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Saúde

Faz diferença que produtos para a pele contenham CBD?

Testei 40 produtos de skincare com CBD, li todas as avaliações empolgadas e falei com três dermatologistas para saber se eles realmente funcionam.

Por Rajul Punjabi
26 Abril 2019, 9:24am

Eddie Pearson / Stocksy

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

Já deves ter percebido que a indústria do bem-estar tem uma tesão do caraças por CBD, um dos compostos centrais da canábis que não dá moca. Sou uma editora de bem-estar e CBD, anteriormente conhecido como canabidiol, é o ingrediente estrela de quase todos os produtos de amostra que me enviam hoje em dia. Já recebi óleos de CBD, chocolate, gomas, lubrificante, bebidas com gás, matcha e uma catrefada de produtos para a pele, incluindo hidratantes, máscaras e sabonetes.

Há estudos sobre os benefícios de ingerir óleo de extracto de CBD para alívio da dor e como ajuda para dormir menos viciante, mas há menos provas das propriedades do composto para a pele. Estes produtos estão a ser amplamente vendidos, mas temos pouca noção do quão seguros são, se eles podem mesmo melhorar a pele, ou se estamos só a atirar dinheiro pela janela.


Vê: "Podem as terapias alternativas salvar-nos a vida?"


Mas, nada temas. Por ti, querida leitora ou leitor, experimentei todos os benditos produtos de CBD que me enviaram, li todas as afirmações empolgadas que as empresas fazem sobre eles e falei com vários dermatologistas que sabem detectar conversa da treta sobre os propósitos e eficácia dos produtos para a pele que contêm CBD. Nota: testei os produtos de skincare – hidratantes, séruns etc. – não cremes de CBD para dores musculares.

A maioria dos produtos para pele com infusão de CBD dizem que o canabidiol tem propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes – sendo assim, basta que os uses e pronto, a tua pele vai ficar menos inchada e com uma aparência mais jovem. Agarrei a oportunidade de refutar essas afirmações grandiosas, porque qualquer pessoa que confia na ciência sente a léguas o cheiro a banha-da-cobra sobre coisas que rejuvenescem. Para o bem ou para o mal, não consegui exactamente desmascarar essas afirmações. Mas, encontrei uma perspectiva mais pés assentes na terra e razoável sobre estes produtos.

Primeira coisa: o CBD ainda não foi regulamentado pelo FDA nos EUA. “Como o composto não é regulamentado, a qualidade e pureza de produtos de CBD pode variar muito”, diz Charles Crutchfield, professor de dermatologia da Universidade do Minnesota. E acrescenta: “Estudos já mostraram que esses produtos raramente contêm a concentração de CBD que o rótulo anuncia" (essa história é tão comum que até já existe um estudo sobre o assunto nesta publicação médica). Essa falta de regulamentação é importante porque, claro, a dose é crucial. A absorção geral de CBD pela pele é muito baixa, diz o especialista e produtos de baixa qualidade podem tornar essa absorção relativamente ineficaz.

"Temos receptores de CBD na primeira camada da pele, nos folículos capilares e nas glândulas de óleo – portanto, há um mecanismo físico de acção para qualquer suposto benefício", realça Kenneth Mark, dermatologista e professor do departamento de dermatologia da Universidade de Nova Iorque. Mark considera que as pessoas estão empolgadas com as propriedades anti-inflamatórias do CBD, porque quase todos os problemas de pele – de eczema a acne – estão ligados a inflamação. Quanto ao CBD ser antioxidante, ele acredita que o composto possa ser melhor que a vitamina C. “Toda a gente sabe do hype à volta da vitamina C para cuidados da pele”, salienta (eu não sabia, mas é verdade).

Quando o questionei sobre essa história do CBD ser melhor que a vitamina C, ele enviou-me um estudo que apoia essa conclusão, mas os testes foram levados a cabo em roedores. A maioria dos benefícios do CBD para a pele ainda não foram provados em humanos. A única pesquisa mais reveladora para a qual os dermatologistas apontam é de 2017 e mostrava os benefícios de canabinoides para a comichão. E nisso posso dar o meu parecer, já que usei um hidratante de CBD que realmente aliviou uma queimadura de sol.

A principal pergunta que tinha enquanto testava os hidratantes e cremes era: se as marcas estão a vender esses produtos de skincare (que são bastante caros), vale a pena incorporá-los na tua rotina de bem-estar ou basta tentar usá-los para tratar um problema de pele em particular? O CBD tem mesmo propriedades preventivas?


Vê: "CBD: a canábis 'light'"


"Ao fim e ao cabo, há um potencial teórico para o uso de canábis na dermatologia, mas nada ainda conclusivo", considera Raman Madan, director de dermatologia cosmética da Northwell Health e professor de dermatologia clínica da Hofstra University. Madan sublinha: “Parece-me que algumas das melhorias que as pessoas estão a ver, por exemplo em relação a eczema, é porque estão a hidratar a pele – e o hidratante por acaso contém alguma forma de CBD. É preciso muito mais investigação para chegar a uma conclusão definitiva, mas por enquanto eu não veria o canabidiol como uma cura para qualquer coisa”.

Madan apresenta aqui uma questão importante: alguns dos hidratantes de CBD contêm emolientes calmantes como mel de manuka, cacau e manteiga de karité. Não há como saber se é o CBD do produto ou os outros ingredientes que fazem a diferença até que haja mais estudos formais em humanos.

Mas olha, pesquisa em animais ainda é pesquisa, portanto se queres ver se esses produtos têm um efeito positivo na tua pele e tens dinheiro pra gastar neles, manda vir. Acredito fortemente que quando te empolgas com um produto, isso faz com que queiras cuidar melhor da tua pele no geral. E o efeito placebo também não é algo de descartar, já que estudos mostraram que pode ter um efeito potente no que diz respeito a questões de pele.

Dito isto, fiz a minha própria “pesquisa”. Mesmo não sabendo como esses produtos poderiam afetar eczema ou condições do tipo, A minha pele fica muito seca no inverno e andava à procura de alguma coisa que parecesse mais hidratante que a minha manteiga corporal da Brandless, que custa apenas cinco dólares e me salvou de um cotovelo ressequido.

Dos literalmente 40 produtos que experimentei deborla (estou a escrever este artigo desde Novembro último, porque testei cada produto ao longo de vários dias), alguns destacaram-se. Gostei do Hand and Foot Cream da Uncle Bud pela viscosidade e perfume – citros mentolado parece meio esquisito, mas o cheiro é de salada de Verão e de género neutro. O hidratante labial da Veritas Farms era calmante e não deixava aquele resíduo branco estranho nos lábios. O Body Cream da Extract Labs é mais um bálsamo que um creme, substancial mas não gorduroso e apenas um bocadinho rende bastante.

A Kiehl faz o Cannabis Sativa Seed Oil que é suficientemente leve para usar no rosto, deixa uma sensação de rabinho de bebé e tem um cheiro suave parecido com o da gloriosa plantação de cânhamo que visitei uma vez no Kentucky. Aliás, todos os óleos de CBD vendidos para a pele são bastante caros e por 49 dólares [cerca de 44 euros], este é o único que realmente compraria. E por último, este sérum para os olhos da CBD for Life é muito bom para ressaca – não posso dizer nada sobre as supostas propriedades “anti-idade” de nenhum destes produtos, mas pode haver alguma verdade na teoria anti-inflamatória, porque este sérum diminuiu mais o inchaço das minhas olheiras do que qualquer outro produto sem CBD que já usei.

Portanto, é isto. Enquanto alguns dermatologistas acreditam que o CBD tem um grande futuro nos produtos de skincare, nada ainda está efectivamente provado. E até eu ver um efeito Benjamin Button à séria com estes cremes de CBD, vou continuar céptica e selectiva.


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