Como o Instagram virou um antro de fake news sobre alimentação saudável
reportagem

Como o Instagram virou um antro de fake news sobre alimentação saudável

E isso está ajudando a sucatear nossa saúde mental.
19.9.17

Até este ano o Instagram era uma das minhas redes sociais favoritas. Tinha algo naquele mar de imagens aleatórias e vidas perfeitas que me atraía magneticamente. Demorei para perceber isso, mas aos poucos o próprio aplicativo já selecionava o tipo de coisa que mais prendia minha atenção: fotos de mulheres magras –"perfeitas" na minha concepção—e tutoriais de comidas ultra calóricas que levam quilos de açúcar e todas as cores do arco-íris. Comecei a me sentir mal de abrir o aplicativo, mas ao mesmo tempo sentia uma agonia inexplicável se deixava de ver aquelas coisas.

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De repente comecei a me enxergar como aquelas pessoas que estão na foto do "antes": gorda, feia e desmerecedora de ser feliz. Já as mulheres lindas e magras eram a foto do "depois": lindas, populares e alegres. Dane-se que cada corpo é diferente, eu queria ser magra como aquelas mulheres. Fiquei doente, obcecada e infeliz comigo mesma.

O Instagram não é o principal culpado pelos meus problemas de autoestima e insatisfação corporal, mas ele me ajudou a materializar em imagens meus desejos impossíveis. Mesmo sabendo que aquilo era plástico e que nem todo mundo vive uma vida linda fora do aplicativo, de alguma forma sentia que deveria ser assim. Mergulhada nessa infelicidade, comecei a notar que outras mulheres, amigas ou não, reproduziam um discurso tóxico bem parecido com o meu.

Miriam Bottam era uma dessas mulheres que provavelmente desejei ser. Até pouco tempo atrás, a jovem era uma blogueira fitness com muitos seguidores, fãs e uma barriga chapada. O que poucos sabiam é que Miriam estava no processo de recuperação de uma bulimia nervosa que a acometeu durante anos. Nesse processo, começou a malhar diariamente, buscando a perfeição e o controle do seu corpo através da alimentação saudável.

Miriam trocou seis por meia dúzia, desenvolvendo ortorexia, outro tipo de transtorno alimentar que faz o portador ser obcecado em alimentação saudável e exercícios. A imagem de uma jovem saudável era tão fictícia quanto os filtros de e aplicativos para tratar suas fotos. Estava longe de estar em dia com sua saúde mental.

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Por telefone, Miriam contou como notou que ainda estava doente. "Eu postava minha rotina fitness, mas escondia que era bulímica. Fui percebendo que aquilo não estava me levando a lugar nenhum, porque todos meus problemas continuavam ali", contou.

No começo de 2017, Bottam tomou uma medida drástica. Apagou seu passado de blogueira fitness e começou a fazer posts sobre aceitação do corpo e o perigo de acreditar em todas as dicas de saúde e alimentação de blogueiras famosas. A resposta foi avassaladora e em pouco tempo ganhou ainda mais seguidores do que quando ostentava uma vida fitness.

"Queria uma vida livre dessa obrigação e paranoia. Cada vez que me permitia comer um doce, se eu abria o Instagram e via um tanquinho me sentia muito mal. Comecei a dar unfollow nesses perfis fitness. "

Foi assim que achei Miriam em um post mostrando como são fabricadas as postagens de "antes & depois" nessas contas de alimentação e dietas.

Hoje, a influenciadora faz parte de uma comunidade do Instagram que promove a aceitação corporal e luta contra a glamourização de transtornos alimentares na rede social. Esse tipo de conteúdo produzido por Miriam paradoxalmente ocupa o espaço tóxico de dietas que prometem uma emagrecimento rápido e corpos perfeitos. Custe o que custar.

Dicas sem filtro

São muitas dietas, série de exercícios e dicas milagrosas que prometem resultados rápidos e o fim da gordura localizada ou qualquer outro mal estético que esteja na mira atualmente. Normalmente o modo de comunicação destas coisas começa pelo costume das influenciadoras fitness em postar suas rotinas, refeições e conselhos de como conseguiram aquele corpo.

O problema é entender que nem tudo o que vemos e que deu certo para essas pessoas são bons para a nossa saúde. E no Instagram, esses conselhos chegam até nós sem nenhum tipo de filtro ou aconselhamento médico. É quase uma versão fake news da saúde e alimentação.

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Por mais que Miriam e profissionais da saúde se dediquem a desmistificar as dietas absurdas e dicas de alimentação duvidosas, os influenciadores fitness ainda reinam no Instagram. E muitos deles sequer são formados em Nutrição ou profissões correlatas, como Educação Física, por exemplo

Recentemente essa falta de credenciais das personalidades foi questionada e gerou um buzz em torno da Gabriela Pugliesi, uma das blogueiras fitness mais famosas do país – conhecida também por aconselhar as seguidoras a autorizarem as amigas vazarem nudes caso elas saiam da dieta. Em fevereiro deste ano, Pugliesi foi foco de outra polêmica, mas desta vez policial. A influencer e seu marido foram denunciados por atuarem ilegalmente como profissionais de Educação Física após um evento da Unilever no qual ambos ministraram uma aula de exercícios. Cheguei a entrar em contato com a assessoria da Pugliesi para discutir essas questões, mas a resposta que tive se limitou a dizer que a influencer "não vai participar" da matéria.

Pugliesi é uma das maiores influenciadoras digitais do país, mas é só a ponta do iceberg de um universo na rede social onde o corpo perfeito fala mais alto do que pesquisas e formação na área de nutrição, medicina ou educação física. Estrelas como a ex-BBB Mayra Cardi vendem programas de malhação e dieta sem ter um acompanhamento profissional, mas ganham credibilidade ao serem batizadas por outras celebridades.

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"Tem muita gente se inspirando em pessoas com transtornos alimentares que defendem a doença como estilo de vida e se dizem conhecedoras de nutrição," conta Fernanda Pisciolaro, nutricionista comportamental e coordenadora da equipe de nutrição da AMBULIN, o programa de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas.

A nutricionista conta que há uma apropriação preocupante de termos e discursos que antes eram só restritos a blogs pró-anorexia ou pro-bulimia por parte de alguns perfis do Instagram que se vendem como saudáveis. "Termos como LF (Low Food ou "Pouca comida") e NF (No Food ou "Sem Comida"), por exemplo, são coisas que já vi sendo reproduzidas no Instagram, mas que antes eram restritas a espaços que defendem transtornos alimentares".

Essa exposição da rotina "saudável" dos influenciadores fitness acaba por desenvolver conceitos fora do normal no tocante à alimentação e podem a ajudar a catalisação de transtornos alimentares e o chamado "comer transtornado" pela nutricionista. "Comer transtornado é quando há o medo de comer, a restrição sem justificativa médica válida de grupos alimentares – é um estilo de vida que acaba virando uma obsessão. "

Para Pisciolaro, há também uma deturpação do que a nutrição pode oferecer aos seus pacientes – que vai muito além de uma vontade de emagrecer ou ter o corpo perfeito da blogueira famosa. "Não vendo um corpo perfeito, ensino a comer direito. Mas as pessoas não vêm ao nutricionista para comer direito, elas vêm para ter aquele corpo que não existe. Já me perguntaram se existe dieta para emagrecer o braço. Óbvio que isso é possível de existir, mas sempre terá uma blogueira com uma receita pronta para essas perguntas. "

Emagrecer acima de tudo

O Instagram não é o principal responsável pela baixa estima e inseguranças corporais dos seus usuários, mas ele serve como um trampolim para isso. Por isso ele foi considerado uma das piores redes para a nossa saúde mental.

Para o Raphael Cangelli Filho, psicólogo clínico e coordenador do grupo de Psicologia do AMBULIM, a plataforma influencia seus usuários pelo poder que tem de ditar a moda e o padrão de beleza.

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"Todos os transtornos alimentares, no caso, os mais comuns como a anorexia nervosa, bulimia nervosa e compulsão alimentar têm várias causas e são multideterminados. A estética é uma delas", explica o psicólogo. Também esses transtornos recaem mais se o portador é do gênero feminino, já possui doenças mentais e também teve um parente que já sofreu transtornos alimentares.

"A pessoa começa a achar que a magreza traz sucesso, traz felicidade profissional e afetiva", detalha. "Virou magra você é a mais feliz. E aí começa uma série de indicações também, referências para se chegar nessa magreza. Aí você tem a 'dieta da Lua', a 'dieta da Cinderela'. Quer dizer, cada uma das dietas que aparecem seja por qual rede social for, vão te induzir a ter esse comportamento restritivo, prometendo perca de peso, beleza e sucesso. "

Outras dicas e dietas da moda, como o infame jejum intermitente, costumam também ser bastante replicadas nestes perfis sem seguir as indicações corretas e também dietas que exigem a restrição extrema de alimentos sem nenhum tipo de justificativa médica plausível.

Como o excesso de peso é tratado como se fosse um problema de saúde grave, conselhos e rotinas absurdas para emagrecer acabam sendo maquiadas como discussões sérias de saúde. "Na luta contra a obesidade as pessoas tentam propagar que é preciso emagrecer, mas é o equilíbrio que é melhor", critica Fernanda. "Emagrecer não é sinônimo de saúde. Se fosse assim, nutrição seria uma maravilha. "

Desconfie de tudo

Assim como Miriam e eu, a Beatriz Klimeck, universitária e dona da página Você Não É Seu Transtorno Alimentar foi bastante influenciada negativamente por alguns conteúdos que dominam o Instagram. Uma das soluções foi começar a controlar o tipo de conteúdo que o próprio aplicativo selecionava com base nas suas curtidas. "Não adianta, a gente é bombardeada por essas imagens que sabemos que são falsas, mas isso tem um impacto ainda", conta.

O aplicativo realmente dá essa opção para os usuários pelo menos conseguirem filtrar alguns conteúdos que não interessam e também começou com uma iniciativa de banir hashtags que promovam a glamourização de doenças alimentares.

Quanto aos influenciadores fitness e de bem-estar, cabe a nós entender que tudo que parece fácil ou promete muito não é o caminho correto para ser saudável. "Nada em relação à nutrição e ao corpo é fácil demais. Também precisamos parar de achar que se nós não conseguirmos cumprir uma promessa de emagrecimento, nós falhamos ou não merecemos comer", aconselha Fernanda.

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