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cenas

Salazar é a tua mãe

Não estamos na tanga, a tua mãe é mesmo um ditador.

Não vale a pena estar a bater no ceguinho sobre como o modo de vida ocidental depende da escravatura e abuso de outros povos. Já demasiado foi dito sobre essa situação e continua a haver a mesma passividade de sempre nos consumidores — vulgo, votantes. Mas há momentos que convidam à reflexão. Um programador americano subcontratou programadores chineses para fazerem o seu trabalho por apenas uma fracção do seu salário. Tem muita piada e, pelo padrão de desenrascanço português, este tipo tem a classificação de “Armando Vara” (no mínimo). Mas aqui já estamos a atingir níveis satíricos de perfídia. O imperialismo já não é um exclusivo de nações ou multinacionais, agora também pode ser conduzido a nível individual. Desengane-se quem ainda acreditava nesse mundo de fantasia onde os maus da fita eram corporações monolíticas ou lobbies obscuros a mexer os cordelinhos dos governos dos países desenvolvidos. A verdade é que a merda está igualmente distribuída por toda a raça e todos temos o mesmo potencial para ditadores. Só nos falta a oportunidade. Ora pensem lá na última vez que tiveram uma discussão com alguém — pode ser aquela do livre mal assinalado ou a da falácia inerente da moeda única — algum de vocês cedeu nalgum ponto? Chegaram a encontrar algum terreno em comum? Ou, simplesmente, passaram um par de horas a emborcar minis e a degradar a qualidade da retórica ao ponto de acabarem a argumentar os méritos da mãe de cada um no mercado sexual freelance? Nem precisam de responder: são humanos, claro que ao fim ninguém aprendeu nada com a vossa conversa. Haverá excepções? Afinal, todos conhecemos gente que até se voluntaria aos fins-de-semana numa caridadezinha qualquer. Há o vizinho que vos leva o lixo à rua se vocês estiverem doentes. E toda a gente tem um amigo que apesar de saber que o Django morre no fim do filme, não conta a ninguém. Pois bem: os voluntários roubam rins aos sem-abrigo, o vizinho curte ouvir-vos a foder e o tal amigo não vos avisou que o último filme do Tarantino era merda porque queria que vocês também perdessem o vosso tempo. Ou talvez não, mas o importante é isto: se não vêm o lado cabrão de uma pessoa, é porque ainda não a conhecem verdadeiramente. Tudo isto pode parecer extremamente azedo, mas na verdade é absolutamente o oposto. Libertem-se do peso de “valores” ou “ideais”. Somos todos uns animais, vamos relaxar e curtir isso. Limpe-se o bom nome de políticos, polícias e generais. Fizeram merda porque podiam, se vocês pudessem também a tinham feito. Amem-se uns aos outros, como as bestas egoístas que são.