"Ser homem ou ser mulher é cultural", diz Carol Duarte
Foto: João Miguel Júnior/Globo
Identidade

"Ser homem ou ser mulher é cultural", diz Carol Duarte

A atriz que vive o primeiro personagem trans da TV brasileira em 'A Força do Querer' fala sobre gênero, o papel do ator e feminismo.
6.9.17

A atriz Carol Duarte já chegou atraindo os holofotes em sua estreia na TV. Aos 24 anos, ela vive na faixa nobre da Globo a personagem trans Ivana/Ivan, um dos grandes destaques da novela A Força do Querer, de Glória Perez. Para quem não se liga em teatro, a atuação da Carol pode ter sido uma impactante surpresa. A segurança e a entrega vistas na tela, porém, vêm de uma carreira nos palcos a que ela se dedica desde os 15 anos, tendo feito desde então cerca de 20 peças.

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A personagem da Ivana reflete essa experiência e a coloca em evidência numa trama que conta com ótimas atuações de Isis Valverde (Ritinha), Juliana Paes (Bibi), Paolla Olveira (Jeiza), Humberto Martins (Eurico), Marco Pigossi (Zeca) e Rodrigo Lombardi (Caio). Nos capítulos recentes o drama de Ivana se intensificou com os primeiros efeitos dos hormônios que está tomando, a revelação para a família, a saída de casa, o corte de cabelo, os primeiros sinais de barba e a voz grave… A cena dela no quarto aos prantos com a mãe (Maria Fernanda Cândido) após o comunicado, foi tensa, dolorosa e comovente.

Nesse momento de grande exposição, de virada total, em que o impacto do personagem leva inevitavelmente para a mídia e as redes a discussão sobre transgeneridade, procuramos a Carol para esta entrevista. Entre outras coisas, ela defende que gênero é uma construção social, que o papel do ator é provocar e que o feminismo urge.

VICE: Quando lhe foi apresentado o papel da Ivana, você tinha noção do impacto que ela teria?
Carol Duarte: Já nos testes eu sabia da responsabilidade do papel tanto em cena quanto fora. É uma personagem muito importante, principalmente nesse momento. Quando soube que faria a Ivana me dediquei muito nos estudos e nas preparações. É um trabalho que me dá muito orgulho.

Você acha que a maior parte do público entende essa mensagem sobre a importância de considerarmos a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero?
Algumas pessoas vêm conversar comigo falando justamente sobre essa diferença entre identidade de gênero e orientação sexual. A novela está gerando discussão e diálogo. Eu espero que, assim, as pessoas busquem mais informação. Muitas vezes o preconceito vem da ignorância, da falta de conhecimento sobre o tema. É muito positivo ver as pessoas reconsiderando alguns dogmas postos pela sociedade, assim podemos projetar a nossa saída do ranking de país que mais mata travestis e transexuais.

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Pelo fato de a Ivana, ou melhor, o Ivan, ser um trans gay, você leu, estudou o assunto, conversou com pessoas que já viveram histórias similares?
Eu conversei com muitas pessoas trans, mais homens do que mulheres. Decidi escutar várias experiências para ter essa pluralidade, e então depois singularizar a Ivana a partir da condução da Glória Perez. Foi muito importante — digo desde o que a pessoa me contava, fatos da vida, acontecimentos marcantes, até os silêncios que ela fazia. Uma experiência muitas vezes é contada nas entrelinhas, nem tudo conseguimos colocar em palavras. Me chamou atenção como as pessoas relatavam suas experiências. Foi e é muito precioso na construção da Ivana, ainda mais porque ao longo da trama a Ivana não conseguia nominar sua agonia. As palavras que usamos pra falar sobre alguma experiência são sempre resultado de um transbordamento de sentimentos e sensações, e até a Ivana nominar o que acontece com ela tem um longo caminho. Também vi muitos vídeos na internet de pessoas trans que estão fazendo a transição agora. Eu acompanho alguns canais há um tempo, e eles falam sobre suas sensações, sobre o dia a dia, contam as modificações, os pormenores são muito ricos.

Não é porque o Ivan seja um trans homem que ele vai gostar de mulheres, afinal não é regra o homem gostar de mulher e mulher gostar de homens.

Eu vi também alguns filmes que tratam do tema, entre eles Meninos Não Choram, Tomboy, tem uma série, chamada Transparent, muito interessante, além de alguns livros que olham para questão trans sob diversas perspectivas. É muito interessante que o Ivan seja gay, afinal evidencia que orientação sexual e identidade de gênero são coisas distintas: a primeiro se refere à atração pelo outro, que pode ser por qualquer gênero; a segundo, é como você se relaciona com o seu próprio gênero, aquele que foi designado ao sujeito ao nascer. Não é porque o Ivan seja um trans homem que ele vai gostar de mulheres, afinal não é regra o homem gostar de mulher e mulher gostar de homens.

Carol Duarte em imagem de divulgação da estreia da novela. Foto: Estevam Avellar/Globo

Sobre o processo de transição, a Ivana está tomando hormônios sem acompanhamento. É essa a realidade da maioria das pessoas trans hoje no Brasil?
O acesso ao tratamento de hormonização pela rede pública de saúde muitas vezes é demorado, o que leva essas pessoas a buscarem tratamento privado — a depender da condição financeira —, ou muitas vezes clandestino, sem acompanhamento. O certo seria ter a orientação de endocrinologista, de psicólogo, fazer exames para saber a dosagem de hormônio e o tratamento adequado. Os riscos de fazer [a hormonização] sem acompanhamento é que pode prejudicar e muito a saúde. Cada corpo reage de um jeito, e o tratamento é adequado para cada pessoa. Portanto, não é indicado que se faça o tratamento de hormonização sem acompanhamento.

As pessoas abordam você ou seus familiares na rua ou na internet pra falar, positiva ou negativamente, da personagem?
As pessoas me abordam querendo descobrir mais sobre a personagem, ou buscando alguma explicação, querendo dizer o que acha, demonstrando torcer pela Ivana.

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É comum você ser entendida como porta-voz do perfil que interpreta?
É natural que o público se dirija a mim para falar sobre o tema, mas eu não sou uma especialista, nem represento nenhum movimento, então sempre converso a fim de instigar a pessoa a entender melhor algumas colocações e opiniões, e buscar mais informação.

Você vai ter que sofrer muitas transformações reais no corpo para interpretar a próxima fase da personagem? Vi no Instagram que você estava fazendo uns exercícios…
Quando o trabalho me instiga e me move realmente eu vou até onde eu achar necessário, nunca me vi numa situação limite, tudo o que eu fiz até hoje pra algum personagem é porque eu achei necessário para contar a história, para construir a figura.

Depois de se revelar para a família, cena dramática de Ivana e a mãe. Foto: Estevam Avellar/Globo

Até que ponto você se permitiria transformar a própria aparência e hábitos pessoais por um personagem?
Me inspira desconstruir e construir no meu corpo alguém que vai existir a partir de mim para contar alguma coisa.

Um certo Dr. Paul R. McHugh, psiquiatra, afirma que transgeneridade seria uma desordem mental, e a redesignação do sexo, biologicamente impossível. O que você pensa disso?
Se partirmos do pressuposto de que o gênero é uma construção social, o termo "desordem mental" cai por terra. A sociedade nos diz o que é ser um homem e o que é ser uma mulher, isso é cultural, comportamental, portanto é um conjunto de regras criadas em sociedade. E assim se formam alguns dogmas, por exemplo que meninas gostam de rosa e meninos de azul, que meninas gostam de brincar de boneca, e meninos, de carrinho. Isso não tem a ver com biologia, não devemos tentar explicar a transgeneridade por meio da biologia, como se fosse uma doença. Simone de Beavouir já dizia: "Não se nasce mulher, torna-se mulher".

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Você acredita no papel social do artista?
Eu vejo a profissão do ator quase como a de um provocador social. Não é possível ser um artista se não há uma pergunta latente sobre o mundo. Algo maior que o próprio ego deve ser a força motriz para ser um ator, afinal queremos dialogar com o outro, queremos até viver a vida de uma outra pessoa, para assim trazermos luz a algumas questões que temos em comum enquanto seres humanos em sociedade.

Você é feminista?
Eu sou feminista, sim, e vou lutar até quando continuarem existindo pessoas achando que não existe violência contra mulher por ela ser mulher, até quando a sociedade culpar ou duvidar de uma menina estuprada coletivamente por 30 homens, até existirem pessoas falando pra nós que fomos violentadas por causa da nossa roupa, ou porque bebemos, ou porque não soubemos nos comportar, ou porque não soubemos dizer não… Sou feminista porque vivemos numa sociedade patriarcal e machista. A cada hora no Brasil mais de 500 mulheres são vítimas de agressões físicas.

O cabelo novo e o sorriso inédito no rosto da personagem. Foto: Estevam Avellar/Globo

O que a personagem da Ivana agregou à sua evolução interpretativa?
Eu só tinha trabalhado no teatro antes de fazer essa novela. Como atriz, a parte técnica do fazer da novela me ensinou muitas coisas. O tempo é outro, o tempo de ensaio, de preparação, o volume de cenas, a obra aberta que perdura por meses faz com que eu viva muitas etapas da Ivana por horas e horas, ao longo de meses. Além disso, a Ivana é uma personagem um pouco mais introspectiva, ela não sabia nominar suas angústias, ela é mais dramática. Eu sempre fiz personagem mais extrovertidos e ligados à comédia, então está sendo delicioso experimentar outros registros.

Além da Ivana, que outras vivências você considera marcantes na sua carreira?
Nossa, várias personagens me marcaram, entre elas uma que não tinha nome próprio, era chamada de Puta Magra. Foi uma adaptação do livro Angústia, do Graciliano Ramos, com direção da Luciene Guedes Fahrer; outra é a Carmem, personagem de As Siamesas –Talvez eu Desmaie no Front. Essa peça foi um projeto meu e da Carla Zanini, de duas irmãs siamesas que vivem em um país em guerra e sofrem uma cirurgia de separação. Ao longo da peça, elas tentam se reconectar.

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Depois de A Força do Querer você retorna ao teatro?
Depois dessa novela meu plano é voltar com As Siamesas. A Carla e eu já estamos conversamos, planejando uma temporada em São Paulo e no Rio de Janeiro no primeiro semestre de 2018. Também estou com o projeto de começar um novo espetáculo em parceria com a Luciene Guedes Fahrer, mas ainda sem data de estreia. Estou com muita saudade de pisar num palco e ter um encontro ao vivo com o público, porque vim de lá e vou sempre voltar pra lá.

A mãe, tentando convencer Ivana de seus atributos femininos. Foto: Paulo Belote/Globo

Como foi a sua entrada no teatro?
Não lembro exatamente do dia que entrei no teatro, mas tenho na minha memória que achava incrível essa coisa de brincar de ser outra pessoa, de ficar quase irreconhecível. Eu admirava muito alguns professores que tive quando comecei a estudar teatro, e à medida em que fui me aprofundando nos estudos, me inspirava ler e saber o papel do teatro no passado, entender os grandes artistas que tivemos, e o que eles fizeram para a humanidade.

Como é estrear na TV logo na Globo, numa novela das nove, e com uma personagem de tamanha importância?
Estou vivendo uma experiência inesquecível. Tenho um orgulho enorme de estar fazendo a Ivana, com tudo o que ela representa no Brasil hoje. A responsabilidade e o desafio são grandes, mas isso me deixa mais inspirada ainda, com vontade de mergulhar cada vez mais. Recentemente disse ao diretor Rogério Gomes o quanto tenho aprendido como atriz com essa experiência e o quanto sou grata a ele e à Glória Perez. É realmente uma oportunidade linda de dialogar com o público.

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