Fui procurar uma loja de discos em Cuba e acabei num ritual de Santeria

Com poucos toca-discos funcionando em Havana, os cubanos ouvem música em CDs ou pen-drives, enquanto vinis rareiam sendo vendidos por uma ninharia.
15.7.16
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Em maio, visitei Cuba pela primeira vez para conferir a estreia do festival MANANA, em Santiago. Sabia que o país tinha uma história musical riquíssima e secular e testemunhei em primeira mão a sua total aderência à música e à tecnologia contemporâneas, apesar do acesso regular à internet ainda ser novidade para a maioria dos cubanos. Ainda assim, levando em conta esta incrível herança musical, teve algo que me surpreendeu na cena musical cubana: não havia uma única loja de discos à vista.

Claro, já tinha ouvido falar da Tienda Seriosha, em Havana, onde o Gilles Peterson foi garimpar discos em 2010. Também sabia que Cuba tinha um grande selo estatal chamado Egrem e que a maioria dos vinis que restavam eram exemplares velhos e surrados do seu catálogo. Santiago, me disse a internet, é uma espécie de cidade-fantasma do vinil — embora seja a segunda maior cidade do país. Por meio das pessoas que conheci lá, soube que isso em grande parte se devia ao fato de que havia muito poucos toca-discos funcionando no país, e que o custo do conserto ou da compra de um novo aparelho ultrapassa de longe as condições financeiras da maioria dos cubanos. Meu anfitrião do AirBnB, por exemplo, explicou que a maioria dos locais, quando querem escutar música, ainda ouvem CDs ou compram pen drives com faixas novas.

Ainda assim, me recusava a acreditar que voltaria da minha viagem a Cuba sem uma lembrança em disco de todos os novos sons incríveis que estava ouvindo por lá. Eu estava, afinal de contas, em um celeiro musical cheio de carros clássicos importados e encantadores prédios antigos — com certeza devia ter algumas caixas de discos esquecidas em algum lugar.

Alguns dias antes do festival começar, comecei a perguntar por aí. "Discos?" "Vinilos?" "Tienda de música?", eu gritava para os locais no meu espanhol tenebroso. Minha busca se provou infrutífera por dias, até eu esbarrar em dois músicos locais de rumba, Bargaro e Yessel, tomando uma cerveja e batendo papo em uma casa de shows durante uma festividade de Primeiro de Maio.

Graças ao meu companheiro de viagem, Brian, que falava espanhol, fiquei radiante em saber que não só os caras sabiam onde achar discos, mas iam nos levar pessoalmente para comprar alguns. A única condição é que tínhamos que acompanhá-los em uma pequena aventura, uma cerimônia de Santeria em algum lugar num conjunto habitacional público. Depois que disse a eles que era jornalista nos Estados Unidos, eles também pediram que tirássemos fotos do encontro. Achei que eles talvez quisessem mais publicidade para a sua religião, mas logo percebi que, como muitos cubanos, eles só queriam transmitir um pouco da sua cultura para visitantes curiosos como eu.

Pensei bem. Eu devia ir com dois estranhos até um conjunto habitacional público para testemunhar um ritual religioso do qual sabia muito pouco só para conseguir algumas bolachas inevitavelmente riscadas? Imaginei o que a minha mãe diria, então aceitei. Brian corajosamente se ofereceu para ir junto.

Dois dias depois, nos encontramos com Bargaro e Yessel na arborizada Plaza de Cespedes, no centro da cidade. Eles estavam nos esperando com uma pequena sacola cheia de discos — talvez uma demonstração de boa fé antes da nossa jornada iminente. Chamamos dois mototáxis, e no caminho para a casa de Yessel, fizemos uma parada em um mercado cheio de galinhas, galos e misteriosos remédios herbais para tirar fotos. Para além dos prédios da cidade, tivemos um vislumbre da paisagem montanhosa onde as tropas de Castro acamparam durante a Revolução Cubana, muitas décadas atrás.

Localizada em um dos históricos bairros artísticos de Santiago — segundo meus anfitriões, um celeiro de percussionistas de rumba e dançarinos de salsa — a casa de Yessel, de propriedade estatal e onde ele disse morar há apenas um mês, era bastante simples. Uma casinha para apenas uma pessoa, com teto de metal e um pequeno banheiro. Lá dentro, havia uma cama, um aquecedor de água elétrico, algumas cadeiras e um velho rádio. As paredes eram decoradas com ornamentos religiosos e fotos de casamento dele e da esposa, que, soube, estava trabalhando como enfermeira na Venezuela. Depois de nos deixar entrar, ele deu uma saída e voltou com uma grande pasta de discos que ele disse que era de uma mulher do bairro. Enquanto eu garimpava alguns discos empoeirados de salsa do Egrem e do seu agora extinto subselo Areito, algumas baratas pularam das capas. Depois de recuperar minha compostura, falei com Yessel e Bargaro sobre a vida em Cuba e por que parecia tão difícil achar discos na cidade.

Yessel.

Bargaro e Yessel aprenderam a tocar ainda na infância em Santiago, onde nasceram os três principais estilos de rumba — Guaguanco, Columbia e Yambu. Como muitos dos músicos cubanos que conheci na cidade, a dupla ganha a vida trabalhando em empregos aprovados pelo estado — no caso deles, dando aulas de percussão em uma casa de shows caribenha nos fins de semana — e ensinando rumba e salsa para os turistas, paralelamente. De vez em quando, também ajudam a mediar vendas de discos entre locais e estrangeiros — um bico comum em Santiago, segundo eles, e que pode ser parcialmente responsável pela relativa escassez de discos de vinil na ilha.

"Os locais sabem onde achar os discos para vendê-los", disse Bargaro. "Algumas pessoas mais velhas tinham toca-discos e tocavam os discos para nós quando éramos crianças, mas eles [os toca-discos] já se foram há tempos — a maioria [das pessoas] os jogou fora, ou eles simplesmente estragaram. É difícil comprá-los hoje; são muito caros." Ele explicou ainda que outros locais conhecidos tinham vendido seus discos para a biblioteca local, que os restaurou e eventualmente também os vendeu para os turistas.

Da esquerda para a direita: Yessel, Brian e Bargaro.

"Os discos estão mesmo em risco de extinção por aqui", Yessel acrescentou. "Não temos como conseguir discos novos, e os turistas continuam vindo e comprando [os que temos]. É difícil não vendê-los — é um bom jeito de ganhar dinheiro aqui, se você tem a chance."

Depois da nossa conversa, comprei 40 discos por um peso cada — me sentindo um pouco desonesto, sem dúvida, por contribuir diretamente para a extinção descrita por Yessel. Mas quando Bargaro saiu para pagar a dona dos discos e me disse que ela tinha literalmente pulado de alegria quando ele entregou o dinheiro a ela (para referência, o salário médio cubano é de 20 pesos, o que equivale a cerca de R$ 60), me senti um pouco melhor.

Depois da casa de Yessel, chamamos mais dois mototáxis. Entre tragadas de um cigarro sem filtro, Bargaro murmurou o endereço do nosso próximo destino no ouvido do motorista, que arrancou rapidamente em direção ao encontro de Santeria, fazendo com que eu me agarrasse desesperadamente às barras de metal do meu assento.

Eventualmente, paramos no que parecia ser um mar infinito de grandes cubos de concreto. Entrando no conjunto habitacional — uma extensa série de unidades numeradas simplesmente de um a nove, com paredes claras, marcadas às vezes com mensagens políticas — os caras nos levaram até uma barraca para comprar algumas cervejas geladas. Lá, me explicaram que algumas das seções mais novas do complexo estão sendo construídas pelo governo venezuelano, um velho aliado político e econômico de Cuba. Algumas crianças jogavam futebol no terreno, uma mistura de grama, sujeira e concreto, enquanto alguns velhos relaxavam na sombra.

Entramos em um dos prédios sem identificação, subimos quatro lances de escada e entramos em uma pequena quitinete, onde fomos recebidos por uma multidão de pessoas, muitas delas amigas de Yessel e Bargaro, e um sacerdote. Uma mulher mais velha, de cabelo grisalho — claramente a matriarca da casa — nos deu as boas-vindas com um beijo. Todo mundo estava reunido lá para uma cerimônia chamada cajon de muertos, uma prática comum da Santeria centrada no culto em frente ao igbodu, um santuário decorado com cortinas verdes, amarelas e brancas.

O santero, ou sacerdote, vestido casualmente, conduzia o ritual enquanto os participantes se revezavam, ajoelhando-se em frente ao altar. Quando chegou a minha vez, fui instruído por ele a esfregar um pouco de água de coco na minha testa (o que é conhecido como uma bênção da cabeça), tocar um pequeno sino e depois colocar alguns pesos em uma cesta como doação para a próxima cerimônia. À minha frente estava um enorme bolo glaceado, algumas garrafas fechadas de rum e biscoitos — todos eram oferendas para uma deidade cujo nome não consegui pescar. Uma mulher de vinte e poucos anos estava vestida de branco da cabeça aos pés, e quando perguntei aos outros o que estava acontecendo com ela, me explicaram que ela estava participando de um ritual chamado asiento, ou ascensão ao trono. Pelo que entendi, era essencialmente um batismo adulto.

Durante a cerimônia, três percussionistas usando roupas cerimoniais martelavam congas furiosamente, enquanto um homem mais jovem alegremente cantava músicas em chamada e resposta em lucumí, um dialeto da língua iorubá. Algumas pessoas faziam vídeos da dança com seus smartphones, enquanto cervejas geladas circulavam e a sala inteira pulava, aplaudia, ria e se divertia durante horas. De longe, o ritual poderia ser confundido com um churrasco.

As festividades só pararam uma vez, quando alguém aleatoriamente achou um chip de celular no chão — que é quase ouro em Cuba, devido à escassez de dados móveis — fazendo a sala inteira pausar momentaneamente a celebração. Depois disso, um jantar de carne de porco, arroz, legumes e um macarrão frio com carne de porco e molho branco foi servido. Bargaro e Yessel nos apresentaram a muitos dos seus amigos — também músicos de rumba. Mesmo sendo dois estranhos americanos, nos sentimos totalmente acolhidos.

O sol começou a se pôr, e Brian e eu decidimos que era hora de voltar para casa. Nos despedimos de Bargaro e Yessel, que iríamos ver tocar dois dias depois, no primeiro dia do MANANA, e chamamos dois mototáxis para voltar para o nosso AirBnB.

Passeando na traseira daquela moto bamba — com minha pasta de discos velhos e empoeirados enfiada na mochila — refleti sobre as experiências das últimas 12 horas. Qualquer colecionador de vinis vai te dizer que o formato é extremamente exaustivo — seja causando um rombo na sua conta bancária, seja acabando com as suas costas de carregar uma bolsa cheia de vinis para todo lugar. Perambular por uma escaldante cidade cubana para comprar discos certamente não foi exceção à regra. Mas, como qualquer garimpeiro experiente também vai atestar, a beleza de colecionar vinis está na busca e nas histórias e personalidades que você encontra ao longo do caminho. Durante uma recente apresentação minha como DJ no Brooklyn, quando finalmente toquei um dos meus achados cubanos — um disco de salsa bacanudo dos Los Van Van — para uma pista animada, alguém veio até mim e perguntou: "Onde você conseguiu esse, cara?". Não pude deixar de rir.

Agradecimentos especiais a Brian Merlano por suas traduções

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Tradução: Fernanda Botta

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