​Defesa Civil em região atingida de Brumadinho. Foto: Michelli Oliveira/VICE
Defesa Civil em região atingida de Brumadinho. Foto: Michelli Oliveira/VICE
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"Quando acabarem as buscas, vamos ficar aqui sozinhos"

Os moradores da região do Córrego do Feijão, em Brumadinho, contam como seguem suas vidas após a tragédia.

Do limite colocado pela Polícia Militar mineira, só era possível enxergar um pequeno pedaço dos escombros deixados pela lama no Córrego do Feijão, em Brumadinho. Já há quatro dias da tragédia do rompimento da barragem, que aconteceu na última sexta (26), a fiscalização sobre o local estava mais rigorosa e os jornalistas que queriam chegar à lama tinham que se aventurar pelas matas ao redor.

Há menos de 100 metros de onde a lama ainda cobria toda a superfície visível, as famílias do Feijão seguiam suas vidas como possível. Um centro comunitário foi organizado perto dali como lugar de acolhimento às vítimas e arrecadação de doações, que já há alguns dias são mais do que suficientes. Uma mercearia funciona perto do local, atendendo principalmente os voluntários e repórteres que circulam pela área. Uma igreja nos arredores fica aberta somente para a entrada de moradores da região, e um largo campo de grama por perto serve para partida e chegada dos aviões dos bombeiros e policiais que realizam resgates no lamaçal.

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Escombros em Brumadinho. Foto: Michelli Oliveira/VICE

Escombros em Brumadinho. Foto: Michelli Oliveira/VICE

Enquanto desço a ladeira do vale para tentar chegar mais perto da lama, um casal a sobe para chegar à casa da filha. Seu Basílio, de 76 anos, e dona Carmem, 70, ajudam a filha a procurar informações sobre o neto, um funcionário da Vale que permanece desaparecido. Ainda não tinham comparecido ao centro comunitário que atendia às vítimas, e assistiam a todas as notícias sobre as buscas pela televisão, ligada graças ao gerador que os bombeiros disponibilizaram para trazer luz à região. A água que restava era só a que ainda havia na caixa d'água.

No dia do acidente, dona Carmem estava sozinha em casa. Ouviu um estrondo e teve a impressão que as janelas haviam se quebrado. Enquanto tentava entender o que tinha acontecido, uma vizinha entrou em sua casa e gritou para que ela corresse. Já passado o susto, restava a tristeza pela área perdida. "Antes você via paisagens bonitas, um campo, um espaço de capoeira, restaurantes", comenta seu Basílio sobre a vista que tinha do córrego. "Agora é só terra vermelha."

"Nunca esperava por isso. Acabou com a gente", fala Carmem, que lembra que o neto já tinha comentado sobre o perigo da barragem há pelo menos cinco anos. "Agora a gente está vendo gente. Passa helicóptero carregando corpo, passa polícia, passa repórter. Quando acabarem as buscas, não vai ter mais ninguém. Vamos ficar aqui sozinhos."

Escombros em Brumadinho. Foto: Michelli Oliveira/VICE

Escombros em Brumadinho. Foto: Michelli Oliveira/VICE

Enquanto converso com seu Basílio e dona Carmem, um vizinho passa e cumprimenta o casal, brincando sobre a proibição dos policiais de encostar nos cadáveres que, segundo ele, estavam sendo colocados junto ao cemitério da cidade, ao lado do campo onde os helicópteros pousavam. "E por que alguém ia querer encostar em morto?", brinca. O morador conta que, quando o acidente aconteceu, tinha acabado de desistir de tomar um açaí com o filho na área que foi coberta pela lama. "A gente que mora aqui tem que agradecer, porque poderia estar lá."

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"Chegou massinha!"

Ao lado da igreja, num restaurante fora de funcionamento, foi organizado um espaço de recreação para as crianças e adolescentes da comunidade. Uma voluntária me explicou que, aguardando notícias de desaparecidos e localizados ao lado dos pais no centro comunitário, eles ficaram agitados com o movimento e acabavam atrapalhando os que trabalhavam organizando doações e conversando com famílias.

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Crianças olhando pra fora do Restaurante Casa Velha, no Córrego do Feijão. Foto: Amanda Cavalcanti/VICE

O Restaurante Casa Velha é um casarão cuja sala conta com apenas um lustre e dois ventiladores. Como as janelas ficavam parcialmente fechadas, para evitar mais exposição das crianças, o local ficava intensamente abafado e um tanto escuro. Mas as crianças não pareciam se importar. Em rodas de cinco ou seis, juntavam-se com os de idade mais próxima e jogavam Uno, pintavam com giz de cera e ninavam bonecas. Numa mesa mais escondida, um grupo de adolescentes olhavam cada uma para seu próprio celular.

"Quando chegamos aqui, uma delas estava chorando porque perdeu alguns parentes. A situação é bem complicada", me contou Paulo Victor, um dos voluntários que trabalhava no Casa Velha. Paulo é músico e participa de um grupo cultural chamado BatucaBrum, que realiza trabalhos artísticos como percussão e grafite com as crianças do Córrego do Feijão já há alguns anos. O projeto é patrocinado pela MIB, mineradora da região. Quando souberam do rompimento da barragem, saíram da base do projeto, no centro de Brumadinho, e estavam ajudando a comunidade desde sexta-feira.

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Os membros do BatucaBrum iriam realizar oficinas e aulas no restaurante, como uma de confecção de instrumentos com materiais recicláveis. Já familiarizados com as crianças, eles conversavam, brincavam com bolas e jogavam jogos de tabuleiro com os alunos. Mas todos perderam a atenção quando uma das voluntárias abriu uma sacola e anunciou: "chegou massinha!"

Patrimônio cultural

Sentadas na parte de fora do centro comunitário, sobre um banco montado no gramado ao redor, um grupo de vizinhas achava graça num cachorro que passeava por perto. Depois de se alimentar ao lado do centro de doações, ele se espreguiçava e procurava a posição mais confortável pra dormir. Ninguém soube me dizer de quem era o cachorro, mas alguns voluntários me contaram que todos os que circulavam por ali eram de moradores da região.

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Cachorro que andava pelo centro comunitário em Brumadinho. Foto: Amanda Cavalcanti/VICE

"Aqui cachorro nenhum tem dono. Eles são patrimônio cultural da cidade", me contou uma das vizinhas que ria do vira-lata, que logo se explicou: os cachorros até têm donos, mas como as portas das casas da cidade ficam todas abertas, eles circulam por onde querem e acabam sendo criados por diversos moradores.

Apesar de agitados pela quantidade de pessoas, eles viviam como reis no centro comunitário. As marmitas enviadas como doações, segundo as moradoras, eram muito grandes e o que sobrava ficava para os cachorros. "E eles não querem mais saber de arroz, não. Chegam, pegam a carne e deixam o resto pra lá", ri uma delas.

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Uma cachorra específica preferia não entrar na confusão dos outros. Preta, que estava grávida, assistia os outros aos pés de sua dona, Francis, e não ousava ficar a mais de alguns metros da família. Moradores da região, Francis, seus filhos e uma prima se deslocaram ao centro para aguardar notícias sobre parentes que moravam próximos ao local de rompimento da barragem. "A cachorra quase não anda, mas onde a gente vem ela vai atrás", fala.

Escombros em Brumadinho. Foto: Michelli Oliveira/VICE

Escombros em Brumadinho. Foto: Michelli Oliveira/VICE

Números

Enquanto as famílias do Córrego do Feijão procuram seguir a vida como podem, as buscas continuam na cidade. De 65, o número de óbitos confirmados da tragédia subiu para 84 segundo informado pela Defesa Civil de Minas Gerais na noite de ontem (29). 67 desses corpos foram identificados até o momento. O número de pessoas resgatadas com vida, 192, permanece o mesmo desde sábado de manhã. A lista de desaparecidos já conta com 276 nomes.

No fim da tarde de ontem, quando eu já deixava o bairro afetado, pude ouvir uma mulher gritando aos vizinhos que conversavam com ela: "Eu quero um caixão. Ninguém vai me impedir de ver meu filho."



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