não incluía apenas nazis auto-declarados; contudo, na minha ideia, fazer saudações nazis e entoar lemas nazis, ou simplesmente optar por se associar a quem faz isso, compromete o direito do cidadão a não ser rotulado de nazi) é muito diferente do que fazer uma piada ofensiva, motivo de muitas intervenções diligentes nas redes. É muito, muito diferente de ter uma visão política da qual os outros podem discordar. Ser nazi, associar-se a nazis, ou simplesmente fazer-se de desentendido enquanto nazis agem, é uma questão de saúde pública. É uma ideologia baseada em exclusão e violência. É antidemocrática e perigosa na sua essência. Portanto, que se fodam esses gajos e as bandeiras que levantam.

Ambos os argumentos são fortes, mas ambos representam também fenómenos superficiais. Embora o dilema imediato seja "expor ou não expor", ou "dar RT ou não dar RT em quem expõe", há questões maiores por detrás. Se fores uma pessoa branca de boa vontade, vale a pena perguntar: sou mesmo um bom aliado? Estarei mesmo a ajudar?

No momento de expor e humilhar nazis, o primeiro passo a ter em consideração é tentar compreender a narrativa dos media. Logo após a marcha em Charlottesville, o foco de muitas reportagens foi a identificação errónea dos participantes. Foco compreensível, visto que é um forte argumento contra a vigilância generalizada. Outros artigos destacaram o impacto dessas acções na vida dos participantes, como, por exemplo, despedimentos dos empregos e outras consequências sociais imediatas. No entanto, ainda há quem questione a exposição de infractores, seja qual for a circunstância, com base no argumento de que contribui para uma mentalidade de turba. São questões válidas, tanto neste caso como em geral. Ainda assim, todos esses artigos sobre Charlottesville fazem praticamente a mesma coisa: retratam os fascistas como protagonistas da história. Viram os holofotes para eles.

Que fique claro: não devemos ignorar as fotos que correm pelas redes sociais dos supremacistas brancos a vociferar em coro, com expressões fantasmagóricas. Mas, também não podemos tratar essas imagens com um olhar fetichista, restrito aos envolvidos retratados. A óptica e a iconografia implementadas pelos manifestantes, da saudação nazi à bandeira confederada, incluindo ecos do Ku Klux Klan, trazem à tona a história traumática dos EUA.

Ancorados nessa história, os manifestantes perpetuaram uma violência simbólica, antes mesmo de levantarem os punhos e balançarem as tochas em tom de ameaça. Os alvos dessa violência, o contexto dela e as formas como já destruíram gerações, têm de ser o verdadeiro cerne da narrativa, mas essas questões perdem-se com facilidade quando as manchetes se preocupam mais com a vida destes tipos repugnantes. Há outros rostos - rostos não brancos, rostos femininos - que merecem atenção de facto. São as suas histórias que merecem ser contadas, o seu futuro que merece ser defendido.

Evidentemente, o combate a supremacistas brancos (expondo-os ou não) e outras formas de protesto não têm um cariz de auto-exclusão. Contudo, para lutar contra as forças da intolerância, encará-las de frente e negá-las de todo, não basta vociferar por condenação; não adianta ficar a falar de pessoas brancas. Em relação aos homens brancos em especial, é hora de lhes retirar os microfones e deixar outras pessoas falarem. O mesmo se aplica a nós, eu e tu.

Outra reflexão a ter em conta na hora de decidir se vale mesmo a pena expor e humilhar os nazis, é a de ponderar sobre os interesses que serão saciados, ainda mais quando não é possível verificar com certeza absoluta se o alvo em questão tem mesmo culpa no cartório. Se identificares a pessoa errada, vais acabar por beneficiar os supremacistas brancos. Se identificares a certa, é possível que, ainda assim, os beneficies.

Pensemos como seres humanos. Sem dúvida, fazer com que os manifestantes de Charlottesville enfrentem consequências, garantir que sejam julgados e condenados, dá uma sensação de missão cumprida. Embrulha o estômago imaginá-los impunes e seria mesmo uma enorme irresponsabilidade. Ao mesmo tempo, a disseminação desse tipo de imagens e vídeos fortalece a causa fascista. Dá visibilidade à causa, confirma o seu falso martírio (que serve de base para o argumento "dos vários lados") e ajuda a estabelecer um sentido maior de colectivo fascista, de união.

Não significa que devamos sentar o rabo no sofá, em silêncio, à espera que a onda passe. Não vai passar. Estamos todos em perigo. Mas, há factores maiores a considerar, questões éticas mais profundas, para além do impulso imediato e compreensível, de começar a retuitar, a partilhar. Se não era claro antes de Charlottesville, agora é mais do que evidente: temos de respirar fundo.

Whitney Phillips é professora na Universidade Mercer e co-autora do livro The Ambivalent Internet.


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.