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O sangue apavora-me e tenho medo de agulhas

Desde fora pode ser visto como algo ridículo, cómico e até patético. Mas desde dentro é uma luta titânica, um grande esforço para combater esse medo com o máximo de dignidade possível.

Por David Broc
25 Maio 2015, 7:44am

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No seu delirante, demolidor e viciante ensaio "My Age of Anxiety", um dos melhores livros de 2014, o escritor e jornalista norte americano Scott Stossel expõe a interminável lista de fobias, pânicos, medos e contrariedades que afectam a sua vida e a convertem numa fonte de constante ansiedade. No fundo é um relato aterrador, mas informativo, divertido, irónico e sedutor na sua forma, com o qual uma grande parte da população se vai sentir identificada em alguma das suas mais de 500 páginas. Na era moderna é difícil conhecer alguém que não tenha algum tipo de fobia, que não tenha sofrido ansiedade por algum motivo ou que o nervosismo e a inquietação não o tenham controlado sem explicação racional, algum momento da sua vida.

No meu caso, a identificação com o que relata Stossel é mais pronunciada do que seria aconselhável, por isso surpreendeu-me bastante quando num dos primeiros capítulos do livro, li o seguinte: "Antes de começar a documentar-me não sabia da existência da fobia de sangue - uma doença que faz com que 4,5 por cento da população que a sofre, segundo estimativas, sinta uma ansiedade extrema e, às vezes, desmaie (por uma queda de tensão) quando lhes dão uma injecção ou vêem sangue - e, então podiam dar-me injecções e tirar-me sangue sem que eu me alterasse. Agora, ao informar-me sobre a fisiologia que causa este fenómeno, fiquei com fobia a desmaiar-me neste tipo de situações e, pelo poder de sugestão, já estive a ponto de o fazer várias vezes. "

Fiquei surpreendido e estranhei que um um homem totalmente dominado pelas fobias, um experto nesta matéria, não soubesse da existência da hematofobia, pois trata-se de uma das mais conhecidas e populares do planeta. Eu sofro desta fobia desde que me lembro, desde de criança, e 30 anos depois ainda não a consegui controlar, antes pelo contrário: actualmente é mais pronunciada que antes e a forma de manifestar-se é muito mais perigosa à medida que passam os anos e fico mais velho. O problema é quando uma fobia pode gerar outra nova: o pânico que tenho ao sangue acabou por contaminar a imagem que tinha das agulhas, numa relação causa efeito facilmente atribuída às más experiências com extracções de sangue. A aicmofobia, ou pânico a agulhas, está muito menos presente na minha vida, se bem que ao aparecer qualquer tipo de injecção num filme, serie ou programa de televisão pode acabar por ser um problema, mas aumenta quando não tenho outro remédio e tenho de fazer análises ao sangue, episódio que vou contar já a seguir e que constitui a experiência quotidiana mais aterradora pela qual sou obrigado a passar.

Não sei qual é a definição médica exacta de hematofobia, e prefiro não saber, para poupar-me de mais ansiedades. A minha definição sim, ando com ela para todos os lados e é a que me vale: a hematofobia é uma sensação de pânico, terror, ansiedade e fraqueza física e psicológica que me ataca e maltrata cada vez que estabeleço contacto visual ou mental com sangue. É curioso porque no reino da ficção manifesta-se de maneira mais intensa a aicmofobia que a hematologia, e enquanto isto permite-me ver filmes de terror ou acção, nem sempre funciona: o primeiro episódio do The Knick, por exemplo, deixou-me absolutamente perplexo no sofá. O drama, no entanto, floresce quando as situações são reais e tangíveis: desde um pequeno corte feito com a faca de cortar o pão, às feridas provocadas por uma queda de bicicleta; desde uma história nas notícias sobre a época das vacinas, a passar à frente do autocarro para doadores de sangue; desde uma conversa sobre menstruações, às horas e aos dias antes de ir fazer uma análise ao sangue. Na maior parte das ocasiões nem sequer faz falta estabelecer contacto visual; mencioná-lo ou somente chegar a intuir a sua presença provoca-me esta catarse.

A hematofobia tem consequências psicológicas evidentes que tomam forma através de medos difíceis de superar que não restringem o teu dia-a-dia mas que o condicionam, e de que maneira, em momentos específicos ou determinados. Mas também tem impacto físico bastante claro que, em última análise, pode ser considerada mais preocupante: só as pessoas que sofrem do mesmo problema vão saber reconhecer a sensação de preguiça intensa que invade o momento, as mão dormentes, o desaparecimento total de toda a força ou tensão do teu organismo, a pele gelada, os suores frios, tonturas exageradas, a necessidade urgente de nos sentarmos se não queremos cair para o lado. É como nos sentirmos uma merda e não conseguimos ter a capacidade de dar a volta a essa sensação. Já a senti ao ver sangue - sem ir mais longe, há apenas umas semanas, com um pequeno corte no dedo -, mas também sem o ver, só de imaginá-lo - ou como ouvir uma história, durante um jantar de família, de alguém que levou uma pedrada na cabeça no meio de um concerto que me obriga a sair porta fora e a deitar-me no chão como um cão com calor. O poder da fobia é a sua capacidade de sugestão, a sua tremenda capacidade para converter uma simples história num início de um desmaio, o dom de transformar um pequeno corte num dedo na mãe de todas as tragédias.

E se falamos de tragédias no contexto de um hematofóbico e aicmofóbico, não existe maior cataclismo, não existe maior sinal da chegada do Apocalipse que as quatro palavras mágicas: "Vais ter de fazer análises ao sangue". Palavras pronunciadas pelo teu médico de família, mas como se fossem pronunciadas pelo diabo: aí mesmo, no seu consultório, quando se confirmam as suspeitas e o medo com os quais tinhas entrado, quanto te apercebes de não vais poder fugir, quando é sim, ou sim, quando já tens data marcada na agenda, é quando tudo começa, quando a maquinaria se activa, quando o comboio de alta velocidade chamado ansiedade fecha as portas, soa o sinal e arranca: sem maquinista e somente com um passageiro dentro. Tu. Sais da consulta desfeito, alterado, porque sabes que a cabeça já está a pensar no fatídico dia, por mais tempo que falte, e por muito que tentes mentalizar-te e convencer-te de que desta vez será diferente, estás plenamente consciente do sofrimento e do pânico que são tão difíceis de controlar e que te esperam.

Desde fora pode ser visto como algo ridículo, cómico e até patético. Eu não os culpo. A mim também me iria parecer. Mas desde dentro é uma luta titânica, um grande esforço para combater esse medo com o máximo de dignidade possível. Nem sempre se consegue: há apenas um ano atrás saí apressadamente de uma farmácia, depois de me submeter a um teste de controlo da glicose e do colesterol, à qual não posso voltar porque tenho noção de ridículo. O mais deprimente de tudo é que nem era nem uma extração; simplesmente tinha de superar uma picada do aparelho usado pelo farmacêutico para fazer o teste. Embora me garantissem que este teste não tinha nada a ver com uma análise, que nada me iria acontecer, ia com um certo respeito e medo, afinal de contas a batalha não é contra o que vês mas contra o que imaginas. E dizem-me sempre o mesmo, "tudo o que tens de fazer é não olhar". Olhe, minha senhora, o problema não é olhar ou não olhar; o problema está cá dentro, enraizado, é uma angústia que não pode ser liberada olhando para outro lado, porque mesmo às escuras, a cabeça não pára.

Aquele dia na farmácia aguentei a picada sem problemas, mas à medida que iam passado os segundos a tensão acumulada estalou e fez sair o fantasma da ansiedade, da fraqueza, das tonturas cósmicas. Saí do pequeno quarto para ir apanhar ar consciente de que ía desmaiar; cambaleando lá me consegui sentar na rua, mesmo à entrada, com uma das tonturas mais terríveis que sofri até hoje. Tive pena do pobre casal que desceu a rua e, atordoados com a imagem de um pobre diabo mais branco que um fantasma e meio desmaiado à porta de uma farmácia, mostraram interesse pelo meu estado. Aproveito esta oportunidade para agradecer-lhes a preocupação; naquela momento eu mal conseguia balbuciar.

É verdade que ao longo dos anos aprendes a minimizar as consequências: importante é o dia em que, em vez de ires adiando o dia D e a hora H, decides adiantar o máximo possível. Quanto menos angustiante seja a espera, quanto menos te maltrates, melhor. Tem de ser feito rapidamente. Geralmente já te apercebes de que a coisa não vai no bom caminho quando entras no laboratório, quando começas a sentir o cheiro característico. Não sei descrevê-lo mas sabem daquilo que estou a falar - A mistura de álcool, desinfectante, seringas e, como é óbvio, do sangue. Porque o sangue tem um cheiro, e muito forte, tipo ferro ou metal. O cheiro dos consultórios tem um papel decisivo, é como o sinal que activa todos os alarmes, o toque da corneta, a contagem decrescente do pelotão de fuzilamento, o polegar para baixo. Quando já inalaste a doce fragrância da derrota, do saber que mais uma vez não será um passeio militar, que mais uma vez vai haver espectáculo, assim que a tua pele começa a embranquecer e as tuas mãos parecem fiambre, é quando começa o ritual.

Primeiro avisas a enfermeira de que és propenso a tonturas, que tens fobia ao sangue e que é provável que tenha de presenciar uma cena. As cartas já estão em cima da mesa; é importante que saibam qual o pé coxo para que possam activar os mecanismos de ajuda. Seguinte acto, se à enfermeira não o considera necessário ao ver a tua cara de morto-vivo, é indispensável informá-la que para tirar sangue o melhor é que estejas deitado. "Mais vale prevenir do que remediar senhora enfermeira, assim se me dá alguma coisa já está tudo controlado". Terceiro: uma das coisa mais importantes de todo o processo é o algodão com álcool. Pode parecer uma parvoíce, um recurso banal, um efeito placebo antes da ansiedade, mas no meu caso não só funciona como é absolutamente fundamental para que eu possa sair o melhor possível deste ritual. Aquele momento de inalação profunda de álcool vai ser o mais parecido a estar drogado, mas os efeitos são parecidos aos provocados em qualquer viciado que vive nos bairros pobres: uma chapada para retirar-te do momento e do entorno, uma fuga, uma protecção importante para enfrentar a dura realidade. Quarto: como é óbvio, olhar para o lado contrário do braço que vão usar para tirar o sangue. E quinto: falar, falar e falar. Falar como se não houvesse amanhã, falar como se a tua vida dependesse de entabular uma conversa fluída durante uns segundos e te fizesse esquecer o momento para que possas superar a prova sem mais incidentes.

Em relação ao conceito mais ambicioso de felicidade todos pensamos mais ou menos o mesmo: segurança económica, sucesso profissional, liberdade de decisão e acção, a cara metade perfeita, uma saúde de ferro para a tua família e, já que estamos, que a tua equipa ganhe todos os títulos e os seus adversários caiam em desgraça. Uma vez que aceitamos a necessidade de não ter tantas pretensões, a felicidade passa por aqueles momentos que não estão no Decálogo nem nas regras. Pequenos ou grandes momentos que convertem um dia horrível num refúgio de paz e reconciliação com o nosso eu e com o mundo. No meu caso poderia enumerar muitos mas, neste preciso momento, e por razões óbvias, não me vem nenhum à cabeça: aquela coca-cola, com dois cubos de gelo e limão, e aquele croissant de chocolate - com chocolate a sério, tipo nutella - que como depois de tirar sangue. A recompensa. O prémio merecido depois de superar, uma vez mais, o pior dos meus medos.

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