Gaming

A guerra cultural chegou ao Warhammer 40k

Nos últimos anos, o jogo de tabuleiro de fantasia atraiu uma minoria abertamente da alt-right. Agora, membros da comunidade estão tentando fazer algo sobre isso.
LL
ilustração por Lily Lambie-Kiernan
MS
Traduzido por Marina Schnoor
12.8.20
Warhammer 40k Games Workshop Alt-Right Donald Trump Fantasy

Warhammer 40.000 – mais conhecido simplesmente como 40k – é um jogo adorado pelos fanáticos de ficção científica desde os anos 1980. O jogo de tabuleiro de guerra, produzido pela Games Workshop, é um espaço de fantasia onde os jogadores se tornam generais do próprio exército futurista, presos numa guerra sem fim de proporções galácticas.

Nos últimos anos, o jogo – com um fandom que geralmente se reúnem na internet – atraiu uma minoria abertamente da alt-right. Em 2015, o meme “God Emperor Trump” começou a circular no 4Chan, retratando o rosto de Trump sobre a imagem de um governador fictício teocrático do jogo. Desde então, grupos fechados do Facebook de 40k se tornaram um repositório de conteúdo racista e de extrema-direita, cheios de memes temáticos do Warhammer zoando de etnias específicas a igualdade de gênero.

É fácil ver por que alguns jogadores têm uma leitura fascista do Warhammer 40k. Parcialmente escrito como uma sátira em resposta a sci-fis otimistas demais da década de 1970, o jogo acontece numa galáxia distópica e sem esperança onde exércitos assassinos reinam. Há um empréstimo consciente de iconografia, estruturas e práticas fascistas. Por exemplo, talvez o grupo mais famoso do folclore 40k, o Imperium of Man é um etnoestado teocrático inchado que se estende pela galáxia, matando hereges e raças alienígenas. “Na escuridão do futuro distante, só há guerra”, diz o slogan do jogo.

Muitos fãs de Warhammer estão cada vez mais desconfortáveis com a facção alt-right do fandom prosperando em certos cantos da internet. Um grupo agindo agora é o No More Damsels, uma organização pedindo uma atmosfera mais inclusiva para a cena do jogo em Londres. Os membros querem que o Games Workshop faça planos específicos para abordar racismo, machismo, homofobia e outras formas de preconceito dentro da comunidade Warhammer.

Mês passado, a cofundadora do No More Damsels, Sarah Pipkin, ajudou a escrever uma carta aberta para a Games Workshop, apontando a intolerância em Warhammer. “Fornecer medidas abertas e claras para desencorajar o ódio e o abuso faria muito para tornar a comunidade mais receptiva e tolerante para todos”, diz a carta. “Esperamos seu apoio e ver o precedente que vocês darão ao tomar ações repetidas e consistentes para abordar o preconceito.”

Apesar da carta, que foi assinada por mais de uma dúzia de grupos de Warhammer, ter sido principalmente bem recebida, o No More Damsels já esperava receber reações negativas online. Jogadores pedindo mais representatividade e uma atmosfera mais inclusiva no mundo de 40k frequentemente acabam alvos de trolls da extrema-direita, sem ter a quem recorrer.

“Se você é trolado por falar que quer se ver representado no folclore do jogo, não tem para quem se voltar”, Pipkin explicou por telefone. “Um youtuber fez uma piada sobre os Space Marines [soldados fictícios de Warhammer] serem gays e recebeu ameaças de morte.”

A carta aberta do No More Damsels não veio do nada. Ela foi publicada em resposta a uma declaração da Games Workshop em 4 de junho, onde a empresa se comprometia a diversificar seus modelos e manter o racismo fora de suas lojas. “Nunca aceitamos nem toleramos nenhuma forma de preconceito, ódio ou abuso na nossa companhia ou no hobby Warhammer”, eles escreveram.

Apesar de Pipkin dizer que a mensagem antirracista foi encorajadora, o No More Damsels esperava que a Games Workshop detalhasse uma resposta mais prática. O grupo também pede que a Games Workshop ofereça uma desculpa para Josh Mallett, um jogador negro que falou publicamente sobre comentários racistas que ele ouviu de funcionários da Games Workshop num evento Warhammer Weekender. A Games Workshop não respondeu nossos pedidos de comentário.

Outros acreditam que a estratégia de marketing da empresa pode estar inadvertidamente alimentando o sentimento de extrema-direita na comunidade. Thomas Parrott trabalhou como freelancer para a Games Workshop até junho, escrevendo romances para o ramo editorial Black Library da companhia. Ele acha que adotar uma narrativa superficial de “bandidos contra mocinhos” – numa tentativa de agradar pais de clientes mais novos que de outra maneira desaprovariam o folclore sombrio cartunesco de 40k – abre as portas para uma visão simplista problemática do jogo.

“É muito fácil interpretar equivocadamente o Imperium of Man como sendo ‘os bons’, ao contrário do que originalmente era: uma sátira de um estado autoritário”, ele disse.

Mas algumas pessoas da comunidade 40k acham que a Games Workshop não deveria nem ter feito a declaração. Um desses membros é o youtuber norueguês Arch (conhecido como “Arch Warhammer” antes de uma disputa recente de copyright com a Games Workshop). Ele lançou uma campanha de e-mail em julho, incentivando seus mais de 200 mil seguidores a escrever para a Games Workshop dizendo para eles “manterem a política fora do jogo”.

Arch diz que não se identifica como um membro da extrema-direita, e insiste que “não sabia” de nenhuma seção da alt-right ou fascista na comunidade 40k. Em vez disso, ele viu a declaração da Games Workshop como equivalente a se alinhar com “extremistas” que apoiam o comunismo e, segundo ele, defendem a violência.

“Pra mim, isso é a mesma coisa de quando você ouve falar sobre as frases códigos da alt-right”, ele explicou, via Discord. “Isso me parece um sinal de um grupo muito pequeno de extremistas… O que minha campanha está dizendo é que Warhammer é para todo mundo, ponto final.”

Dois meses atrás, capturas de tela do Discord de Arch foram postados no /r/Sigmarxism, um subreddit de esquerda do Warhammer. Várias pessoas usavam gírias raciais ofensivas, e o próprio Arch se referia aos Sámi (um povo indígena do norte da Escandinávia) como “ciganos, mas piores”. Outro membro usava o termo “exercícios de campo” – um termo dos círculos da extrema-direita se referindo a atividades do Einsatzgruppen nazista, que matou milhares de romani, judeus e comunistas em territórios ocupados pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial – como uma sugestão de como lidar com o grupo.

Antes dos vazamentos, Arch fez um vídeo onde chamava a raça fictícia Gnoblar de “house n*s”, e outro onde ele defendia o uso do termo “White Lives Matter”. Quando perguntei sobre sua linguagem e comentários racistas no Discord, Arch disse que não se preocupa com como “extremistas” veem seu discurso, e que ele vai continuar permitindo “piadas”.

“Se você é um tankie extremista, ou mesmo um fascista extremo, se você quer jogar 40k, não fale sobre política, simplesmente colecione as miniaturas – não vejo por que deve ser trabalho da Games Workshop impedir isso”, ele disse. “Vejo como trabalho do resto da sociedade debater contra essas pessoas  e evitá-las através de discurso público, e da opinião pública.”

As visões de Arch não são compartilhadas por todo mundo. Incluindo o youtuber e jogador veterano de Warhammer Leakycheese, que prefere permanecer anônimo. Ele diz que ignorar as tendências fascistas de certos jogadores provavelmente vai impedir novas pessoas de se tornar parte da comunidade Warhammer. E pior, pode radicalizar os mais jovens entrando no hobby como parte do Games Workshop’s Schools Programme, os levando para uma “linha PewDiePie” de conteúdo de extrema-direita.

Leakycheese sugere que um passo positivo seria um aviso postado em todos os jogos da franquia da Games Workshop, deixando claro para todos os consumidores que preconceito não tem lugar na comunidade. Algumas mudanças no folclore de 40k também seriam úteis; seria bom ter mais diversidade étnica nos modelos do jogo, ele diz, e devia ficar bem claro que o Imperium of Man não são os “mocinhos”.

“Eles deveriam trazer a sátira de volta pro jogo”, ele disse. “Outra coisa que eles precisam parar de fazer é mostrar os Space Marines como heróis; as pessoas da alt-right acham que eles são guerreiros super-humanos Übermensch – a Games Workshop faz coisas ao redor disso; eles só precisam trazer isso de volta para o primeiro plano.”

Enquanto facções da alt-right na comunidade 40k continuarem existindo livremente, e a natureza de sátira do jogo moderno continuar desimportante, Warhammer é um problema. Mas podemos esperar que essa seja uma mudança na maré. Warhammer é popular há décadas, e merece continuar aberto para todos os tipos de fãs no futuro.

@bigpauliedoyle

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