análise

Como a cocaína influenciou o trabalho de Sigmund Freud

A história de como uma substância estimulante e ainda não proibida ajudou a fundar as bases da psicanálise.

Por Scott Oliver
28 Junho 2017, 3:25pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

O fundador da psicanálise, Sigmund Freud, uma vez disse que apenas três revoluções científicas tinham conseguido derrubar a Humanidade do seu poleiro como suposto centro do universo. Primeiro, salientou, foi Nicolau Copérnico, que mostrou que a Terra era apenas um pequeno corpo a orbitar o Sol no meio de uma vastidão inconcebível. Depois Darwin, que demonstrou que o Homem não era a criação privilegiada de Deus, mas um descendente dos macacos, "o que implicava que não havia nele uma natureza inerradicável". Finalmente, continuou, Freud, "o desejo de grandiosidade do Homem sofre agora, com a investigação psicológica actual, o seu terceiro e mais amargo golpe, tentando provar ao 'ego' de cada um de nós que ele não é o mestre da sua própria casa, mas que deve contentar-se com restos de informação sobre o que está a acontecer inconscientemente na sua própria cabeça".

O que parece uma divagação de um gajo que acabou de cheirar um risco de cocaína de tamanho industrial, acontece, provavelmente, porque a psicanálise deve muito do seu surgimento às extensas experimentações de Freud com o pó branco, que na época estava disponível em todo o lado e custava o mesmo que qualquer xarope na farmácia. E não só a cocaína influenciou a psicanálise (da descoberta da "estrada real do inconsciente" nos sonhos, à terapia baseada nessa descoberta, até à disciplina intelectual em si), como o próprio Freud também influenciou várias narinas por onde a cocaína entraria. Na verdade, segundo Dominic Streatfeild, autor de Cocaine: An Unauthorized Biography, "se há uma pessoa que podemos responsabilizar pela popularização da cocaína como fármaco recreativo, é Freud".


Vê também: "'Targeted Individuals': O controlo da mente por parte do governo britânico é real?"


Mastigar folhas de coca, por exemplo, é algo bastante usual desde há milénios para quem vive ou visita os Andes. A cocaína, por sua vez, só foi sintetizada em 1855 por Freidrich Gaedcke, que nomeou a substância como "eritroxilina". Somente em meados dos anos 1880, o produto adquiriu o nome menos trava-língua de "cocaína" - além de um refinamento do seu processo de purificação - e passou a ser apontado como a cura para tudo pelas empresas farmacêuticas que a produziam. Freud descobriu a nova droga através de um jornal chamado Therapeutic Gazette, propriedade da Parke-Davis, uma subsidiária da Pfizer, que acabou por patrocinar Freud, então com 28 anos, com 24 dólares para endossar os seus produtos. A Merck também enviou amostras para o ambicioso assistente de investigação de neuropatologia da Universidade de Viena. Nem é preciso dizer que se tornou um grande entusiasta do produto.

Nesta fase, Freud ainda estava longe do grande avanço que acabaria por construir o seu nome, tendo apenas conseguido alguns pequenos sucessos com um método para colorir tecido nervoso e um trabalho que teorizava a possível localização dos testículos das enguias. A cocaína, entendeu, seria o seu bilhete para a fama e fortuna, fornecendo um toque de glamour e celebridade ao envelhecido mundo da medicina académica. Recebeu o seu primeiro lote em Abril de 1884 e começou a experimentar em si mesmo imediatamente. Tudo em nome da ciência.

Tantos os efeitos físicos como mentais foram instantaneamente atraentes e, em correspondências, Freud descreveu como tinha começado a usar o pó "contra a depressão e a indigestão e com um grande sucesso" (e sem dúvida notando que os efeitos eram mais interessantes que o dos sais de frutas). No final daquele ano, publicou um trabalho, "Über Coca", no qual descrevia "a mais linda excitação" na primeira vez que ingeriu o medicamento, uma "exaltação e euforia duradouras", além de notar a supressão da fadiga e da fome.

No entanto, Freud foi menos óbvio no que respeita às propriedades viciantes e efeitos colaterais da cocaína, escrevendo: "Parece-me digno de nota — e descobri isso em mim mesmo e em outros observadores capazes de julgar coisas assim — que uma primeira dose, ou mesmo doses repetidas de coca, não produzem desejo compulsivo de usar mais quantidade do estimulante; pelo contrário, a pessoa sente uma certa aversão à substância". Tudo muito distante da angústia da última linha fininha, que fazes com o que sobrou do saco às 5 da manhã.

Talvez o bom médico imaginasse que não era dependente, simplesmente porque nunca chegou ao fim do carregamento que lhe foi oferecido. Como o amigo porquinho da índia, Bez, Freud devia estar sempre um risco à frente do síndrome de abstinência. "Se uma pessoa trabalha intensivamente sob influência da coca, depois de três ou cinco horas há um declínio da sensação de bem-estar e mais uma dose é necessária para se livrar da fadiga...".

Não tardou até Freud começar a enviar amostras do medicamento para amigos e colegas de profissão, citando as suas potenciais aplicações como estimulante mental, um tratamento para asma e transtornos alimentares, afrodisíaco (podemos imaginar se o famoso interesse de Freud por fetichismo sexual não se cristalizou depois de uma sessão de masturbação de quatro horas alimentada a cocaína) e, de maneira alarmante, como uma cura para o vício em morfina e álcool. Apresentou o produto a Ernest von Fleischl-Marxow, um amigo psicólogo que tomava morfina para a dor crónica que sofria depois de ferir o polegar a dissecar um cadáver. Em vez de neutralizar o seu vício, apenas acrescentou outro ao caldeirão. Fleischl-Marxow nao demorou até estar a gastar seis mil marcos por mês com o novo hábito e morreu sete anos depois, aos 45.

Uma aplicação médica de maior sucesso foi encontrada por um amigo oftalmologista, Karl Koller, o primeiro a descobrir que os efeitos amortecedores da cocaína poderiam ser úteis como anestésico local em operações aos olhos. Mas Koller não adquiriu o mesmo gosto pessoal que Freud pela droga, o que sabemos devido a uma amostra nunca usada, encontrada em 1995 entre os seus documentos na sala de leitura da Biblioteca do Congresso. Freud, é certo, até teria lambido o saquinho.

Era tal a zelo que os colegas de Freud estavam a experimentar em si mesmos a panaceia em pó que as coisas devem ter ficado mesmo complicadas, com as curas milagrosas a mostrarem-se um bocadinho exageradas. Por exemplo, Wilhelm Fleiss — um otorrinolaringologista alemão — publicou um trabalho intitulado "A Relação Entre o Nariz e os Órgãos Sexuais Femininos", no qual especulava que o nariz era um microcosmo do corpo e que qualquer doença poderia ser tratada, encontrando a localização correspondente na fossa nasal e aplicando aí a cocaína, uma teoria que Freud curtiu tanto que acabou por necessitar de cirurgias para desobstruir o nariz, assim como Fleiss.

E enquanto tentavam tratar uma mulher com histeria — uma neurose que então se acreditava emanar da vagina — Freud e Fleiss estragaram a operação e quase mataram a paciente, depois imortalizada como "Irma" em A Interpretação dos Sonhos, em que Freud relembra o episódio que hoje o levaria à desgraça, perda da licença médica e até um processo e provavelmente prisão.

Freud começou a elaborar as teorias que formariam a base da psicanálise — conceitos como o id, ego e superego; libido como uma energia sexual que flutua livremente; o Complexo de Édipo — enquanto distribuía enormes quantidades de cocaína aos vienenses neuróticos de classe média que vinham conversar, interminavelmente, com ele sobre os seus problemas. Freud achava sempre que esses problemas acabavam por ser os seus pais, ou a sua má adaptação às normas burguesas (que continuaram intocadas, tornando a psicanálise uma disciplina capitalista).

Foi assim que a crítica de Gilles Deleuze e Félix Guattari da psicanálise, O Anti-Édipo, retratou as três fases da carreira de Freud: "o elemento exploratório, pioneiro e revolucionário" onde o desejo de forma livre da libido foi descoberto; o classista que, então, impôs o mito edipiano naquela fábrica latejante do inconsciente, prendendo o desejo à família; e, finalmente, o terapeuta, que criou a "interminável cura pela fala". Ele era "um fantástico Cristóvão Colombo, um brilhante leitor burguês de Goethe, Shakespeare e Sófocles e um Al Capone mascarado".

Mal sabiam Deleuze e Guattari que uma terapia que replicava a estrutura do vício — baseada no festival de monólogos clássicos de quem cheira q.b. — estava, na verdade, a ser alimentada por la coca loca. Era um golpe, de facto, só que a dar mais para Al Pacino (em Scarface), do que para Al Capone.

Apesar da popularidade duradora entre aqueles com guita para torrar em conversas solipsistas, muitos consideram a psicanálise uma disciplina desacreditada, que só serve para excelentes piadas em saudosas séries televisivas como Frasier. Os críticos já a consideraram uma pseudociência (o próprio Freud esperava que as suas construções teóricas barrocas, acabassem por ser mais tarde provadas por neurocientistas), antes mesmo que o hábito — que alguns classificariam mais como abuso de substância que vício — do seu fundador fosse descoberto.

Cépticos apontam a influência da cocaína na sua maior obra, A Interpretação dos Sonhos, no qual o modelo, parece, foi um devaneio de livre associação febril induzido pelo pó. "Vejo-me como um boneco de neve, uma cenoura como nariz, parado num vasto campo de neve pristina, que, de repente, derrete, como eu, o meu nariz a cair e a deixar-me com um sentimento de profundo vazio...". "Isso é sobre ansiedade de fertilidade: a cenoura é o seu pénis...".

O consumo de de Freud acabaria abruptamente em 1896, no dia do funeral do seu pai, depois de 12 anos como escravo da "dona branca". Ele dificilmente teria interpretado o facto como uma mera coincidência, mas faz-nos pensar como seria hoje em dia a história intelectual da Europa , se Freud tivesse feito o "test drive" a outra droga recreativa e actualmente proibida.


@reverse_sweeper

Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.