Trabalhar como… Agente Imobiliário
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Sociedade

Trabalhar como… Agente Imobiliário

A profissão de agente imobiliário é infame. Há quem a tente dissimular com eufemismos como assessor, consultor ou anglicismos vários, mas o macaco não deixa de ser um macaco por estar de fato.
24.4.15

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

Existem profissões das quais podemos vangloriar-nos por serem socialmente bem vistas. Outras, como maquilhador de defuntos e outras coisas assim, suscitam menos curiosidade por parte de um interlocutor, mas, ainda assim, garantem conversas muito divertidas. Outras profissões, nem uma coisa nem outra: pessoal de limpeza, administrativo, empregada… Quando alguém me pergunta a que me dedico, tenho exactamente a mesma sensação de quando me perguntam de onde sou (sou de Valladolid): sinto sempre uma necessidade de justificar-me, de acrescentar um "mas" na resposta, de gritar "não é o que parece!".

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Na verdade, não vale a pena negar, a profissão de agente imobiliário é infame. Há quem a tente dissimular com eufemismos como assessor, consultor ou anglicismos vários, mas o macaco não deixa de ser um macaco por estar de fato. É certo que nem todas as agências e/ou agentes imobiliários são iguais, mas aqui estou eu para generalizar, porque assim é que eu gosto.

Tenho a certeza que a maior parte de vós, alguma vez na vida, já se passou da cabeça com o sector imobiliário, principalmente quando tiveeram de arrendar aquele apartamento e foram obrigados a pagar um dinheirão à agência só para se encontrarem connosco e fazermos uma visita guiada durante 10 minutos.


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Para justificar um pouco a minha profissão, tenho de dizer que nem tudo é culpa nossa. O problema deve-se, em grande parte, ao mercado, que é um pouco abstracto e, portanto, muito fácil de culpabilizar. Por exemplo, ponham-se no lugar do proprietário que quer arrendar o seu apartamento. Para levar a cabo esta operação, primeiro precisa de fazer uma avaliação, umas quantas fotografias, publicar um anúncio, fazer a gestão dos contactos, receber os interessados, negociar o preço, redigir um contrato… Para que é que vais fazer isto tudo se já existem as imobiliárias e, sobretudo, se esse serviço é pago pelo inquilino?

Com a venda é diferente, porque a carga de trabalho é muito maior e o agente imobiliário converte-se numa figura tão desprezível como necessária. O mais provável é que acabes por estreitar laços e por ter uma longa relação pessoal com o agente que vai vender o teu apartamento. Por isso, começa a procurar referências, usa a tua intuição e não te deixes enganar pelo primeiro agente a afirmar o seu amor por ti e a dizer-te que o teu apartamento vale um dinheirão.

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Até entrar na agência, os meus anteriores trabalhos não exigiam um contacto tão próximo com o cliente, o que fez com que andasse um pouco perdido durante as primeiras semanas. Por exemplo, e aproveitando para emular Bob Dylan e a Blowin' in the wind: quantas vezes temos de falar ao telefone com alguém para saber se lhe damos dois beijos quando nos encontramos pela primeira vez? (Falo de beijar mulheres, é claro, não quero quebrar rituais de etiqueta heterocentristas e gerar mais constrangimentos).

A minha política inicial era a de ser generoso afectivamente. Muitas vezes isso serviu para romper o gelo inicial criado pelas formalidades e trazer um pouco mais de confiança à relação. Mas, cedo comecei a aperceber-me que esta atitude causava uma certa estranheza em algumas raparigas, então decidi renunciar aos dois beijos no primeiro encontro antes de que me fizessem o movimento da cobra.

Inicialmente estive uns meses a vender e a arrendar, mas, como andava de transporte público e o ritmo das visitas era intenso, comecei a dedicar-me somente às vendas. A grande dificuldade das vendas é fazer o comprador entender que, provavelmente, tem expectativas demasiado altas, e os vendedores de que o seu apartamento não vale tanto como eles querem crer. Porque o nosso filho é sempre o mais bonito, o nosso país é onde melhor se come e o nosso deus é o verdadeiro. Obviamente, as coisas não são bem assim.

"Apartamento como novo", ou "pronto para habitar" são frases muito utilizadas nos anúncios de apartamentos, onde depois tens de entrar com uma equipa de demolição, uma empresa de desinfestação e um exorcista. Portanto, lanço desde aqui um apelo à reconciliação de ambas as partes: caro vendedor, não tenhas a mania. O teu apartamento não é a jóia do bairro e os crucifixos nas paredes não só afugentam os vampiros, como também os clientes. E tu, caro comprador, não procures qualidade por dois tostões, faz um favor a ti próprio e vê bem os anúncios, se te apetece deixar-me pendurado tem ao menos a cortesia de inventar uma desculpa por sms.

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E a ti, que lês estas linhas impelido pela curiosidade que te provoca esta nobre profissão, nunca se sabe se um dia terás de procurar refúgio no regaço do sector imobiliário, por isso preparei uma série de normas que te vão ajudar a abrir caminho com facilidade por esta floresta de tijolos e hipotecas.

Tem cuidado com a tua imagem

Não deixes que a tua forma de vestir mostre o verdadeiro crápula que se esconde por detrás do agente imobiliário. Um fato escuro, mas um pouco brilhante e uns sapatos bem engraxados vão ajudar a dissimular a tua falta de conhecimentos. Ao fim e ao cabo, não é necessário ter uma licenciatura para vender apartamentos, basta que o teu aspecto e a tua atitude demonstrem ao cliente que tu é que sabes.

Fuma muito

Quanto mais melhor; ele vai notar na tua voz. Espera sempre pelo cliente com um cigarro numa mão e um capacete na outra. Antes de entrarem não te esqueças de encher bem os pulmões com uma última passa, o melhor é acompanhar este gesto com um olhar tipo Clint Eastwood. O uso de outras substâncias, como o álcool ou cocaína, também é bem-vindo.

Podes chegar tarde, mas nunca peças desculpa

Assumir responsabilidades é coisa de falhados. Nem sequer inventes uma desculpa, é melhor dares uma de distraído e esperar que o cliente nem se tenha apercebido que já passou da hora.

O cliente nunca tem razão

Às vezes tens de mostrar apartamentos a clientes com profissões que nos podem complicar a vida: arquitectos, advogados e até outros agentes imobiliários. Mesmo que o cliente corresponda a um destes perfis, ele não faz ideia do que está a fazer. Ninguém melhor do que tu para saber o quanto é fácil reforçar uma viga ou que o preço do teu apartamento está em vantagem em relação aos da concorrência, nem sequer aquele cliente que leva meses a fio com a cabeça enfiada em todos os anúncios da internet.

Abusa de tópicos para descrever o anúncio

Espaçoso, luminoso, bem situado, ideal para investidores, possibilidades de reforma. Tanto faz, podes estar a vender um palácio em Belém, ou uma cave em Chelas [alterámos as localidades por uma questão de proximidade, claro. A bem da narrativa], as descrições genéricas são um recurso prático. Faz copy paste de outros anúncios que ninguém vai notar a diferença.

A verdade está sobrevalorizada

Não te coíbas quando chegar o momento de responder a coisas que não sabes. E, se tens informação relevante, mas não visível (bicho da madeira nas vigas, vizinhos malucos…), saber omitir e dissimular será a tua melhor arma.

Capta outros apartamentos que estejam à venda, custe o que custar

Como referido no ponto anterior, a mentira será a tua principal aliada para atingir este fim, mas não subestimes outros recursos, como a ameaça ou a extorsão. Ter um novo apartamento para vender, vale mais que a vida da tua própria mãe.

Joga ao faz de conta

Aprende com os ilusionistas a sua arte. Onde disse terraço, digo varanda; onde disse duplex, digo T0 com pequeno sótão; onde disse quarenta metros quadrados, digo vinte e oito. Ri-te na cara do conceito de publicidade enganosa e não deixes que a coerência e a honestidade te façam perder uma boa oportunidade de negócio.

Difama e vencerás

As comparações são odiosas, mas são inevitáveis dentro deste negócio. Tem sempre prontas uma série de respostas e tem sempre à mão a pistola para as descarregar assim que apareça qualquer sinal de comparação. Por exemplo, um comprador diz que viu um apartamento melhor e mais barato umas ruas mais abaixo. A tua resposta tem de ser rápida e estruturada da seguinte maneira: "Pois, mas essa rua…". Se um cliente que quer vender o seu apartamento está a pensar falar com outra agência que faz o mesmo e por mais barato, nem penses duas vezes, dispara o "Pois, mas essa agência…". O que depois acrescentes já é problema teu, deixa a imaginação voar. O único requisito é que seja algo negativo, quanto pior… Melhor!

Todas as pessoas são possíveis rivais

A concorrência dentro deste sector é um conceito omnipresente. O teu grande rival são as outras agências, mas não subestimes o poder de te chateares com os teus próprios companheiros. O inimigo está onde menos esperas: nos teus clientes, no porteiro do prédio, no vendedor da esquina, no sorriso de uma criança, no orvalho madrugador… Nunca deves baixar a guarda, nem mesmo na intimidade da casa-de-banho, nunca se sabe o que esse cabrão que mija ao teu lado pode estar a tramar.

Se seguires estes conselhos chegarás rapidamente a ser o tal agente imobiliário que ninguém quer encontrar. Pode ser que, com isto, ganhes muito dinheiro, provavelmente bastante mais do que se o fizesses de uma forma correcta. Assim, não deixes que a tua consciência se interponha e sê bem-vindo ao mundo dos agente imobiliários.

Podes seguir o Jaime, ou perguntar-lhe por apartamentos porreiros no seu Twitter.