Entretenimento

Quem quer votar no circo infantil de António Costa?

O nepotismo reinante e as justificações que daí resultaram, provam que a política do faz de conta é uma arte bem dominada (e mal disfarçada) por Costa e seus protegidos.
10.4.19
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Até os desenhos animados devem saber que não se deve enviar um indivíduo, sem cargo oficial, para representar o Estado. Lacerda Machado, alguém? (Foto por Rod Long no Unsplash)

Com o passar dos anos, a decadência dos grandes partidos da política portuguesa tem sido uma evidência a que pouco haveria a acrescentar. Depois de tudo o que se foi sabendo sobre a alegada hecatombe da governação socialista entre 2005 e 2011, em que despontou supostamente uma conduta sombria e maquiavélica do duo José Sócrates e Manuel Pinho, pensei que as acções reles iriam tirar umas férias por um período longo. Enganei-me.

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As sobras que resultaram dessa era considerada pelos esclarecidos como a pior no pós-25 de Abril, deram azo a graves trapalhadas e incompatibilidades desde que António Costa tomou posse em 2015. Esta semana renasce o opaco SIRESP.

O grotesco "reality show" em São Bento (e a nomeação que vamos conhecer esta semana é…)

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O clientelismo vai mesmo ficar a chuchar no dedo? É que eles e elas são tantos…

A balbúrdia das nomeações que temos vindo a conhecer no circuito governativo e na Administração Pública, é só um entre outros exemplos reprováveis que danificam a imagem dos agentes políticos junto dos eleitores que não se deixam embriagar por desculpas tolas e uma propaganda com cheiro a tasca encardida (quase quarenta inaugurações e promessas de milhões nos primeiros três meses deste ano, segundo o programa "Deus e o Diabo", na TVI).

Um caso ou dois podia passar pelos pingos da chuva, só que o padrão corresponde a um número que parece uma fila extensa de indivíduos a tentarem entrar numa discoteca em hora de ponta (neste estabelecimento, os "porteiros" devem ser uns porreiraços…). Assim sendo, fazer a defesa dos escolhidos com base na sua eventual competência ou por causa de confiança política, é mandar o bom senso e o decoro institucional para o lixo.


Vê o primeiro episódio de "Black Market"


Aliás, se quem está no poder acha natural cruzar as nomeações de familiares entre os ministérios, como é que o resto da escada social deve reagir? Fazendo o mesmo e achando que esta "anormalidade" é normal? Lá por a cunha ser uma norma utilizada em muitos planos do quotidiano (com "n" concursos públicos viciados), o governo deve ter a decência de dar o mínimo de exemplo. Não se devem confundir os altos cargos do Estado, como se se estivesse a fazer política de mercearia ou como se o Executivo fosse uma empresa privada.

E se houver zangas entre o familiar de x com o amigo de y, como se decide o diferendo no seio governativo? Qual o distanciamento que existe neste tipo de "luta de galos/galinhas"? Será que São Bento terá de criar um piquenique "friends & family" para resolver este género de problemas? Pior: acreditas que alguém vai dizer não a uma eventual trafulhice de um parente ou de quem é amicíssimo?

Felizmente, o semanário Expresso noticia que o presidente da República quer "famílias fora dos gabinetes" e deseja a lei melhorada nesse sentido (acima, ver a capa da edição do passado sábado, 6 de Abril). A democracia portuguesa merece não estar atrelada a múltiplas interpretações e deve ser rigorosa neste âmbito, como o devia ser noutros. Quando não há auto-controlo dos nossos políticos (através do bom senso), que se avance com legislação para evitar gestos terceiro-mundistas. Resta saber quanto é que PS e PSD estão dispostos a ceder, pois clientelismo é o seu "middle name".

A demissão de dois membros do governo deve ter estalado a paciência de Marcelo. O enredo envolve o secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins, que nomeou o primo para adjunto, mas incrivelmente desde Setembro de 2016 quem tutela a pasta nada soube (e eu a pensar que Portugal é um país onde a cusquice está sempre na ordem do dia…). O próprio ministro do Ambiente e da Transição Energética, João Matos Fernandes, tem sido notícia por ver a namorada e a ex-mulher faladas neste escorregadio universo endogâmico dentro do Estado.

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Com tamanho folhetim, não é de estranhar que os socialistas Álvaro Beleza, Ana Gomes, Francisco Assis ou Vital Moreira, se sintam inconfortáveis ao ver o governo a comportar-se como um "reality show" orientado a distribuir empregos por uma casta. Como a investigação dos media não tem deixado morrer o assunto, ultimamente o lema tem sido "E a nomeação que vamos conhecer esta semana é…".

Costa, César e Nuno Santos. Tudo bons apelidos

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No meio das desculpas estapafúrdias, não fico chocado se o dirigismo do Largo do Rato chegar ao ponto de lembrar o facto de a filha de Trump trabalhar na Casa Branca (Cortesia ITN Productions/Documentário "Ivanka Trump: America"s Real First Lady?", em 2017)

Foram várias as vozes que vieram a terreiro defender a honra do governo PS, mas há um trio que se destacou pela carência de densidade intelectual. Comecemos com o "lateiro disto tudo".

1. ANTÓNIO COSTA (Primeiro-Ministro)

Antes de mais, tenho de ser justo em três pontos. Primeiro, António Costa formou governo por termos uma constituição ultrapassada e, muitas vezes, pouco clara. É injusto, portanto, chamá-lo "golpista" pelo facto de não ter ganho as Legislativas.

Ao escolher Mário Centeno para as Finanças, o primeiro-ministro (PM) sabia que o actual presidente do Eurogrupo teria capacidades para conseguir disfarçar a saúde débil do país com medidas que parecem mais do que são. Podemos ter o défice a descer, mas à custa de quê? Os especialistas falam de inúmeras cativações, falta de investimento público, vago comprometimento junto de diversas classes profissionais ou devido à maior carga fiscal de sempre imposta por um governo português.

A juntar aos dois items anteriores, há ainda a considerar a recente redução do preço dos passes sociais nas duas grandes metrópoles (quem, de facto, sente a mudança), como uma medida bastante útil e que só peca por tardia. Dito isto, falemos de ética e moralidade. O circo das nomeações ambíguas foi aberto quando na alvorada do mandato, Costa teve o desplante de encarregar o amigo pessoal, Diogo Lacerda Machado - que não tinha nenhum vínculo com o Estado -, a representar o governo nas negociações com a TAP. Após a borrada, tentou emendar a mão com um contrato feito para que a posição de Lacerda Machado fosse legalizada.

Atente-se às palavras do PM: "Acho simplesmente mais caro para o Estado. Acho simplesmente, devo dizer, dinheiro que podia não ser gasto. Ele, felizmente, tem podido colaborar e continuará a colaborar, em diferentes dossiês onde a sua expertise tem ajudado a negociar e a resolver bastantes problemas". Que descaramento.

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No ano seguinte, o Executivo nomeia o colaborador inicialmente ilegal para administrador da transportadora aérea (que anda com prejuízos avultados que podem, como é hábito, ser cobertos pelos contribuintes). A partir daí, já nada podia surpreender nesta forma de fazer política como se a coisa pública fosse decidida num recreio do liceu (abaixo, podes ver um debate realizado há dois anos por parte do staff do jornal online Observador, sobre as "nomeações de familiares e amigos para cargos públicos", em que Diogo Lacerda Machado é também visado).

A falta de sensibilidade ou de coerência de António Costa foi igualmente visível noutras cinco situações:

A) Durante o primeiro grande incêndio de 2017, manteve "ad eternum" a ministra Constança e, já este ano, teve o atrevimento de falar de oportunismo político a quem queira "dramatizar cada incêndio" em tempo de eleições. Até parece que não morreram mais de cem pessoas nas duas catástrofes e não existe constrangimento à volta da distribuição dos donativos e da reconstrução das casas em Pedrógão Grande, com o presidente da Câmara (antes do PSD, agora PS) envolto em suspeitas de favorecimento.

B) Deu pouca relevância ao caso Tancos ao não interromper as férias pessoais, deixando inexplicavelmente a tarefa de ser Marcelo a comparecer no "local do crime". Meses mais tarde, foi adiando a inadiável demissão do ministro Azeredo Lopes. Ainda estamos por saber se este estava a par do embuste da devolução das armas e se passou a informação ao seu superior…

C) Pensou-se que tinha aprendido com os incêndios, ao invés o comportamento de Costa foi estranho quando se deu a tragédia de Borba. Nos primeiros dias após o sucedido, mandou outros dar a cara e fez questão de evitar os jornalistas nesta matéria. Como é possível? Quem são os "magníficos" profissionais que andam a assessorar o homem?

D) O Executivo parece querer reescrever a história da última década ao ter pressionado supostamente a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), para esta não dar ênfase ao peso da corrupção na sociedade portuguesa e apagar a Operação Marquês na avaliação sobre Portugal (o que veio a acontecer…). No debate quinzenal, o PM alvitrou que "os governos fazem os comentários que entendem pelos canais diplomáticos próprios e, depois, a OCDE define com total liberdade a versão final do relatório". Total liberdade? Pois, pois…

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E) A propósito da vergonhosa enxurrada de nomeações de familiares para os vários ministérios, António Costa fez questão de mostrar o seu lado rasteiro. Não é que para justificar o injustificável recuperou os feitos sinuosos de governos anteriores, designadamente os mandatos de Cavaco Silva? O que quer provar? Que se os outros fizeram igual ou pior, os seus erros não são condenáveis? E, por falar em chafurdar no passado, a sua memória branqueou as façanhas do seu antigo camarada Armando Vara e do outro que admitiu que vivia com generosos empréstimos de um amigo?

A fantochada continua no plenário com a preocupação hipócrita de Costa sobre os limites das nomeações. Ou seja, depois de meter os seus apaniguados, já se pode fechar a porta?… Que INFANTILIDADE. Com todo o lixo que vamos vendo e ouvindo (para o qual contribuiu a ridícula lama atirada por sociais-democratas cheios de telhados de vidro), esquece as tolices que se aprendem nas associações estudantis ou nas jotas. A esta hora já vamos na escola primária.

Qualquer dia não fiques chocado se desculparem a presumível corrupção de Sócrates com outras manigâncias da mesma estirpe. Já nada espanta em certos actores nascidos no Largo do Rato, que julgam estar a fazer política como se estivéssemos na década de oitenta em que o escrutínio era mínimo e a comunicação social facilmente controlável.

2. CARLOS CÉSAR (Líder parlamentar do PS)

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Preferia não gastar o meu latim com o "MONARCA" pedante que espalhou o "seu ADN" por tudo que é função pública. No entanto, é inevitável não ficar abismado com as suas declarações sobre as nomeações, onde quis forçar exemplos pouco recomendáveis de outros partidos (pelos vistos, no fact checking feito pelo Polígrafo, algumas das acusações são falsas).

Na segunda-feira, 8 de Abril, o seu nome veio novamente à baila ao sermos informados pela revista Sábado que um primo seu está nomeado pelo governo, desde 2016, para exercer a função de administrador na empresa pública Navegação Aérea de Portugal. O político açoriano veio negar prontamente ter tido influência na escolha do parente, que diz ser um primo em quinto grau. Bem que Joana Amaral Dias, na rubrica "3 minutos", na CMTV, avisou que dele podíamos esperar cunhas até para o cão e para o periquito.

3. PEDRO NUNO SANTOS (Ministro das Infra-estruturas e Habitação)

Diz-se que é um forte candidato a futuro primeiro-ministro. Deixa-me rir… O fulano que defendeu sem qualquer pudor a "excelência" curricular de Maria Begonha? O belcrano que se sentiu mal por andar de Porsche, só porque não se adequava com a sua costela de esquerda e, por causa disso, o vendeu? O sicrano que vai para as redes sociais justificar a nomeação da sua esposa para o gabinete do amigo e agora secretário de Estado, Duarte Cordeiro, com uma lenga-lenga rasca? Que PAROLICE (é de referir que Cordeiro é o "fabuloso" político que conseguiu a proeza de contratar para seu adjunto um "competente" rapaz de 25 anos de idade, filho de um deputado rosa).

A fechar, uma dúvida, um pedido e uma sugestão. Se "a cara do PSD é o cu do PS" (duas "oligarquias" partidárias que, entre outras semelhanças, são useiras e vezeiras em dar colinho às dívidas milionárias da banca, a dar anuência a duvidosas parcerias público-privadas ou a reforçar a "amizade color$da" com a EDP), o que é o CDS em termos anatómicos? Fica aberto à tua imaginação…

Ao saber que o "presidente-emplastro 2.0" pensa que "os bombeiros portugueses são os melhores bombeiros do Mundo" e, na mesma óptica, considera que "os professores portugueses são os melhores professores do Mundo", espero que o antigo comentador não se acanhe e proclame o governo de António Costa "como o melhor do Planeta a fazer nomeações de amigos e familiares". É lindo ser número um.

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Com tanta palhaçada atroz por parte do bloco central de interesses (com mais de quatro décadas a mexer nos cordelinhos), bora aí não votar no PS, PSD e CDS, em todas as eleições em 2019?

Notas finais

Duas ignomínias: Se for aprovada na Assembleia da República, os deputados vão poder continuar a pertencer a sociedades de advogados. O paleio é tanto, a preocupação pela mudança é tanta, mas o "banquete" continua com os mesmos princípios de sempre. A Comissão de Transparência é a sala cínica da nossa política, com o PSD e o PS no comando das operações. Entretanto, na comissão de inquérito sobre a Caixa Geral de Depósitos, foi a vez de Vítor Constâncio, como antigo governador do Banco de Portugal, contribuir para o espectáculo das respostas baseadas no degradante "não me lembro". Ao menos sejam originais e digam que estavam a lavar-se no bidê.

Uma anedota: O PCP expulsou um membro por ser crítico da Geringonça. Sem surpresa. Fico à espera que anuncie a edição internacional do festival Avante na Coreia do Norte

Um desejo: João Vieira Pereira, cuja opiniões muito admiro, é o novo director do Expresso. Deixo-lhe a seguinte pergunta. Para quando a publicação da lista dos jornalistas e outras personalidades que beneficiavam do alegado saco-azul do BES (numa informação recolhida nos Panama Papers)? Sei que o seu antecessor respondeu ao Sindicato dos Jornalistas há três anos, mas reitero a vontade - minha e acredito de milhares de portugueses - em saber quem andou (e, se calhar, ainda anda) a "vender" uma verdade conveniente… Para os próprios e respectiva camarilha.


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