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Milícias iraquianas estão preparadas para lutar contra os EUA se rebentar uma guerra com o Irão

"Não ficaremos em silêncio".

Por Simona Foltyn; Traduzido por Madalena Maltez
04 Julho 2019, 3:26pm

Membros das Forças de Mobilização Popular iraquianas, do grupo xiita Asaib Ahl al-Haq, durante uma marcha em Bagdad. Iraque, 1 de Julho de 2016. (AP Photo / Hadi Mizban)

Este artigo foi originalmente publicado na VICE News.

Hashem Al Mayahi nem sempre desprezou os EUA. Quando os americanos invadiram o Iraque para livrar o país de Saddam Hussein em 2003, ele esperava que a mudança de regime trouxesse um futuro melhor. “Achava que iam transformar o Iraque num paraíso depois de derrubarem Saddam”, recorda.

Mas, Bagdad mergulhou na violência e no caos e, quando os abusos norte-americanos emergiram, ele começou a mobilizar os seus vizinhos contra a ocupação, primeiro como parte do exército Mahdi, um grupo insurgente comandado pelo popular clérigo xiita Moqtada Sadr, mais tarde num grupo separado, o Asaib Ahl Al-Haq. O Asaib cresceu e ganhou notoriedade ao atacar tropas americanas, assumindo responsabilidade por mais de seis mil ataques do género.

Agora, com os EUA e o Irão num impasse que ameaça alastrar e transformar-se num conflito armado no Iraque, ele está pronto para voltar a fazê-lo. Numa entrevista exclusiva à VICE News, Al Mayahi diz que o Asaib está pronto para atacar alvos norte-americanos no Iraque, usando as mesmas tácticas de insurgência da época em que a ocupação americana estava no seu auge. “Noventa por cento de probabilidades de que haverá guerra”, salienta o homem de 46 anos à VICE News, numa conversa mantida em sua casa num bairro de Bagdad. E acrescenta: “Quando a América atacar o Irão, não ficaremos em silêncio".

Al Mayahi é um comandante militar sénior do Asaib, que agora faz tecnicamente parte do aparelho de segurança do Iraque depois da sua contribuição na guerra contra o ISIS e opera sob o comando do primeiro-ministro. Mas a milícia e outros grupos similares mantêm laços fortes com o Teerão. E enquanto as relações entre os EUA e o Irão se vão deteriorando, o Asaib e milícias do tipo podem tornar-se fundamentais em qualquer conflito.


Vê o primeiro episódio de "Terror"


Já há sinais de que o Iraque se pode tornar num campo de batalha entre os EUA e o Irão. No mês passado, foram disparados rockets contra uma base que alojava tropas americanas no norte de Bagdad e, alguns dias depois, contra uma instalação da gigante petroleira norte-americana Exxon Mobile no sul do país. Ninguém assumiu a responsabilidade.

Os ataques aconteceram algumas semanas depois do secretário de Estado Mike Pompeo ter alertado que o “Irão e os seus representantes” estavam a planear ataques iminentes aos interesses americanos no Iraque e de se ter imediatamente deslocado a Bagdad em busca de garantias de apoio. Também pediu que Bagdad contivesse grupos armados apoiados pelo Irão, como o Asaib.

“Incentivámo-los a consolidarem rapidamente essas forças”, disse Pompeo aos jornalistas depois da visita. E acrescentou: “Enquanto houver iranianos com capacidades em termos de sistemas de armas que não estejam sob o controlo do governo local, o povo iraquiano está em risco e a nação torna-se menos estável”.

Pompeo Iraq
O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, fala com o Charge D'affaires na embaixada dos EUA, Joey Hood, na chegada a Bagdá, terça-feira, 7 de Maio de 2019. (Mandel Ngan / Pool Photo via AP)

Essas exigências colocam o governo do Iraque numa posição complicada: o país não pode alienar os EUA, um parceiro estratégico crucial, particularmente nos sectores da defesa e energia. Mas, alguns oficiais em Bagdad estão irritados com a pressão de Washington que, segundo eles, ignora as circunstâncias domésticas que levaram à ascensão desses grupos e continuam a cimentar a sua base de apoio. “Não é assim tão simples”, realça um oficial sénior do governo, que falou à VICE News com a condição de se manter anónimo. E acrescenta: “Cada um desses grupos tem os seus próprios registos, história, interesses e exigências de auto-proteção”.

E sim, o Asaib é um aliado próximo do Irão. Durante a entrevista à VICE News, Al Mayahi falou abertamente sobre receber salários e treino militar do Irão e não hesitou em proclamar a sua lealdade ao líder supremo iraniano, Ali Khamenei. Admitiu ainda ter lutado na Síria, onde o Irão mobilizou os seus afiliados para ajudar o regime de Bashar Assad. Mas, alguns analistas argumentam que a relação desses grupos com o Irão é melhor descrita como uma relação de interesses convergentes do que por forças representantes.

“Muitas das tomadas de decisão do dia-a-dia, seja a mobilização de unidades ou tendências expansionistas de certas províncias – por exemplo, a decisão de tomarem alguma infra-estrutura ou expandirem actividades económicas – são movidas pelos seus próprios cálculos de estratégia doméstica”, explica Erica Gaston, da New America Foundation. Acredita-se que o Asaib usou as vitórias no campo de batalha contra o ISIS para expandir os seus interesses, tomando controlo de certos sectores da economia e comandando grupos criminosos que cobram taxas não-oficiais, contrabandeiam produtos e praticam a extorsão.


Vê: "O Estado Islâmico"


O Asaib largou as armas quando as tropas americanas deixaram o país em 2011, mas mobilizou-se novamente três anos depois, quando a autoridade suprema xiita do Iraque incentivou os jovens a impedirem os avanços do ISIS em Bagdad. Mais de 150 mil homens responderam ao chamamento, juntando-se a várias milícias sob as Forças de Mobilização Popular (FMP) xiita. Uma lei de 2016 tornou o FMP num exército oficial das forças de segurança do Iraque, juntamente com o exército do país, o Serviço de Contra-terrorismo e a Polícia Federal.

Quando as tropas norte-americanas voltaram ao Iraque para lutar contra o ISIS, viram-se a lutar do mesmo lado que o FMP. Mas, com o ISIS praticamente acabado, a competição pela influência económica, política e militar no Iraque tornou-se muito mais evidente. Enquanto os EUA pressionam Bagdad para controlar os poderes do FMP, o FMP diz que está na hora de as tropas americanas partirem.

“Não confiamos na política americana no Iraque”, salienta Laith Al Adhari, membro do departamento político do Asaib, localizado num condomínio no bairro Jadriyah de classe alta em Bagdad. E sublinha: “Se os EUA querem estabilidade e segurança no Iraque, então os americanos devem partir”.


Vê: "Por dentro dos últimos dias do auto-proclamado Estado Islâmico"


Com a barba cinzenta bem aparada e de gravata cor-de-rosa, Al Adhari representa a nova imagem do Asaib: um movimento político que tem os interesses iraquianos, não iranianos, no seu cerne. “Valorizamos a nossa identidade nacional. Não aceitamos qualquer violação à nossa soberania e não aceitamos a presença americana ou iraniana”, garante. A base do Asaib vem do sul xiita, mas com o crescimento da oposição pública à interferência iraniana no Iraque, o grupo procurou redefinir-se como um movimento nacional que representa todos os iraquianos.

O partido conseguiu 15 assentos no Parlamento nas eleições do ano passado, a maior vitória de todos os partidos e é parte de um bloco liderado pelo FMP e amigável para com o Irão, que defende uma lei para expulsar as tropas estrangeiras. Segundo a constituição do Iraque, o Parlamento não pode propor a sua própria legislação; apenas votar em leis iniciadas pelo executivo. Até agora, o primeiro-ministro não mostrou intenções de propor essa lei, afirmando repetidamente que as tropas americanas só estão no Iraque para treinar e aconselhar as forças de segurança locais.

O FMP, no entanto, vê as coisas de maneira diferente e acusa os EUA de usarem a sua presença militar para alcançar os seus objectivos geopolíticos, uma crença cimentada pela proclamação de Trump de usar as bases norte-americanas no Iraque “para vigiar o Irão”.

“Durante o auge da guerra contra o terrorismo, o número de soldados era de cinco mil. Não deveriam ter diminuido esse número depois da vitória sobre o ISIS? Isso significa que eles não estão aqui só para dar formação”, defende Al Adhari. Um porta-voz da coligação liderada pelos EUA que derrotou o ISIS confirmou à VICE News que o país mantém cerca de 5.200 soldados no Iraque. “Continuamos a rever os nossos níveis de força no Iraque para realizar o trabalho que nos foi requisitado pelo governo iraquiano e temos apenas as forças que precisamos”, assegura o coronel do exército norte-americano, Scott Rawlinson.


Vê: "Foi assim que os Estados Unidos criaram o Estado Islâmico"


A visão de Adhari é mais polida que a de Al Mayahi, o comandante militar que declarou sem rodeios a sua lealdade ao Irão. No entanto, durante uma entrevista de duas horas, Al Adhari manteve sempre uma narrativa menos ambígua sobre o porquê de o Irão ser um aliado mais “natural” para o Iraque do que os EUA.

Ao contrário dos EUA, argumenta ele, o Irão não impôs sanções ao Iraque nos anos 90, nem destruiu sua economia. O país não invadiu o Iraque sob o pretexto de armas de destruição em massa. Ecoando a crítica preferida do presidente Trump à administração Obama, Al Adhari também acusou os EUA de ter “trazido o terrorismo para o Iraque”, criando um solo fértil para extremismos e de fornecer apoio ao ISIS (esta última afirmação, apesar da falta de provas, é uma visão comum no Iraque).

Os EUA, pelo seu lado, vêem sectores-chave do FMP como grupos terroristas. Em 2017, o Congresso introduziu uma lei para impor sanções relacionadas com terrorismo contra o Asaib e outra milícia ligada ao Irão, o Harakat Hezbollah Al Nujaba. Em Março último, o Departamento de Estado acrescentou o Nujaba à sua lista de organizações terroristas, a segunda unidade do FMP a ganhar a designação depois do Kataib Hezbollah. O Asaib pode ser o próximo, uma perspectiva que não parece preocupar Al Adhari. “Hoje, tudo o que vai contra os interesses americanos é considerado terrorismo”, justifica. E salienta: “A América está a proteger os seus interesses e nós estamos a proteger os nossos”.

Alguns analistas dizem que a posição agressiva de Trump com o FMP pode ser um tiro no pé. “Combater esses grupos exige uma abordagem muito indirecta”, avança Douglas Ollivant, da New America Foundation que se foca no Iraque. E acrescenta: “O FMP tem uma taxa de aprovação doméstica muito alta pelo seu papel e sacrifícios na luta contra o ISIS. O único antídoto a longo prazo para a sua influência e força é o fortalecimento do estado iraquiano”.

Apesar da ampla influência política e económica do FMP, o governo diz que fez progressos para levar o grupo para o seu lado. Quando as tensões começaram a aumentar em Maio, vários líderes importantes do FMP, incluindo o chefe do Asaib Qais Khazali, ecoaram o apelo do governo à calma. Mas, nos bastidores, Al Mayahi, o comandante militar, diz que o Asaib está preparado para lutar contra o que considera ser uma influência americana problemática na região. “Os políticos querem acalmar as tensões”, diz. E conclui: “Todavia, enquanto os americanos continuarem aqui, é impossível largarmos as nossas armas”.


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