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Entre em pânico no fundo do oceano em ‘Narcosis'

Preso debaixo d’água, sua única opção é continuar andando e esperar que dê tudo certo.

Não tenho fobias muito graves (eu acho), mas tem umas paradas que me deixam um pouco nervoso: aranhas, sentar na beirada de um prédio e ficar confinado num mesmo espaço por muito tempo. Narcosis pega pesado nesse último medo.

Depois de sobreviver a um terremoto em uma estação subaquática, os jogadores devem fugir do lugar e entrar na escuridão do fundo do mar até conseguir encontrar um jeito de voltar pra superfície. Apesar de faltar um acabamento de vez em quando, Narcosis é um jogo brutal e assustador.

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"Será que eu me sinto melhor sabendo o quanto as coisas estão péssimas agora?", reflete o narrador do jogo, que conta a história com um distanciamento misterioso sobre os acontecimentos que se passam. "A roupa de mergulho te isola do que você precisa ter medo, mas o medo em si está lá dentro com você… e ele cresce. Então, é verdade, talvez você esteja sequinho e seguro, mas por dentro você está se afogando. É claro que cometi alguns erros, mas eu perdi a cabeça? Não. Nunca."

Narcosis é diferente de Dead Space. Apesar de também ser um engenheiro mecânico, não é como se de repente você se transformasse num baita herói. O oceano nunca deixa de ser carrasco e o melhor que você pode fazer é dar um jeito de encontrar um caminho e esperar que dê tudo certo. O mundo a sua volta é opressivo, você nunca sabe completamente onde está ou do que deveria ter medo. Narcosis brinca com a ideia de que o personagem vai aos poucos perdendo a sanidade por conta da falta de oxigênio, mas nunca fica muito claro se aquilo as alucinações são sobrenaturais ou apenas consequência do pânico.

É difícil de diagnosticar as alucinações de correntes do medo. Não rolou um evento traumático que explique por que ver uma tarântula, com todas aquelas pernas e bilhões de olhos, fazem com que eu fique arrepiado de pavor. Não sei por que só de imaginar que estou sendo preso dentro dum caixão faz com que eu comece a suar frio. E não tenho ideia por que tento confrontar todos esses medos através de jogos de terror. Talvez seja a ideia de explorar esse pânico todo em segurança. Ou talvez o vício de se sentir muito vivo quando jogo?

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Boa parte de Narcosis se passa em isolamento total, enquanto você sai dos escombros da estação e, o tempo todo, descobre os restos dos seus colegas de confinamento oceânico. Alguns tentaram se esconder nos dutos de ventilação, provavelmente quando as ondas causadas pelo terremoto chegaram. Outros tentaram colocar a roupa de mergulho, só pra morrerem afogados porque não conseguiram colocar o capacete a tempo. Narcosis brilha nos momentos em que te deixa sozinho enquanto o mundo a sua volta dá a letra. Com a destruição ao seu redor, só a ideia de que você está encalhado no fundo do mar sozinho, até que a sua roupa pare de funcionar, já é o bastante pra sua imaginação correr solta pro lado errado.

Pra mim, um dos piores momentos do jogo foi quando encontrei malditas aranhas do mar. Eu achava que Narcosis estava me sacaneando com um medo pessoal, mas dois? Aí é cruel. Quase desisti nessa parte.

Aaaaaaaah, que raiva, aranhas do mar – Imagem: Honor Code

Mesmo assim, o jogo acaba se intrometendo demais, apostando em clichês pra amplificar a tensão. Um dos sustos mais eficazes do jogo, quando uma criatura do mar pula no seu rosto e bloqueia toda a visão do seu capacete, me deixou cagando de pavor enquanto estava com o headset de realidade virtual. Mas o mesmo susto fica muito chato depois da 10ª vez. Pior ainda, a única forma de evitar que essa situação role é tentar esfaquear a criatura aleatoriamente, um ação que é mais frustração do que alívio.

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Assim como algumas partes de plataforma, entre pulos desajeitados, e a inteligência artificial confusa dos inimigos, que não se decidem pra onde ir, Narcosis nem sempre cumpre o que promete, prejudicando justamente os momentos em que o jogo manda bem.

Imagens: Honor Code

Vale a pena passar por esses momentos chatos em troca de uma experiência aterrorizante no fundo do oceano. No mínimo, Narcosis era tão desconfortável que eu não conseguia jogar por mais de 30 minutos numa sentada só. Jogava um pouco de manhã, antes de começar a trabalhar, mas porque eu estava com o aparelho de VR no rosto, pouco importava se o sol estava nascendo lá fora.

Na real, você nem precisa jogar Narcosis em realidade virtual, mas é altamente recomendável que você o faça – e lembre de desligar a opção de movimento padrão, que vira o personagem quando você mesmo move a cabeça. É melhor confiar no controle nesse caso. A sensação de ficar preso em uma roupa completamente fechada faz com que seja ainda pior (ou melhor?) usar um headset preso em volta da sua cabeça.

Dá pra terminar Narcosis em algumas horas, mas pra falar a verdade, talvez seja melhor assim. O jogo não tenta se arrastar por muito tempo, e lá pro fim, eu só queria sair daquele jogo tanto quanto o personagem queria sair da água.

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