O futuro do trabalho: snacks à borla, benefícios zero e procurar emprego na cama

Um estudo sobre as condições de trabalho dos jovens nos Estados Unidos é o espelho da situação a nível mundial. Os millennials são mais pobres que os seus pais e o cenário para o futuro não é animador.
28.3.16
Foto principal via Getty

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Nos último tempos temos sido bombardeados com artigos sobre millennials que retratam a geração como um bando de gente que um dia, de repente, saiu dos bosques montada em hoverboards, a mandar snapchats a torto e a direito e a aterrorizar os mais velhos com emojis. Um texto publicado recentemente no New York Times, que basicamente era sobre o site de notícias Mic e um gajo que mentiu sobre a morte de um amigo, de forma a poder construir uma casa numa árvore, resumiu assim os estereótipos de toda uma geração: "um sentido de posse, uma tendência para partilhar em excesso nas redes sociais, e uma franqueza a roçar a insubordinação". Na verdade, já ouvimos estas tretas todas sobre o nosso idealismo e egocentrismo, sobre a nossa confiança excessiva e imerecida.

Em todas as estórias como esta, que tentam retratar a geração - e por várias -, os millennials são algo que está a acontecer ao Mundo, em vez de ser exactamente o contrário. Aparecemos perante os adultos reais, andamos por ali aos tropeções, a exigir galardões e justiça social, antes de falharmos redondamente devido à nossa própria incompetência. Somos os vizinhos esquisitos na novela da vida, chatos ambulantes, quase demasiado novos para beber copos.

Suponho que, pelo menos, tenhamos o direito, ou o que quer que seja, de olharmos à nossa volta e vermos a horrível situação económica que os millennials herdaram. É difícil ignorar que as nossas vidas profissionais são, em média, bem piores que as dos nossos antecessores. Caso em questão: um estudo sobre empregos e trabalho, divulgado recentemente, mostra exactamente o quão negra é a situação.

Foi encomendado pelo site de recrutamento Jobvite [diz respeito aos Estados Unidos da América, mas é perfeitamente transportável para a realidade portuguesa e europeia em geral], pelo que está cheio de floreados e de optimismo, mas o que é certo é que as conclusões mostram que, actualmente, os benefícios e os direitos dos trabalhadores são escassos, as pessoas estão insatisfeitas com os seus empregos e os não-empregos, do género biscates, ligados a empresas como a Uber, ou o Airbnb, são cada vez mais comuns.

As estatísticas mais sombrias foram realçadas pelo Quartz: apenas 29 por cento dos trabalhadores com menos de 30 anos conseguem seguro de saúde, enquanto 35 por cento o que recebem são refeições/snacks grátis, o que não pode considerar-se como um benefício real, a não ser que as empresas de cobranças de dívidas por falta de pagamento dos empréstimos contraídos para pagar propinas na universidade, comecem a aceitar pacotes de batatas fritas para abater. enquanto isso, 56 por cento de todos os trabalhadores com filhos nunca usufruíram da licença de maternidade, ou paternidade. E dos que usufruíram, 87 por cento tiraram menos de 12 semanas.

Mais notícias "engraçadas", cortesia de um comunicado à imprensa revelado na passada semana sobre o estudo: "Biscates ocasionais em empresas como a Uber, ou o Airbnb fazem parte de uma nova normalidade: cerca de um quinto de todos os que estão à procura de emprego, já trabalharam de forma similar e desses, 56 por cento revelam que tem sido a sua principal fonte de rendimentos". Esses "empregos", claro, não são realmente empregos, de acordo com a Uber e outras empresas que os criam; Para além disso, são obviamente mal pagos, não têm benefícios e,por vezes, são até ilegais.

"E é preciso não esquecer que esta fornada de humanos é a mesma que, em criança, viu as Torres Gémeas colapsarem e passou os anos seguintes, os da sua formação, a assistir a adultos levarem a cabo guerras milionárias e sem sentido no Médio Oriente".

Mas, para a frente é que é o caminho! "As pessoas estão sempre à procura de emprego. A toda a hora e em qualquer parte", avisa o mesmo comunicado de imprensa. "52 por cento, já procuraram novas oportunidades enquanto estavam deitados na cama e 37 por cento fizeram-no a partir do escritório onde trabalhavam na altura". Se já entraste num site de empregos no teu telefone enquanto estavas na cama, provavelmente não usarias um ponto de exclamação ao descreveres a experiência - normalmente envolve acordar extremamente tarde, ignorar umas quantas mensagens um bocado stressadas dos teus pais, esperar que os teus colegas de casa saiam para irem trabalhar e depois arrastares-te para a sala e começares a pensar se ainda tens dinheiro no cartão de crédito para encomendar um almocinho em modo entrega em casa. Indiano ia bem.

O estudo da Jobvite nem sequer tenta abordar os números dos rendimentos, mas de nada nos vale que saibamos jia há algum tempo que os jovens de hoje são mais pobres que os das gerações anteriores e que são frequentemente paralisados pelas dívidas e problemas adjacentes que herdaram de décadas de salários estagnados e de uma crise financeira global que sobre eles se abateu, precisamente no momento em que era suposto tornarem-se adultos. E é preciso não esquecer que esta fornada de humanos é a mesma que, em criança, viu as Torres Gémeas colapsarem e passou os anos seguintes, os da sua formação, a assistir a adultos levarem a cabo guerras milionárias e sem sentido no Médio Oriente, a aniquilarem orçamentos atrás de orçamentos e a aperceberem-se com anos de atraso, que toda a economia foi construída sobre um monte de mentiras.

Não vais encontrar uma imagem precisa de toda esta situação num estudo financiado por um site de recrutamento. Ainda assim, nas conclusões da investigação do Jobvite há alguns sinais que alertam para tudo isto, principalmente quando os entrevistados são confrontados com questões políticas. Os apoiantes de Bernie Sanders [pré-candidato Democrata à presidência dos Estados Unidos] são, na sua maioria mulheres da geração millennial e são, também, as que mais provavelmente andarão a saltar de emprego em emprego e menos satisfeitas com o que fazem - por outra palavras, são jovens que, naturalmente, gravitam em torno do candidato que melhor lhes explicou o que já sabiam: que as coisas estão bastante fodidas e que, resolvê-las, exige um tremendo esforço.