análise

O que aprendemos com o caso "La Manada" em Espanha

A sentença do Tribunal de Navarra não é um abuso, é uma agressão a metade da população.
27.4.18
Protestos à porta da Audiência de Navarra, depois de conhecida a sentença do caso "La Manada". REUTERS/Vincent West

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

Sou homem e o meu ponto de vista é, claro, o de um homem. Acho que é preciso dizer isto quando se escreve sobre um tema como uma violação, porque nunca sofri nenhuma. Nem estive perto. Provavelmente, nunca passei por algo sequer semelhante. Também não sofri nenhum abuso sexual na minha vida. Nem assédio. Nunca tive que tomar precauções a andar pela rua de madrugada, nem senti na minha vida uma ponta de medo ou de incómodo por causa de um grupo de mulheres que vinham de frente, de lado ou por trás.

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Pertenço, aliás, a uma sociedade que tornou invisíveis todos estes medos, abusos, assédios, agressões, mudanças de passeio de madrugada e chaves preparadas na mão 100 metros antes de chegar à porta de casa. Também pertencem a essa mesma sociedade a juíza e dois juízes homens que ditaram ontem, 26 de Abril, a sentença, um dos quais emitiu um voto a favor da absolvição total para os cinco acusados. Os das tertúlias televisivas que opinam sobre o caso também são parte dessa sociedade. E, claro, os cinco acusados condenados a um delito de abuso e absolvidos do de violação.

Ontem, o tribunal que lia a sentença, não julgava tanto os cinco jovens, mas sim o conceito social de violação. O que é uma violação? Em que consiste? Foi sobre isso que se falou. Os antecedentes não eram bons. Vínhamos de sentenças indignantes. Vem-me à cabeça aquela mítica em que um juiz italiano decidiu que a vítima não tinha sido violada porque, para acabar com as calças nos tornozelos, tinha que ter parte da culpa. Toda a gente sabe que calças justas é o que é, meu Deus, como nos anúncios sexys que passam na televisão. Absolvido! Ah outra coisa! Estávamos em 1999.

Manifestação em Pamplona, depois de conhecida a sentença do caso "La Manada". Foto por Unai Beroiz, originalmente publicada no artigo "Pamplona contra la sentencia de La Manada: ' no es abuso, es violación', da VICE Espanha.

Hoje, quase 20 anos depois, aprendemos que o conceito de violação parece não ter mudado. O tribunal da Audiência de Navarra voltou a entender como única possibilidade válida para que exista uma violação essa cena cinematográfica em que uma mulher grita por socorro e esperneia, enquanto é sujeita à violência de um homem que, quem sabe, pode acabar a assassiná-la ao ver a reacção rebelde da miúda. Se o medo de um mau trato ainda maior paralisa a mulher, se o álcool e a droga a impedem de reagir, de dizer sim ou não, o seu corpo, ao que parece, é para uso e usufruto público. Isso também aprendemos ontem.

"Ninguém que não se sinta em sintonia com a sociedade fuma, tranquilo, um cigarro depois de violar alguém".

Quem sabe se, mais do que aprender algo, sejamos sinceros, simplesmente confirmámos o que, como sociedade, já tínhamos interiorizado. Tão interiorizado, que os próprios acusados, com antecedentes em situações parecidas, ficaram depois do acto a fumar um cigarro, sentados num banco à frente daquele portão. Ninguém que ache que cometeu uma violação faz uma coisa assim. Ninguém que não se sinta em sintonia com a sociedade fuma esse cigarro tranquilo. Eles fizeram-no. Com o telemóvel da rapariga, ainda por cima. Pode ser que nesse momento tenham até aproveitado os dados e acompanhado o cigarro com vídeos divertidos.

REUTERS/Vincent West

Como um conhecido vídeo do jovem e bem sucedido humorista Jorge Cremades, em que uma miúda está bêbada e sozinha numa discoteca e um grupo de rapazes, ao dar-se conta, se atira para cima dela a gritar "eu quero-a". Um vídeo antigo e que já foi retirado, com milhares de likes. A propósito, de rapazes e raparigas. Likes da sociedade. E centenas de comentários "hahaha", "LOL", "xD". Ninguém fuma um cigarro nem dá likes a violações, nem a nada que se lhe pareça, se não formar parte de uma cultura que considera que isto não é violar; por isso, segundo o ADN social, afinal não deve ser.

Outra coisa que aprendemos durante estes dois anos do caso "La Manada" foi que os grandes meios de comunicação, as vozes mais altas da sociedade, fizeram o seu papel habitual: o de vender um filme de entretenimento em vez de fazerem uma análise séria e aborrecida sobre a sociedade que somos e as coisas que geramos. Segundo as crónicas dos programas de televisão da manhã, "La Manada", um grupo de perturbados perigosos, saía de um canto obscuro da nossa sociedade exemplar para cometer aquela atrocidade. Nem ponta de auto-crítica. Ninguém que perguntasse naquelas mesas em directo "Porque é que ficaram a fumar um cigarro tão relaxadamente?" Não se sentiriam protegidos por um conceito de mulher-coisa que tanto os meios de comunicação, como a nossa cultura espanhola se encarregam de fomentar diariamente?".

Não, que seca de conversa, isso não é para se dizer. Isso não é televisão. Ninguém perguntou nada, ninguém foi mais além do cómodo relato fácil. Eu, sim, pergunto-me quantos desses das tertúlias que bradam aos céus contra aqueles monstros não terão incomodado-assediado-abusado alguma vez de uma mulher sem sequer o saberem, sentindo que é parte de um jogo aceite, em que o homem joga e elas sofrem desse mesmo jogo, normalmente em silêncio e sem denúncias. Há níveis, claro, não estou a comparar, mas também há vínculos comuns. E o vínculo comum que une "os monstros" de "La Manada" a qualquer homem que não pare para rever este "jogo" é a cegueira própria de quando se trata de nós mesmos.

Manifestação em Madrid, depois de conhecida a sentença do caso "La Manada". Foto por Nicolás Rodríguez Crespo, originalmente publicada no artigo "'La Manada feminista' rodea el Congreso en Madrid", da VICE Espanha.

Os cinco de "La Manada" receberam uma condenação menor. Não tarda sairão da prisão, um sítio em que a ideia é ensinar os males feitos e preparar uma reinserção na sociedade. De que males é que se pode tratar? Como é que se pode reinserir alguém a quem a própria sociedade disse que não foi violação? Mas, o que se passou naquele sítio de Pamplona foi uma violação sim, diga o que disser uma justiça que fuma um cigarro, sentada, tranquila às portas da indignação feminina que já não aguenta mais.

É uma violação abusar de uma pessoa que está bêbada/assustada/paralisada, ainda que não tente resistir - teria sequer sentido tentar lutar contra cinco rapazes? É-o hoje e continuará a ser de cada vez que - sejam cinco, quatro, três, dois ou um - uma mulher se veja numa situação de ter que decidir entre ficar quieta e parada para evitar males maiores ou tentar lutar, espernear e ser protagonista dos acontecimentos, desta vez já não como violada, mas como algo pior ainda. Se a justiça não percebe, pelo menos que percebamos nós. Aprendamos que esta sentença não é um abuso, é uma agressão contra metade da população.


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