Como "Pumped Up Kicks" passou a ser vista como uma ode a atiradores

As interpretações absurdas sobre o hit indie refletem a busca por uma motivação simples por trás de questões complexas, como o massacre de Suzano.
14.3.19
Pumped Up Kicks do Foster the People e a realação com o Massacre de Suzano
Print do clipe de 'Pumped Up Kicks', do Foster The People

Quando eu era adolescente, o Foster the People estourou em meio a outras milhares de bandinhas indie exatamente iguais por causa de um hit específico que tocava na MTV e na rádio o tempo todo. "Pumped Up Kicks", cujo clipe tem mais de 500 milhões de visualizações no YouTube, é a segunda faixa do disco de estreia do grupo californiano, Torches (2011), e não tinha absolutamente nada de original em sua batidinha sintética e vocais em falseto. O tema tratado na letra, porém, já não era tão comum pra média das músicas a entrar no top 5 da Billboard Hot 100.

Descrevendo um tiroteio em uma escola, "Pumped Up Kicks" parte da perspectiva do atirador e detalha seus motivos e seu plano de ação: o desprezo da família, a animação de quando ele encontra uma arma do armário do pai, o momento em que ele passa a perseguir as pessoas na escola com a mesma em mãos. E culmina num refrão tão celebratório quanto preocupante: "All the other kids with the pumped up kicks / You better run, better run, faster than my bullet" ("Todas as crianças com os tênis modernos / É melhor correrem mais rápido que a minha bala"). Na época, a faixa chegou a ser banida de algumas rádios norte-americanas pelo conteúdo das letras.

Nesta terça (13), aconteceu em Suzano, região metropolitana de São Paulo, um desses ataques que, apesar de populares nos Estados Unidos, são relativamente raros no Brasil. Dois jovens, um menor de idade, entraram numa escola pública e abriram fogo contra os alunos e funcionários, matando pelo menos oito pessoas e tirando suas próprias vidas em seguida. Ainda ontem, o portal de notícias R7 confirmou que os autores do crime eram frequentadores do Dogolachan, um dos fóruns onde se reúnem disseminadores de ódio e entusiastas da extrema-direita online.

Alguns dias antes do ataque, publicações aparentemente feita pelos dois criminosos pediam dicas de como planejar um atentado e ajuda para encontrar os diários dos atiradores de Columbine. Um destes posts continha uma montagem de dois jovens segurando armas e trechos da letra traduzida de "Pumped Up Kicks". Como comemoração ao "sucesso" do atentado em Suzano, outro fórum, o 55chan, colocou a música para tocar automaticamente no site.

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Thread publicada no site do Dogolachan um dia antes do atentado. Não se sabe se a autoria é de um dos atiradores.

Foi o bastante para que outro debate fosse iniciado sobre a música, quase 10 anos depois de seu lançamento. "Pumped Up Kicks" entrou na lista de assuntos mais comentados no Twitter ontem à noite, e a canção foi dissecada ao vivo pelo programa mundo-cão Cidade Alerta, na TV Record, como se tivesse servido de incentivo aos criminosos. O programa exibiu imagens de um episódio da série-documentário Zero Hour sobre o Massacre de Columbine ao som de "Pumped Up", clamando que aquele era o clipe oficial da faixa (o clipe oficial, na verdade, só mostra o Foster the People tocando e dando um rolê, como você pode ver no vídeo acima), e tentou decifrar o que exatamente nas letras de Mark Foster teria levado a dupla a cometer um ato de violência tão grande.

O compositor, por sua vez, esclareceu em 2012, após o tiroteio na escola de Sandy Hook, que "Pumped Up Kicks" não é de maneira alguma uma ode a atiradores ou a esse tipo de tiroteios. "Eu escrevi 'Pumped Up Kicks' quando comecei a ler sobre a tendência crescente da doenças mentais na adolescência. Queria entender a psicologia por trás disso, porque era desconhecido para mim. Estava com medo de ver para onde esse caminho estava nos levando se não começássemos a mudar a forma como estávamos criando a próxima geração", escreveu em um depoimento à CNN.

Tendo ele mesmo passado por experiências de bullying na escola, e o baixista da banda Cubbie Fink ter uma prima que sobreviveu a Columbine, Foster recebeu críticas destinadas à sua gravadora e estações de rádio que tocaram a música por muitos anos, mas garante que "ela não é, de jeito nenhum, sobre tolerar violência. É o oposto completo. A música é uma plataforma incrível para conversar com seus filhos sobre algo que não deve ser ignorado, para falar sobre isso de uma forma amorosa", disse ao USA Today.

O nível de absurdo das interpretações do ato a partir das letras da música fica muito próximo ao da afirmação do vice-presidente Hamilton Mourão de que "videogames violentos" teriam inspirado o crime. Essa escandalização, além de ser um perfeito exemplo de como a música (e qualquer outra obra de arte) pode acabar saindo do controle de quem a compôs e assumir outros significados em mãos mal-intencionadas, também é um sintoma da busca por uma resposta instantânea para a motivação de um crime que não é nada superficial ou fácil de entender.

Enquanto criminosos como os de Suzano continuarem sendo tratados como casos isolados e motivados por jogos, músicas, filmes, ou quaisquer outros elementos da cultura pop, os reais problemas e a complexidade das motivações desses atentados não serão discutidos. E, como previu Mark Foster, "Pumped Up Kicks" continuará sendo a trilha sonora errônea de muitas outras tragédias na história do Brasil e do mundo.

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