Todas as fotos por Fatima Zohra Serri.

A fotógrafa marroquina que aborda a misoginia no mundo árabe

Através do seu trabalho fotográfico, Fatima Zohra Serri encontra caminhos únicos para expressar os seus pontos de vista sobre a posição das mulheres na comunidade em que se insere.

|
09 Novembro 2018, 12:38pm

Todas as fotos por Fatima Zohra Serri.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Arábia.

Depois, de terminar o liceu, Fatima Zohra Serri queria estudar fotografia, o que significaria sair da sua cidade natal, Nador no norte do Marrocos. No entanto, o pai conservador não deixou – ele acreditava que raparigas não deviam morar longe de casa. Então, em vez de se mudar, a jovem de 23 anos estudou no Instituto de Tecnologia Aplicada de Nador e acabou por se tornar contabilista.

No entanto, Fatima nunca perdeu sua paixão pela fotografia e, além do seu trabalho quotidiano, construiu uma forte presença nas redes sociais, dedicando-se a encontrar formas criativas de iluminar a discriminação que ela e muitas mulheres na sua comunidade enfrentam.

Falei com Fatima para saber o que inspirou o seu projecto fotográfico e pedi-lhe para me explicar as suas obras mais populares e controversas.

fatima
Fatima Zohra Serri

VICE: Enquanto fotógrafa, porque é que te decidiste focar nas questões das mulheres

Fatima Zohra Serri: Essas questões são pessoais, porque vivo numa sociedade muito conservadora. O meu objectivo é reverter a percepção das mulheres e melhorar a forma como nos tratam. Por exemplo, o meu pai é muito controlador e muitas vezes não me deixa fazer coisas, porque sou mulher. Lembro-me de chorar sem parar quando me obrigaram a usar um hijab pela primeira vez, mas não havia nada que pudesse fazer sobre isso. Através da minha fotografia, estou a tentar consciencializar os outros sobre os detalhes das nossas vidas. E, como não tenho permissão para sair e praticar a minha fotografia, montei um estúdio em casa.

Usar hijab ainda é um desafio para ti?

Acostumei-me, mas há momentos em que o quero tirar mas não posso. Todavia, isso não atrapalha a prática da minha arte e não me impede de me expressar. Pelo contrário, às vezes vejo-o como uma força – sou uma mulher que usa um hijab enquanto discuto tópicos polémicos.


Vê o primeiro episódio de "Last Chance High"


O que é a tua família acha do teu trabalho?

Toda a minha família me segue nas redes sociais e parece gostar do meu trabalho, mesmo o meu pai. A minha mãe adora; somos muito próximas. Grande parte das críticas que recebo não vêm deles, mas de algumas fotos que não gostaram, como aquela em que usei um penso higiénico para destacar a violência contra as mulheres.

O que é que o penso higiénico representa?

Poderia ter fotografado uma mulher com sangue e hematomas no rosto, mas queria usar um penso para demonstrar que a dor pode vir de qualquer lugar. Queria também falar publicamente sobre menstruação – um tema que ainda é visto como um tabu na nossa sociedade.

An Arab women drinking from juice.

Podes falar um pouco sobre algumas das tuas outras fotos? Primeiro, a imagem de uma rapariga a segurar um “sumo 100% halal”.

É uma abordagem sarcástica do mantra muito repetido na nossa sociedade, que exige que as mulheres cubram sempre as suas “partes sensuais”. A ideia é demonstrar os desafios que se podem apresentar. Neste caso, é uma mulher que não pode beber um simples sumo, porque a sua boca está coberta. Desenhei bocas nos seus óculos para ela não ter que mostrar a pele e fiz o sumo “100% halal” para que não restasse nada que a pudessem criticar.

1540997924182-fatima-3

E aquela foto com a inscrição “Estou cansada de ser chamada de Awrah”?

Fui inspirada por um projecto americano chamado “Estou cansada de...”, onde as colaboradoras escrevem a principal questão pessoal que experimentam. Gostei tanto da ideia que quis adaptá-la, dizendo “Estou cansada de ser chamada de Awrah” [um termo usado em países árabes para envergonhar mulheres, para que se vistam e ajam de maneira mais conservadora].

Por exemplo, os meus colegas homens pediram-me logo que comecei a trabalhar para baixar a voz quando falava; ou quando o meu cabelo escapa do véu, toda a gente aponta imediatamente e tenho que o ajeitar. Mesmo as outras mulheres do meu trabalho dizem que usar perfume deve ser evitado, porque estimula os homens. E há ainda todas as pessoas que me dizem para não usar certas roupas, porque mostram as minhas curvas. Todos esses comentários colocam-me na zona “Awrah”. As flores na foto representam que a beleza não é algo que as mulheres deveriam ter que esconder.

Man holding a newspaper

Por último, a foto de um homem a ler um jornal.

Muitos pais tiram as filhas da escola para as casarem, enquanto mandam os filhos estudar no exterior. Quando era mais nova, muitas amigas foram tiradas da escola para aprenderem a ser dona de casa e se prepararem para o casamento.

Tentei expressar essa realidade nesta foto. Primeiro, os homens da minha comunidade são sempre considerados mais importantes que as mulheres, portanto a mulher está sentada no chão e o homem acima dela na cadeira. O homem lê um jornal e, enquanto o faz, atira pedaços de papel à sua esposa, que os usa para acender o fogo e aquecer a água do chá. Com isso, tentei mostrar como o conhecimento só é garantido para os homens.

Obrigada, Fatima.


Segue o trabalho da Fatima no Instagram.

Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.