Cultura

A verdadeira e assustadora história de como "The Blair Witch Project" foi feito

Numa altura em que se celebram os 20 anos do filme, conversámos com os produtores e actores por detrás do fenómeno que inspirou o género de terror DIY.

Por Tatiana Tenreyro; Traduzido por Sérgio Felizardo
23 Julho 2019, 9:54am

Imagens via Getty; Ilustração por Lia Kantrowitz.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Em 1997, Eduardo Sanchez e Daniel Myrick enviaram três actores desconhecidos para o meio da floresta para improvisarem e gravarem um filme de terror. O conceito era praticamente inédito e não seria fácil de realizar. Mas, dois anos depois, Sanchez e Myrick tinham um sucesso nas mãos com The Blair Witch Poject, que inspirou todo um novo subgénero e se tornou um dos mais icónicos filmes de terror de todos os tempos.

Feito com um orçamento de apenas 60 mil dólares, o filme estreou em Sundance em 1999. Apenas duas horas depois da sessão da meia-noite do festival, os jovens realizadores venderam a longa à Artisan Entertainment por 1,1 milhão de dólares. À época, o filme foi o mais comentado da temporada, mas a verdade é que demorou anos até se tornar realidade. Apesar de Sanchez e Myrick terem pensado no conceito quando eram estudantes de cinema na Universidade da Flórida Central em 1991, só começaram a colocar os seus planos em prática em 1996 e, devido a problemas de financiamento, só conseguiram fazer o casting em 1997. Sanchez e Myrick tiveram de encontrar actores que pensassem de forma rápida, porque mesmo tendo escrito um rascunho muito detalhado do guião, os diálogos seriam quase todos improvisados.


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Numa das experiências mais intensas de filmagem que se possam imaginar, os actores Heather Donahue, Joshua Leonard e Michael C. Williams interpretaram uma versão fictícia de si próprios, deslocando-se para uma floresta de Maryland para filmar um documentário sobre a lenda da Bruxa de Blair. Parte do que tornou The Blair Witch Project tão vanguardista é que nunca vemos realmente a bruxa e os cineastas não usaram efeitos especiais para assustar o público; em vez disso, tinham as reacções verdadeiras de um elenco que não sabia o que o esperava na floresta.

O filme conseguiu fazer muito com pouco, criando uma das primeiras campanhas de marketing viral e conquistando seguidores antes sequer de chegar aos cinemas. A The Blair Witch Project faz 20 anos, portanto entrevistámos o elenco e a equipa para relembrar como foi a produção de um dos filmes de terror mais icónicos de todos os tempos.

blair witch casting call

Michael C. Williams [“Mike”]: Não tinha nenhuma experiência profissional, além de ter estudado na SUNY New Paltz durante quatro anos. [O anúncio do teste para o elenco] dizia “longa-metragem que será filmada numa floresta”, acho que dizia filme com diálogos de improviso... Necessário improvisar e saber acampar. E eu adoro as duas coisas, portanto achei que seria interessante. Improvisar? Como é que improvisas um filme? Fui ao casting e havia vários avisos antes de entrares na sala, panfletos nas paredes que diziam “se conseguires este papel, estarás sujeito a situações físicas desconfortáveis, nunca estarás em perigo, mas estarás a céu aberto na maior parte do tempo. Se não gostas disso, por favor, não faças o teste”.

Daniel Myrick: Fizemos o processo de casting de uma forma que nos permitia ver rapidamente a capacidade da pessoa para improvisar. Os actores tinham um parágrafo em que lhes dizíamos que estavam a pedir liberdade condicional: foste condenado por homicídio há 12 anos e agora estás a preparar-te para defenderes o teu caso perante a comissão de condicional.

Williams: Ed Sanchez estava sentado numa mesa com outros tipos [na sala de casting] e disse apenas “Cumpriste 10 anos da tua sentença de 12, podes sair em liberdade condicional, o que tens a dizer?” Ele não viu a minha cassete, não me disse bom dia, não disse nada, pediu-me imediatamente para improvisar.

Eduardo Sanchez: [A Heather] assustou-nos terrivelmente e olha que estávamos num espaço de ensaio em Nova Iorque, a situação menos assustadora possível.

Myrick: [A Heather] foi a única pessoa naquele um ano de sessões de casting que, quando lhe perguntámos “Porque é que deverias ser libertada sob condicional?”, me olhou nos olhos e disse “Acho que não deveria”.

heather and mike on the blair witch set
Durante a pré-produção, os realizadores tinham que ter a certeza de que tudo estava em perfeitas condições para os actores filmarem sozinhos. Isso envolveu ensiná-los a usar o equipamento, familiarizá-los com a cidade e definir ferramentas de sobrevivência.

Myrick: O nosso produtor Gregg Hale, que era ex-militar, ligou-nos a um sistema de GPS. Tínhamos dois – os actores tinham um e nós o outro. Três semanas antes das filmagens, Ed e eu fomos para a floresta e marcámos todas as áreas onde os acampamentos deveriam ser e onde faríamos as cenas de sustos. Tudo foi pensado muito metodicamente.

Sanchez: Na floresta, queríamos que eles estivessem o mais sozinhos possível, portanto tentámos treiná-los bastante no que diz respeito às filmagens. Para o Mike, fizemos um pequeno curso de áudio sobre como ligar os cabos e como deixar o som bom com o gravador DAT.

Myrick: A maior parte do filme é, basicamente, gravado com uma câmara Hi8, que é praticamente só ligar e filmar. Ligas e ela faz tudo sozinha. O treino para filmares com ela demorouum ou dois dias.

Williams: Tive que aprender como o som funcionava, como o DAT funcionava. Tudo o que é filmado na câmara, estás a ouvir o som da câmara, mas as coisas a preto e branco são do DAT, que é um sistema de som old school.


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Joshua Leonard ["Josh"]: Eu nunca tinha filmado com uma CP-16. Essa câmara é um monstro – usada principalmente para gravação de noticiários antes do formato vídeo ser inventado. Quando a cheguei a Maryland, fui apresentado ao falecido Neal Fredericks, que estava aos comandos do “visual” do filme. Filmámos durante um dia mais ou menos, para eu aprender como funcionava a CP. Mas, mesmo assim, acabei por estragar algumas filmagens – toda a conversa no filme sobre pés versus metros depois de saírmos de casa da Mary Brown foi real. Era eu a perceber que tinha errado nos cálculos de medição e a filmagem provavelmente tinha ficado desfocada.

Sanchez: Levámos os actores para o Montgomery College para caminhar um pouco. Era onde deviam encontrar-se e depois levámo-los de carro por Maryland para terem uma ideia de como era viver ali. Demos-lhes revistas de 1994 para lerem sobre o que se passava. Para a Heather, trabalhámos na mitologia. Ela recebeu uma história mais detalhada, porque sentíamos que precisava de saber muito mais sobre a Bruxa de Blair do que os gajos, então dissemos-lhe: “VTens que te tornar mai sou menos numa especialista em toda esta informação”. E depois, claro, ensinámos-lhes coisas básicas de campismo.

O Gregg estava no comando dos pontos de notificação do GPS, foi isso que ajudou os actores a irem de uma localização para outra na floresta sem que os tivéssemos de levar. Ele teve que lhes ensinar como trabalhar com o rastreador GPS e coisas básicas de sobrevivência e de segurança, tipo, se algo acontecesse, o que deveriam fazer.

blair witch production

As filmagens começaram a 23 de outubro de 1997, em Montgomery County, Maryland.

Sanchez: Levámos toda a gente até ao local, tivemos que lhes fazer as malas e colocá-los a filmar sozinhos e, na maioria das vezes, só nos comunicávamos se algo corresse mal ou se havia uma grande dúvida que tinha de ser respondida imediatamente. Tentámos segui-los por alguns dias, mas não resultou. Era muito difícil ficarmos fora do caminho deles e não podíamos fazer mais nada além disso. Só podíamos observá-los. Vimos as filmagens quando voltámos e gostámos do que vimos. Achámos que estava tudo a funcionar bem e abandonámos a ideia de os observar. Basicamente, foi só guiá-los através de notas de realização e garantir que tudo estivesse a ir de acordo com o plano.

Myrick: Eles sabiam quando chegavam ao local de acampamento com a ajuda do GPS quando viam uma caixa de leite com uma bandeira de bicicleta enfiada no chão. Nesses sítios era onde deviam montar a tenda e passar a noite. Dentro da caixa de leite havia uma pequena lata de filme, com as notas de realização para cada um. As notas de realização deviam ser lidas individualmente e os actores não podiam contar uns aos outros o que tinham.

Williams: As cenas eram dirigidas por bilhetes deixados em latas de película de 35mm pela floresta. Tínhamos o GPS programado pelos produtores e realizadores, que tinham mapeado todas as localizações. Programavam os chamados pontos de chegada para oito dias. Em cada um desses pontos, olhávamos para o GPS que dizia “ponto de chegada 3, ponto de chegada 4 em 3 quilómetros”, depois olhavas para a bússola e no próximo ponto de chegada era onde deveria ocorrer um evento.

Myrick: Conseguimos mais ou menos guiá-los pela floresta sem termos a equipa inteira à volta e, ao mesmo tempo, dar-lhes as notas de realização para guiar os personagens.

blair witch set

Leonard: Na noite em que eu deveria desaparecer, os realizadores deixaram-me um bilhete que dizia para esperar que toda a gente adormecesse e depois saísse de mansinho da tenda. Lembro-me que o papel dizia “Se alguém acordar, diz que tens de ir mijar e sai o mais rapidamente possível”. Depois de ter saído, Ed, Dan e Gregg estavam à minha espera. Meteram-me no carro e disseram-me que estava a ir para casa.

Myrick: Foram oito dias de filmagens em que eles estavam realmente a acampar na floresta. Isso foi pensado para os pressionar a darem respostas verdadeiras. Com o tempo, fomos racionando a comida, portanto eles estavam com fome. Claro que não estavam a morrer de fome, mas quando não comes bem todos os dias ficas irritado, portanto foi uma espécie de método de abordagem de sobrevivência que os deixou preparados com antecedência.

Williams: Digamos que o primeiro dia foi uma sanduíche e um pacote de snacks ao almoço, no segundo só a sanduíche e no terceiro só o pacote de snacks, no quarto dia nem almoçámos. Nos últimos dias tínhamos suficiente substância, mas não muita comida. Foram cortando na comida, o que já sabíamos que ia acontecer, mas não foi tipo... Não ficámos dias sem comer. Nunca arriscaram a nossa segurança. A ideia era deixar-nos desconfortáveis sem nos colocar em perigo.

Myrick: Rimo-nos de uma coisa que o Gregg disse aos atores. Algo do tipo: “A vossa segurança é a nossa maior preocupação, o vosso conforto não”.

Sanchez: Era como uma peça de teatro na floresta e nós éramos a Bruxa, portanto às vezes era do género “Certo, é meia-noite, temos que ir até lá e correr à volta do acampamento ou algo assim”. Todas as noites tínhamos um plano. Íamos para a floresta e separávamo-nos em pequenos grupos para fazer barulho, mais barulho, isto ou aquilo e quando tínhamos o que era preciso dizíamos “OK, está bom” e íamos embora lá pelas duas da madrugada depois de assustarmos os actores.

Leonard: Perguntam-nos sempre se estávamos realmente com medo quando a equipa se metia connosco a meio da noite. A resposta é não. O que geralmente estava a acontecendo nos bastidores é que estávamos exaustos, com fome e muitas vezes molhados. Montávamos o acampamento e íamos dormir, mas quando estavas finalmente quente no teu saco-cama húmido, os gajos começavam a passar sons bizarros de crianças fora da tenda. Portanto, o que vês no filme acontece logo depois de toda a gente suspirar de cansaço, percebendo que tinha que voltar a calçar os sapatos e começar a actuar.

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Williams: Nas duas primeiras noites, não aconteceu muita coisa, depois eles começaram. Conseguias ouvi-los a andar lá fora, a partir coisas, a atirar pedras às árvores. Na verdade foi bastante fixe, porque nunca vias onde eles estavam. Sabias que eram eles, mas o teu trabalho como actor era ignorar essa realidade e focares-te no som. Isso criou circunstâncias onde era muito fácil acreditar que estávamos com medo. Dito isto, depois da terceira ou quarta noite, estávamos exaustos. Lembro-me que dizíamos “Vocês ouviram isto?” e todos respondiam “Aham” e “Foda-se, temos que nos levantar e fazer isto outra vez?”.

Myrick: Queríamos manter esse ambiente para que os actores não soubessem mais do que os seus personagens saberiam naquele momento. Quando o Josh ou o Mike perguntam uma coisa à Heather no filme, é uma pergunta legítima.

O monólogo de Heather tornou-se um dos momentos mais icónicos do filme e até quem não viu "The Blair Witch Project" o reconhece instantaneamente.

Myrick: Precisávamos de um momento em que, depois de o Josh desaparecer, ela finalmente percebe que fez merda. Havia esse momento em algum ponto no guião de confissão, onde ela saía sozinha e se despedia. Dizes adeus à tua família, desculpas-te, como se estivesses num barco no meio do Pacífico, insistindo em ir numa certa direcção e toda a gente a dizer não e agora o barco está a afundar-se. O que dizes? Tínhamos esse momento escrito desde o começo, mas deixámos a Heather pegar na câmara e dissemos “Aponta a câmera para ti, como se fosse um monólogo em modo selfie, mas diz o que dirias como a tua personagem para a tua família e amigos, esse é o momento em que aceitas o que fizeste”. Foi aí que a Heather pegou na câmara, saiu sozinha e fez a actuação.

O final do filme foi uma das cenas mais desafiantes para os realizadores. Ela foi filmada em Griggs House, uma casa histórica do século XIX.

Sanchez: Eu tinha um rádio com uma cassete e gravámos o Josh a gritar aquelas falas. É uma tomada onde alguém estava no andar de cima da casa com o aparelho de som e alguém estava na cave e eu estava na floresta perto da tenda. Quando percebi que eles estavam a dormir, apertei o play.

Myrick: Eles sabiam [como seria o final]. A cena da casa provavelmente foi a tomada mais tradicionalmente filmada do filme, porque, logisticamente, era demasiado complicada. A primeira tomada deles a aproximarem-se da casa foi real. Quando saem do acampamento e vêem a casa, estão a ver a casa pela primeira vez.

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Williams: A minha direcção para a última cena era “Mike, vai ouvir alguma coisa hoje e quando ouvires, vais correr até acima, até a Heather te alcançar e quando ela te alcançar, vais correr até abaixo”. Claro que eu não sabia que era uma casa, certo, portanto não sabia o que até acima e até abaixo significava, não sabia o que ia ouvir. Tínhamos walkie-talkies para chamar o Ed Sanchez e eu disse “Não entendi a última direção”, ele disse “Olha, garanto-te que vais entender quando acontecer” e respondi “OK”, desliguei o rádio e fui dormir. Quando acordei, o som era a voz do Josh num rádio, então tive que seguir a voz dele, ver a casa e entender naquele momento o que era ir até acima.

Myrick: Tivemos que mapear tudo isso com antecedência, trabalhar o caminho a cada tomada para que, no corte final, tudo junto parecesse uma única tomada.

Antes de Sundance, os realizadores fizeram um site em que fingiam que o desaparecimento dos actores do filme era real, um dos primeiros casos de marketing viral. Quando a Artisan Entertainment viu o marketing, decidiu retrabalhar o site e manter a aparência de que a história do filme era real.

Sanchez: O site foi para o ar em Junho de 98, antes de Sundance. Fizemos o site a fingir que a história era real, com uma linha temporal e tudo o mais, uma pequena biografia sobre Heather, Mike e Josh, uma linha temporal da mitologia do caso. Também colocámos lá o diário de Heather, dando a ideia de que tínhamos sido contratados pela mãe dela para editar a filmagem e que aquilo não era marketing de um filme. A coisa espalhou-se em modo boca a boca e quando entrámos em Sundance, tínhamos umas 10 mil pessoas na nossa lista de e-mail, que era um número bastante grande para 1999. O site realmente ajudou-nos a entrar no mapa.

Myrick: A Artisan pegou no conceito do site, que era tipo um incidente real que aconteceu em Maryland e continuou com isso. Quando fomos para Cannes, fizeram uns cartazes de “desaparecidos” e mandaram estagiários colocá-los pela cidade. Isso chamou muito a atenção. Em algumas semanas, o filme ganhou toda uma visibilidade na cena nacional; as pessoas realmente acharam que os três actores tinham desaparecido. Só quando começaram a participar em talk shows e tudo isso é que as pessoas perceberam que era apenas um filme. Mas, continuaram com a ilusão por algum tempo.

Leonard: Era uma coisa tonta, mas também acho que funcionou. Como indivíduos, foi meio estranho, porque usámos os nossos nomes verdadeiros no filme. Os nossos pais começaram a receber telefonemas de pessoas a darem-lhes os pêsames. Depois, quando a cortina realmente caiu e chamámos a atenção da imprensa, algumas pessoas continuaram a não acreditar em nós. Disseram que éramos actores contratados para interpretar Josh, Mike e Heather, para impedir que a coisa toda fosse vista como um filme snuff. Até hoje há teorias da conspiração sobre essa história.


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