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As redes sociais estão a dar-nos cabo da memória

Documentar as nossas vidas na Internet pode diminuir a probabilidade de reter alguns desses momentos como uma memória significativa.

Por Eda Yu; Traduzido por Sérgio Felizardo
28 Março 2019, 5:16pm

Ilustrações por Ben Giles.

Este artigo foi originalmente publicado na Edição Truth & Lies da revista VICE.

De alguma forma, sempre que dou por mim a passar distraída pelo meu feed do Instagram, acabo quase no final, obcecada pelas primeiras fotos que publiquei em Junho de 2016. Não sei se era a música – Rihanna, Chance, Drake e Kanye lançaram discos que mudaram a minha vida na altura – ou a liberdade que advinha de deambular por toda Europa naqueles três meses, mas esse Verão é o último que tenho claro nas minhas memórias.

Postei muitas fotos mais editadas e de maior qualidade nestes três anos posteriores, mas essas fotos mais antigas fazem-me sempre parar, banhando-me com ondas de nostalgia. Para os meus seguidores, aquele Verão foi resumido em seis filas de três quadrados perfeitamente divididos. Mas, quando analiso essas publicações, percebo que os momentos de que me lembro mais fortemente são as noites em praias secretas que nunca pensei documentar nas redes sociais - estava demasiado ocupada a desfrutar de tudo aquilo.


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Aquele mesmo Verão acabou por ser um momento fundamental para as redes sociais. Com os escândalos de desinformação russa e a privacidade de dados ainda abaixo do radar, o Facebook era uma plataforma importante para alguém se manter informado nos meses antes da eleição presidencial de 2016 nos EUA. As atualizações frenéticas minuto a minuto no Twitter alinhavam-se perfeitamente com os ciclos rápidos de notícia, enquanto as pessoas debatiam liberdade de expressão e o seu significado para a política contemporânea. E o Snapchat, a estrela em ascensão das redes sociais, tinha olhado de soslaio para uma oferta de 30 mil milhões de dólares do Google enquanto se preparava para abrir as suas acções ao público em 2017.

No Verão de 2016, tínhamos menos razões aparentes para não receber as redes sociais nas nossas vidas de braços abertos. Mas, a forma como esse abraço afectaria as nossas memórias - um processo cognitivo central - seria muito maior do que poderíamos prever.

Criar uma memória começa com a percepção: o teu cérebro regista sensações visuais, auditivas, olfativas e tácteis – como o cheiro do gelado de menta ou o perfume de magnólias nas noites de Verão – e envia-as para o hipocampo para determinar se serão armazenadas como memórias de longo prazo. Factores como familiaridade, repetição e excitação emocional (um estado de actividade fisiológica aumentada) ajudam a determinar que experiências cruzam a fronteira entre memória de curto e longo prazo. Como aponta o neurocientista James L. McGaugh no seu trabalho de 2013 “Making Lasting Memories: Remembering the Significant”, excitação emocional aumentada durante uma experiência, na verdade estimula a amígdala (a parte do cérebro responsável pelas emoções, instinto de sobrevivência e memória) para liberar hormonas de stress – químicos secretados em resposta a ocasiões stressantes ou excitantes – tornando mais provável que essas experiências sejam codificadas como memórias de longo prazo.

A pesquisa de McGaugh, publicada em 2013, parece agora muito mais relevante: o complicado fluxo da tecnologia digital nas nossas vidas tornou mais difícil estarmos emocionalmente conectados com as nossas experiências. Pensando agora, 2016 foi um ponto crucial, uma época em que muitas empresas de tecnologia viram uma oportunidade de aumentar a influência das redes sociais no nosso quotidiano. As plataformas que não tinham essa visão, como Vine e Tumblr, foram atiradas para o fundo saturado da tecnologia, enquanto aquelas que anteciparam aquele momento acabariam por dominar a paisagem. O Instagram, a plataforma de partilha de fotos comprada pelo Facebook em 2012, foi a maior prova disso.

Apesar de o Snapchat ter tido sucesso no início com as suas mensagens que se apagavam automaticamente, o formato “Stories” – que permitia aos utilizadores postar fotos e vídeos que duravam 24 horas no feed antes de desaparecerem – mudou o jogo quando foi lançado em 2013. Três anos depois, o Instagram basicamente roubou a função para A sua própria plataforma. Apesar de muita gente – incluindo eu – ter ficado céptica num primeiro momento, as Stories do Instagram rapidamente dominaram tudo. Na verdade, depois de o Stories aparecer, a plataforma viu a sua base mensal de utilizadores activos disparar de de 300 milhões para 700 milhões no mês de Abril seguinte, efectivamente duplicando as taxas de crescimento anual de utilizadores em apenas oito meses.

O formato Stories quebrou a tendência de imagens estáticas pensadas ao mínimo detalhe típicas do Instagram, com sequências elusivas de 24 horas cheias de vislumbres em “tempo real” do dia-a-dia, dando à aplicação um tom mais casual. Marcas e consumidores beneficiaram da opção e continuam a usá-la até hoje. O lado negativo disso é evidente: agora há uma pressão para postar com mais frequência e durante as nossas experiências mais excitantes – interrompendo o momento para fazer uma story para os nossos seguidores.

A primeira vez que me apanhei a fazer isso foi na Véspera de Ano Novo de 2016. Estava numa festa num armazém com amigos em Los Angeles quando a contagem regressiva começou; estávamos a aproveitar a companhia uns dos outros e felizes de ter chegado a algum lugar antes da meia-noite. Quando estava a pegar no telemóvel para registar a contagem, mudei de ideias no último minuto e guardei-o, não querendo deixar aquele momento. Mas, quando me virei para o meu namorado, ele estava a filmar e a gritar “Três, dois, um!” para o ecrã. Beijou-me enquanto toda a gente comemorava, mas lembro-me de me sentir estranhamente desconectada dele. Fiquei a pensar se ele tinha curtido o momento tanto como eu.

Julia Soares e Benjamin Storm, investigadores da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, estudam a influência da tecnologia digital na memória há anos. Um estudo que lançaram em Março de 2018 sugere que, quando tiram fotos com o telemóvel, as pessoas desligam-se do momento para captarem a experiência e, portanto, armazenam a memória menos profundamente do que fariam de outra forma.

O trabalho vanguardista da dupla, “Forget in a Flash: A Further Investigation of the Photo-Taking Impairment Effect”, comparava a memória dos participantes em três cenários: depois de pura observação, documentação na app de câmara e documentação sob uma condição quando a foto não seria salva, como no Snapchat. Investigações anteriores já tinham estabelecido que uma fonte de memória confiável, como uma câmara, podia piorar a memória das pessoas – um fenómeno baptizado de “efeito de enfraquecimento por captação de foto”. Mas, os investigadores tinham atribuído o fenómeno ao efeito de “descarga cognitiva” (quando as pessoas armazenam as suas memórias numa fonte externa, em vez de as reterem pessoalmente). Soares e a sua equipa levaram essas descobertas mais além, testando se o descarga cognitiva era a única causa do enfraquecimento de memória ao fazer fotos. Surpreendentemente, não era.

“O nosso estudo mostrou evidências de que o efeito de enfraquecimento por captação de foto não parece depender de se a foto é salva ou não, de alguém poder dizer à câmara 'Guarda-me esta informação, vou usar mais tarde'”, explica-me Soares ao telefone. E acrescenta: “Caso contrário, o efeito desapareceria quando elas soubessem que a câmara não é um parceiro confiável”.

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A investigadora propôs uma nova hipótese de “desligamento de atenção”, que sugere que o envolvimento com uma máquina fotográfica ou uma câmara de telemóvel tira a pessoa do momento presente, o suficiente para prejudicar a formação de memórias, mesmo depois de ela guardar a câmara. De maneira interessante, quando usando o Snapchat, os participantes tinham a memória ainda mais prejudicada do que apenas tirando a foto, provavelmente por distrações maiores como filtros, efeitos, ou o acrescentar texto no interface da app.

Com este novo entendimento e as descobertas anteriores de McGaugh sobre a ligação entre excitação emocional e memória, de repente torna-se claro como acrescentar Stories a uma plataforma como o Instagram pode impactar profundamente a capacidade de toda uma geração de se manter presente e envolvida – e, por sua vez, também afectar a formação de memórias pessoais.

(Quando pedi comentários ao Instagram e Snapchat sobre o estudo, o Snapchat não quis comentar, oferecendo-se em vez disso para discutir os valores centrais do seu produto através de um porta-voz. Este realçou como muitas facetas da aplicação – como não ter likes públicos e comentários, por exemplo – são pensadas para ajudar os utilizadores a se sentirem mais confortáveis, expressando-se verdadeiramente e vivendo o momento. Até ao momento da publicação deste artigo, o Instagram não tinha respondido aos nossos pedidos de comentários.)

“Estás a afastar-te do momento presente e é isso que causa esse desligamento. Estás, literalmente, a colocar um ecrã entre ti e o evento que estás a tentar registar. E parece que demora um tempo a recuperar desse desligamento de atenção, para voltar ao modo 'OK, estou a viver na experiência presente. Estou presente'”, realça Soares.

Enquanto “estar presente” se torna cada vez mais parte da nossa conversa sobre atenção plena, ser realmente capaz de ficar desconectado das redes sociais parece cada vez mais difícil a cada ano que passa. O ritmo rápido do universo digital não o permite. Nem a pressão para manter as actualizações em dia. E, enquanto sentimos o problema a um nível voluntário de consumidor, este é exacerbado quando sentimos que temos que publicar contra a nossa vontade. Dou por mim constantemente a actualizar o Twitter para ver as últimas notícias, ou assegurar às pessoas que estou viva e bem no Story do Instagram se passo muito tempo sem postar. Sentir a pressão de ter que produzir conteúdo constantemente para partilhar com os outros muitas vezes desvaloriza o tempo que tenho para mim mesma – distraindo-me o suficiente para não conseguir apreciar emocionalmente cada momento na sua totalidade.

A editora de redes sociais da revista Paper, Peyton Dix, comparte comigo este sentimento. Quando não está a trabalhar, ela tenta desconectar, mas a natureza social da partilha torna isso complicado. “Tenho de meter o telefone no modo avião, com um livro nas mãos. Tipo, não olhes para o maldito telemóvel”, salienta. E acrescenta: “Mas, também, para ser franca, como editora de redes sociais isso é impossível. Se algo acontece, tenho que estar na linha de frente dessa publicação. Para garantir que estamos a ser imediatamente responsivos a qualquer crítica em potencial [ou feedback negativo]”.

Dix adora seu trabalho, mas conhece os efeitos negativos que as redes sociais podem ter na mente e auto-estima de uma pessoa. Na sua primeira Semana da Moda de Nova Iorque, Dix sofreu para conciliar as suas obrigações pessoais – que incluíam cuidar de uma colega de apartamento depois de um acidente – com as suas obrigações profissionais de tuitar os desfiles ao vivo e orquestrar a abordagem aos mesmos nas redes sociais que interrompiam constantemente o que ela tinha de fazer no presente.

“Lembro-me de estar à espera da minha amiga no hospital, a chorar em frente ao computador enquanto estava ao mesmo tempo no telemóvel, sentindo tipo 'Posso morrer agora. É demasiado para mim'”, recorda Dix. E acrescenta: “Aprendi com essa experiência, fiquei muito emocionalmente envolvida e senti-me drenada. Não vai acontecer outra vez”.

Interromper momentos está, ao fim e ao cabo, no cerne do efeito de diminuição da memória que acompanha o uso das redes sociais. Mas, a intenção por detrás do motivo para interrompemos certos momentos pode realmente alterar se a memória é ou não armazenada no nosso cérebro. Estudos anteriores mostraram que volição – o processo cognitivo pelo qual um indivíduo se decide a praticar uma ação em particular, como para tirar conscientemente uma foto para lembrar o momento – na verdade mostra um benefício na retenção de memória. Apesar de a investigação ainda estar num estágio preliminar, Soares diz-me que “há razões para esperar que, quanto mais intenção a pessoa coloca em cada foto, menos probabilidades ela tem de experimentar o efeito de diminuição de memória. Quando alguém está a tirar fotos porque tem de as postar no Facebook, há estudos que mostram que se vai lembrar do evento como menos positivo do que se estiver a tirar fotos com uma intenção real”.

O fotógrafo profissional Aaron Ricketts orgulha-se da sua capacidade de colocar intenção na linha da frente do seu trabalho. Ele tem como objectivo captar movimentos dinâmicos e momentos que chamam a atenção – como a sua famosa foto do primeiro pedido de casamento de Offset a Cardi B, em Outubro de 2017. Como alguém cujas fotos podem garantir ou cancelar um trabalho, Ricketts enfatiza como, quando ao captar um momento, ele está super consciente da situação e dos seus detalhes, comparado com um observador comum, muitas vezes entrando num estado emocionalmente aumentado para mais facilmente se lembrar desses momentos.

“Quando fotografo, não estou apenas a tirar fotos das pessoas. Geralmente, há planeamento envolvido, certas coisas que precisam de estar ali antes que a foto seja tirada”, explica Rickett. E acrescenta: “Só posso falar da minha experiência, mas sinto que, no geral, os fotógrafos precisam de estar muito presentes. Isso afecta muito a forma como nos lembramos das situações, com ou sem fotos”. Ser selectivo e atento sobre a fotografia é um traço que se provou útil no uso que o próprio Ricketts faz das redes sociais. Mesmo que documentar as suas experiências seja o seu ganha-pão, Ricketts não sente a necessidade de estar constantemente a actualizar as suas contas na Internet. Em vez disso, encontrou um equilíbrio entre mostrar ao Mundo o que está a fazer e guardar coisas daqueles momentos só para ele.

Na nossa era profundamente digital, Ricketts talvez já tenha encontrado o segredo do sucesso: fotografar, como algo importante e necessário em si, deve ser abordado com moderação e intenção. Da próxima vez que pegares no telemóvel para fazer uma Story, é bom que te lembres que a documentação digital pode ser prejudicial para a forma como nos como lembramos dos nossos momentos mais mágicos. E, enquanto raramente podemos escolher evitar totalmente as redes sociais, podemos julgar melhor os momentos em que escolhemos desligar – porque, às vezes, vale mais a pena simplesmente existir, viver o momento e ter uma história para contar depois.


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