Saúde

Como o Instagram se tornou um antro de fake news sobre alimentação saudável

E como isso está a ajudar a dar cabo da nossa saúde mental.

Por Marie Declercq
20 Setembro 2017, 2:32pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado para português europeu.

Até este ano o Instagram era uma das minhas redes sociais favoritas. Havia algo naquele mar de imagens aleatórias e vidas perfeitas que me atraía magneticamente. Demorei para o perceber, mas, aos poucos, o aplicação já seleccionava o tipo de coisas que mais prendia a minha atenção: fotos de mulheres magras – "perfeitas" na minha concepção - e tutoriais de comidas ultra calóricas, que levam quilos de açúcar e todas as cores do arco-íris. Comecei a sentir-me mal em abrir a rede social, mas, ao mesmo tempo, sentia uma agonia inexplicável se deixava de ver aquelas coisas.

De repente comecei a ver-me como aquelas pessoas que estão na foto do "antes": gorda, feia e desmerecedora de ser feliz. Já as mulheres lindas e magras eram a foto do "depois": lindas, populares e alegres. Que se lixe que cada corpo é diferente, eu queria ser magra como aquelas mulheres. Fiquei doente, obcecada e infeliz comigo mesma.


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O Instagram não é o principal culpado pelos meus problemas de auto-estima e insatisfação corporal, mas ajudou-me a materializar em imagens os meus desejos impossíveis. Mesmo sabendo que aquilo era plástico e que nem toda a gente vive uma vida linda fora da app, de alguma forma sentia que deveria ser assim. Mergulhada nessa infelicidade, comecei a reparar que outras mulheres, amigas ou não, reproduziam um discurso tóxico bastante parecido com o meu.

Miriam Bottam era uma dessas mulheres que provavelmente desejei ser. Até há pouco tempo, a jovem era uma blogger fitness com muitos seguidores, fãs e uma barriga lisinha. O que poucos sabiam é que Miriam estava num processo de recuperação de uma bulimia nervosa que a assolou durante anos. Nesse processo, começou a "malhar" diariamente, buscando a perfeição e o controlo do seu corpo através da alimentação saudável.

Miriam "trocou seis por meia dúzia", desenvolvendo ortorexia, outro tipo de transtorno alimentar que faz o portador ser obcecado por alimentação saudável e exercícios. A imagem de uma jovem saudável era tão fictícia como os filtros para tratares as tuas fotos. Estava longe de estar em dia com a sua saúde mental.

Ao telefone, Miriam conta como se apercebeu que ainda estava doente. "Postava a minha rotina fitness, mas escondia que era bulímica. Fui percebendo que aquilo não estava a levar-me a lugar nenhum, porque todos os meus problemas continuavam ali", explica.

No início de 2017, Bottam tomou uma medida drástica. Apagou o seu passado de blogger fitness e começou a fazer posts sobre aceitação do corpo e o perigo de acreditar em todas as dicas de saúde e alimentação de bloggers famosas. A resposta foi avassaladora e, em pouco tempo, ganhou ainda mais seguidores do que quando ostentava uma vida fitness. "Queria uma vida livre dessa obrigação e paranoia. Cada vez que me permitia comer um doce, se abria o Instagram e via um 'six-pack' sentia-me muito mal. Comecei a dar unfollow nesses perfis fitness".

Foi assim que encontrei Miriam, num post em que mostrava como são fabricadas as publicações de "antes & depois" nessas contas de alimentação e dietas.

Hoje, a influenciadora faz parte de uma comunidade do Instagram que promove a aceitação corporal e luta contra a glamourização de transtornos alimentares na rede social. Este tipo de conteúdo produzido por Miriam, paradoxalmente ocupa o espaço tóxico de dietas que prometem um emagrecimento rápido e corpos perfeitos. Custe o que custar.

Dicas sem filtro

São muitas dietas, série de exercícios e dicas milagrosas que prometem resultados rápidos e o fim da gordura localizada, ou de qualquer outro mal estético que esteja actualmente debaixo dos holofotes. Normalmente, o modo de comunicação destas coisas começa pelo hábito das influenciadoras fitness de publicarem as suas rotinas, refeições e conselhos sobre como conseguiram aquele corpo.

O problema é entender que nem tudo o que vemos e que resultou para essas pessoas é bom para a nossa saúde. E, no Instagram, esses conselhos chegam até nós sem nenhum tipo de filtro ou aconselhamento médico. É quase uma versão fake news da saúde e alimentação.

Por mais que Miriam e profissionais da saúde se dediquem a desmistificar as dietas absurdas e dicas de alimentação duvidosas, a influência e autoridade de influenciadores fitness ainda continuam a reinar. Embora muitos desses influenciadores não sejam formados ou se tenham dedicado a estudar nutrição ou Educação Física.

Recentemente, essa falta de credenciais das personalidades foi questionada e gerou um buzz em torno de Gabriela Pugliesi, uma das bloggers mais famosas do Brasil – conhecida também por aconselhar as seguidoras a autorizarem as amigas a publicarem nudes caso saiam da dieta. Em Fevereiro deste ano, Pugliesi foi o centro de outra polémica, mas desta vez policial. Ela e o marido foram denunciados por actuarem ilegalmente como profissionais de Educação Física, após um evento da Unilever onde ambos ministraram uma aula de exercícios. Cheguei a entrar em contacto com Pugliesi para discutir estas questões, mas a sua assessoria respondeu-me que ela "não vai participar".

Pugliesi é uma das maiores influenciadoras digitais do país, mas é só a ponta do iceberg de um universo na rede social onde o corpo perfeito fala mais alto do que estudos e formação na área de nutrição, medicina ou educação física. Estrelas como a ex-BBB Mayra Cardi, vendem programas de "malhação" e dieta sem um acompanhamento profissional, mas ganham credibilidade ao serem apadrinhadas por outras celebridades.

"Há muita gente a inspirar-se em pessoas com transtornos alimentares, que defendem a doença como estilo de vida e dizem-se conhecedoras de nutrição," conta Fernanda Pisciolaro, nutricionista comportamental e coordenadora da equipa de nutrição da AMBULIN, o programa de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas.

A nutricionista conta que há uma apropriação preocupante de termos e discursos que antes eram só restritos a blogs pró-anorexia ou pro-bulimia, por parte de alguns perfis do Instagram que se vendem como saudáveis. "Termos como LF (Low Food ou "Pouca comida") e NF (No Food ou "Sem Comida"), por exemplo, são coisas que já vi serem reproduzidas no Instagram, mas que antes eram restritas a espaços que defendem transtornos alimentares".

Essa exposição da rotina "saudável" dos influenciadores fitness acaba por desenvolver conceitos fora do normal no que toca à alimentação e podem a ajudar a catalisar transtornos alimentares e o chamado "comer transtornado" pela nutricionista. "Comer transtornado é quando há o medo de comer, a restrição sem justificação médica válida, de certos grupos alimentares – é um estilo de vida que acaba por se transformar numa obsessão".

Para Pisciolaro, há também uma deturpação do que a nutrição pode oferecer aos seus pacientes – que vai muito além de uma vontade de emagrecer, ou de ter o corpo perfeito da blogger famosa. "Não vendo um corpo perfeito, ensino a comer bem. Mas as pessoas não vêm ao nutricionista para comer bem, elas vêm para ter aquele corpo que não existe. Já me perguntaram se existem dietas para emagrecer os braços. Óbvio que é possível que haja, mas sempre vai haver uma blogger com uma receita pronta para essas perguntas".

Emagrecer acima de tudo

O Instagram não é o principal responsável pela baixa estima e inseguranças corporais dos seus utilizadores, mas serve como um trampolim. Por isso, foi considerado uma das piores redes sociais para a nossa saúde mental. Para Raphael Cangelli Filho, psicólogo clínico e coordenador do grupo de Psicologia do AMBULIM, a plataforma influencia os seus utilizadores, pelo poder que tem de ditar a moda e o padrão de beleza.

"Todos os transtornos alimentares, no caso, os mais comuns, como a anorexia nervosa, bulimia nervosa e compulsão alimentar, têm várias causas e são multideterminados. A estética é uma delas", explica o psicólogo. Esses transtornos também tem mais incidência se o portador é do género feminino, já lida com doenças mentais e também teve um familiar que já sofreu transtornos alimentares.

"A pessoa começa a achar que a magreza traz sucesso, traz felicidade profissional e afectiva", detalha. E acrescenta: "Ficaste magra, és a mais feliz. E, então, começa uma série de indicações também, de referências para se chegar a essa magreza. Depois, há a 'dieta da Lua', a 'dieta da Cinderela'. Quer dizer, cada uma das dietas que aparecem, seja por qual rede social for, vão induzir-te a teres esse comportamento restrito, prometendo perca de peso, beleza e sucesso".

Outras dicas e dietas da moda, como o infame jejum intermitente, costumam também ser bastante replicadas nestes perfis, sem seguirem as indicações correctas, bem como dietas que exigem a restrição extrema de alimentos sem nenhum tipo de justificação médica plausível.

Como o excesso de peso é tratado como se fosse um problema de saúde grave, conselhos e rotinas absurdas para emagrecer acabam por ser maquilhadas como discussões sérias de saúde. "Na luta contra a obesidade, as pessoas tentam propagar que é preciso emagrecer, mas é o equilíbrio que é melhor", critica Fernanda. E justifica: "Emagrecer não é sinónimo de saúde. Se fosse assim, a nutrição seria uma maravilha".

Desconfia de tudo

Assim como Miriam e eu, Beatriz Klimeck, universitária e dona da página Você Não É Seu Transtorno Alimentar foi bastante influenciada negativamente por alguns conteúdos que dominam o Instagram. Uma das soluções foi começar a controlar o tipo de conteúdo que a própria rede seleccionava com base nos seus gostos. "Não adianta, somos bombardeadas, por essas imagens que sabemos que são falsas, mas isso, ainda assim, tem um impacto", conta.

O Instagram dá, de facto, essa opção para que os utilizadores consigam, pelo menos, filtrar alguns conteúdos que não interessam e também carrancou com uma iniciativa de banir hashtags que promovam a glamourização de doenças alimentares.

Quanto aos influenciadores fitness e de bem-estar, cabe-nos a nós entender que tudoo que parece fácil ou promete muito, não é o caminho correcto para ser saudável. "Nada em relação à nutrição e ao corpo é demasiado fácil. Também temos de parar de achar que, se não conseguirmos cumprir uma promessa de emagrecimento, falhámos ou não merecemos comer", aconselha Fernanda.


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