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Milícias iraquianas estão preparadas para lutar contra os EUA se explodir uma guerra com o Irã

"Não ficaremos em silêncio."
MS
Traduzido por Marina Schnoor
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
These Iraqi Militias Are Prepared to Fight the US if It Starts a War with Iran

Bagdá – Hashem Al Mayahi nem sempre desprezou os EUA. Quando os americanos invadiram o Iraque para livrar o país de Saddam Hussein em 2003, ele esperava que a mudança de regime trouxesse um futuro melhor.

“Eu achava que eles transformariam o Iraque num paraíso depois de derrubarem Saddam”, ele lembra.

Mas Bagdá caiu na violência e no caos, e quando abusos americanos emergiram, ele começou a mobilizar seus vizinhos contra a ocupação, primeiro como parte do exército Mahdi, um grupo insurgente comandado pelo popular clérigo xiita Moqtada Sadr, mais tarde num grupo separado, o Asaib Ahl Al-Haq. O Asaib cresceu e ganhou notoriedade atacando tropas americanas, assumindo responsabilidade por mais de 6 mil ataques do tipo.

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Agora, com EUA e Irã num impasse que ameaça se espalhar num conflito armado no Iraque, ele está pronto pra fazer isso de novo. Numa entrevista exclusiva para a VICE News, Al Mayahi disse que o Asaib estava pronto para atacar alvos americanos no Iraque usando as mesmas táticas de insurgência do auge da ocupação americana.

“Noventa por cento, haverá guerra”, o homem de 46 anos disse a VICE News de sua casa num bairro de Bagdá. “Quando a América atacar o Irã, não ficaremos em silêncio.”

Al Mayahi é um comandante militar sênior do Asaib, que agora é tecnicamente parte do aparato de segurança do Iraque depois de sua contribuição na guerra contra o ISIS e opera sob o comando do primeiro-ministro. Mas a milícia e outros grupos similares mantêm laços fortes com Teerã. E enquanto as relações entre EUA e Irã vão se deteriorando, o Asaib e milícias do tipo podem se tornar fundamentais em qualquer conflito.

“Quando a América atacar o Irã, não ficaremos em silêncio.”

Já há sinais de que o Iraque pode se tornar um campo de batalha entre EUA e Irã. Mês passado, foguetes foram disparados contra uma base alojando tropas americanas no norte de Bagdá e, alguns dias depois, contra uma instalação da gigante petroleira americana Exxon Mobile no sul do país. Ninguém assumiu a responsabilidade.

Os ataques vieram algumas semanas depois que o secretário de Estado Mike Pompeo alertou que o “Irã e seus representantes” estavam planejando ataques iminentes aos interesses americanos no Iraque, e correu para Bagdá em busca de garantias de apoio. Ele também pediu que Bagdá contenha grupos armados apoiados pelo Irã como o Asaib.

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“Os incentivamos a consolidar rapidamente essas forças”, Pompeo disse a repórteres depois da visita. “Desde que haja iranianos que têm capacidade em termos de sistemas de armas que não estão sob o controle do governo iraquiano, o povo iraquiano está em risco e essa é uma nação menos estável.”

Pompeo Iraq

O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, segundo da direita, fala com o Charge D'affaires na embaixada dos EUA, Joey Hood, segundo à direita, na chegada a Bagdá, terça-feira, 7 de maio de 2019. (Mandel Ngan / Pool Photo via AP)

Essas exigências colocam o governo do Iraque numa posição complicada: o país não pode alienar os EUA, um parceiro estratégico chave, particularmente nos setores de defesa e energia. Mas alguns oficiais em Bagdá se irritam com a pressão de Washington, que segundo eles ignora as circunstâncias domésticas que levaram à ascensão desses grupos e continuam a cimentar sua base de apoio.

“Não é tão simples assim”, disse um oficial sênior do governo que falou sob condição de se manter anônimo. “Cada um desses grupos tem seus próprios registros, história, interesses e exigências de autoproteção.”

E sim, o Asaib é aliado próximo do Irã: Durante a entrevista com a VICE News, Al Mayahi falou abertamente sobre receber salários e treinamento militar do Irã, e não hesitou em proclamar sua lealdade ao líder supremo iraniano: Ali Khamenei. Ele também admitiu ter lutado na Síria, onde o Irã mobilizou seus afiliados para ajudar o regime de Bashar Assad.

Mas alguns analistas argumentam que a relação desses grupos com o Irã é melhor descrita como interesses convergindo do que forças representantes.

“Muitas das tomadas de decisão do dia a dia, seja a mobilização de unidades ou tendências expansionistas de certas províncias – por exemplo, a decisão deles de tomar algum ponto de infraestrutura ou expandir atividades econômicas – são movidas por seus próprios cálculos de estratégia doméstica”, disse Erica Gaston, da New America Foundation.

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Acredita-se que o Asaib usou suas ganhos de campo de batalha contra o ISIS para expandir seus interesses, tomando controle de certos setores da economia e comandando gangues que cobram taxas não-oficiais, contrabandeiam produtos e extorquem negócios.

Mau sentimento

O Asaib largou as armas quando as tropas americanas deixaram o país em 2011, mas se mobilizou novamente três anos depois, quando a autoridade suprema xiita do Iraque incentivou jovens a impedir os avanços do ISIS em Bagdá. Mais de 150 mil homens responderam ao chamado, se juntando a várias milícias sob as Forças de Mobilização Popular (FMP) xiita. Uma lei de 2016 tornou o FMP um exército oficial das forças de segurança do Iraque, junto com o exército do país, o Serviço de Contraterrorismo e a Polícia Federal.

Quando as tropas americanas voltaram ao Iraque para lutar contra o ISIS, elas se viram lutando do mesmo lado que o FMP.

Mas com o ISIS praticamente acabado, a competição por influência econômica, política e militar no Iraque se tornou muito mais pronunciada. Enquanto os EUA pressiona Bagdá para controlar os poderes do FMP, o FMP diz que é horas das tropas americanas partirem.

“Não confiamos na política americana no Iraque”, disse Laith Al Adhari, membro do bureau política do Asaib, localizada num condomínio no bairro Jadriyah de classe alta em Bagdá. “Se os EUA quer estabilidade e segurança no Iraque, então os americanos devem partir.”

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Usando uma barba bem aparada e um terno cinza claro com uma gravata rosa, Al Adhari representa a nova imagem do Asaib: um movimento político que tem os interesses iraquianos, não iranianos, em seu cerne.

“Se os EUA quer estabilidade e segurança no Iraque, então os americanos devem partir.”

“Valorizamos nossa identidade nacional. Não aceitamos qualquer violação de nossa soberania, e não aceitamos a presença americana ou iraniana”, ele disse. A base do Asaib vem do sul xiita, mas com o crescimento da oposição pública à interferência iraniana no Iraque, o grupo buscou se repaginar como um movimento nacional que representa todos os iraquianos.

O partido conseguiu 15 assentos no Parlamento nas eleições do ano passado, o maior ganho entre todos os partidos, e é parte de um bloco liderado pelo FMP e amistoso com o Irã que defende uma lei para expulsar tropas estrangeiras.

Segundo a constituição do Iraque, o Parlamento não pode propor sua própria legislação; apenas votar em leis iniciadas pelo executivo. Até agora, o primeiro-ministro não mostrou intenção de propor tal lei, afirmando repetidamente que as tropas americanas só estão no Iraque para treinar e aconselhar as forças de segurança locais.

O FMP vê as coisas de maneira diferente e acusa os EUA de usar sua presença militar para alcançar seus objetivos geopolíticos, uma crença cimentada pela proclamação de Trump sobre usar suas bases americanas no Iraque “para vigiar o Irã”.

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“A América está protegendo seus interesses e nós estamos protegendo os nossos.”

“Durante o auge da guerra contra o terrorismo, o número de soldados era 5 mil. Eles não deveria diminuir esse número depois da vitória sobre o ISIS? Isso significa que eles não estão aqui só para treinamento”, disse Al Adhari.

Um porta-voz da coalizão liderada pelos EUA que derrotou o ISIS confirmou que o país mantém cerca de 5.200 soldados no Iraque.

“Continuamos revisando nossos níveis de força no Iraque para realizar o trabalho que nos foi requisitado pelo governo iraquiano, e temos apenas as forças que precisamos”, disse o coronel do exército americano Scott Rawlinson.

A visão de Adhari é mais polida que a de Al Mayahi, o comandante militar que declarou sem rodeios sua lealdade ao Irã. Mas, durante uma entrevista de duas horas, Al Adhari deu uma narrativa menos ambígua para por que o Irã é um aliado mais “natural” para o Iraque que os EUA.

Diferente dos EUA, ele argumentou, o Irã não colocou sanções sobre o Iraque nos anos 90 e destruiu sua economia. O país não invadiu o Iraque sob o pretexto de armas de destruição em massa. Ecoando a crítica preferida do presidente Trump à administração Obama, Al Adhari também acusou os EUA de ter “trazido o terrorismo para o Iraque” criando um solo fértil para extremismo e fornecer apoio ao ISIS (essa última afirmação, mesmo sem provas, é uma visão comum no Iraque).

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Os EUA, de sua parte, vê seguimentos-chave do FMP como grupos terroristas. Em 2017, o Congresso introduziu uma lei impondo sanções relacionadas a terrorismo contra o Asaib e outra milícia ligada ao Irã, o Harakat Hezbollah Al Nujaba. Em março, o Departamento de Estado acrescentou o Nujaba à sua lista de organizações terroristas, a segunda unidade do FMP a ganhar a designação depois do Kataib Hezbollah. O Asaib pode ser o próximo, uma perspectiva que não parece preocupar Al Adhari.

“Hoje, tudo que vai contra os interesses americanos é considerado terrorismo”, ele disse. “A América está protegendo seus interesses e nós estamos protegendo os nossos.”

Alguns analistas dizem que a posição agressiva de Trump com o FMP pode ser um tiro no pé.

“Enquanto os americanos continuarem aqui, é impossível largar nossas armas.”

“Combater esses grupos exige uma abordagem muito indireta”, disse Douglas Ollivant, da New America Foundation que foca no Iraque. “O FMP tem uma taxa de aprovação doméstica muito alta por seu papel e sacrifícios na luta contra o ISIS. O único antídoto de longo prazo para a influência e força deles é o fortalecimento do estado iraquiano.”

Apesar da ampla influência política e econômica do FMP, o governo diz que fez progressos para trazer o grupo para seu lado. Quando as tensões começaram a aumentar em maio, vários líderes importantes do FMP, incluindo o chefe do Asaib Qais Khazali, ecoaram o pedido do governo por calma.

Mas nos bastidores, Al Mayahi, o comandante militar, diz que o Asaib está preparado para lutar contra o que ele considera uma influência americana problemática na região.

“Os políticos querem acalmar as tensões”, ele disse. “Enquanto os americanos continuarem aqui, é impossível largar nossas armas.”

Imagem do topo: Membros da Forças de Mobilização Popular iraquiana do grupo xiita Asaib Ahl al-Haq, durante uma marcha em Bagdá. Iraque, 1º de julho de 2016. (AP Photo / Hadi Mizban)

Matéria originalmente publicada na VICE News.

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