

Rui Tendinha: O Ver e Fazer Filmes é uma maratona, são putos a fazer filmes de manhã à noite, que têm de estar prontos num curto espaço de tempo. É um jogo com muitas regras. Os putos tiveram um tempo para escrever o guião, mais um pouco de tempo para gravar e outro para poderem editar. É um festival que já existe no Brasil. Não estamos a inventar nada. Estamos, a área de cinema da CEC 2012, a acolher o festival — que é organizado de dois em dois anos em outras paragens — cá em Guimarães. Trabalhamos com as regras deles e há um brasileiro a controlar tudo. São três curtas e o pessoal está quase a arrancar olhos. Há uma grande rivalidade, principalmente entre a Universidade Católica e a Universidade do Minho. Mas as regras são iguais para todos e, no fim, há prémios. Prémios? Os Afonsos de Ouro?
O melhor de tudo são os prémios. São umas estatuetas que se enfiam na cabeça, feitas pelo Instituto do Design [de Guimarães]. E a fundação brasileira, que co-produz o festival, oferece viagens ao Brasil aos vencedores, para se mostrar o filme num festival luso-brasileiro chamado CINEPORT. Há várias categorias — melhor argumento, melhor produção, actor, actriz. Quem arrecadar mais prémios, vai ao Brasil. Há um mote comum entre estas produções?
Guimarães não tem muitas lendas. Não há o lobisomem de Pivedém, ou o fantasma das Taipas. A ideia é pegar nos mitos e desconstruí-los. É o tema comum entre os filmes. E qual é o teu papel no meio desta gincana cinematográfica?
Estou a coordenar as produções das três equipas — Universidade de Minas Gerais, a Católica e a Universidade do Minho — e estou também com a parte do "ver", que tem de ter um quê de pedagógico, uma vertente de descoberta do cinema. Para a maior parte deste pessoal é a primeira vez que está a trabalhar mesmo a sério em cinema. Estão “fora” e têm de se desenrascar. Vêm sem professores… sou o mau da fita. Sou o vilão, o que diz não. Foi uma epopeia montar tudo isto. Há muito pormenor logístico. Juntar isto a tudo o resto que andamos a fazer, nomeadamente à estreia mundial do filme Centro Histórico — de Pedro Costa, Oliveira, Aki Kaurismäki e Victor Erice —, no Festival de Roma, que acontecerá em breve e no qual estamos super concentrados. É uma altura na área de cinema da CEC em que estamos absorvidos em mil coisas. Há muita coisa a acontecer. Está tudo a acontecer, na verdade. A selecção das três equipas foi feita por quem?
Nós fazemos o convite às universidades e elas têm de se amanhar. Têm de ser equipas multifacetadas. Em coisas tão simples como usar música para o filme, tens de ter em atenção que não podes usar uma música dos Rolling Stones, por causa dos direitos, por isso há elementos a compor a banda sonora original, por exemplo. Está tudo com um ar cansado. Lá se vai a ideia de que o cinema é uma cena pausada.
Com este processo percebem como é difícil produzir um filme. Levam com a chuva e com uma série de dificuldades. Quem filma à noite leva com bêbedos e os putos chegaram a ser roubados nas filmagens — uma perche. Evito estar ao pé deles, para não me estarem sempre a pedir coisas, para que sejam autónomos, até porque tenho um budget muito controlado. Temos uma base, no Hostel Vimaranense, e ali criou-se a base de guerrilha. E aqui nota-se que a cidade acolhe muito bem toda esta miudagem. São quatro dias de rodagem. Dois dias de montagem. É uma produção expresso. É usar as obstruções, para criar filmes. Cinema de guerrilha. A melhor cena é que podem trabalhar com actores profissionais. Quem são as estrelas destas produções? Malta conhecida?
Pensámos usar pessoal da Globo, mas o melhor é usar a matéria-prima de cá. Quisemos usar o novo curso de teatro da Universidade do Minho. Os actores foram muito disponíveis e trabalharam de graça, seguindo o nosso plano de gravação, como, por exemplo, o Valdemar Santos e a Diana Coelho. O Marco Barbosa foi o preparador de actores. Por falar em profissionais: há cenas de orgias aí pelo meio.
Sim. Havia uma cena que era uma orgia e escolheram a minha casa cá em Guimarães. Nem sei bem porquê. Não sei como vai correr o resultado final, mas tem ar de ficar meio feliniano. Existe algum risco de não haver filmes hoje?
Sim, claro. Estamos a trabalhar em contra-relógio, a dar as condições para trabalharem, mas já sabes que é um risco. Só logo vamos saber. Se tudo correr como esperado, a escola brasileira Ormeo Teatro Dança, de Minas Gerais, apresenta MI(n)TO. A Universidade do Minho preparou um thriller chamado A Escolha, enquanto a Universidade Católica apresentará Até Amanhã. “E o vencedor é…”