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Drogas

Marijuana e período: a canábis como possível solução para dores menstruais

Existem vários produtos e até supositórios vaginais contra a dismenorreia. Mas será que funcionam?

Por Ana Iris Simón; ilustração por Aina Carrillo; Traduzido por Madalena Maltez
23 Abril 2018, 6:00am

Ilustração por Aina Carrillo via Matthew Brodeur/Unsplash e Hey Paul Studios/Flickr.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

Ainda que o composto químico predominante - e mais conhecido - da canábis seja o tetrahidrocanabinol (THC), a planta tem mais de 400 substâncias, algumas delas com propriedades terapêuticas e medicinais comprovadas. E, ainda que estas propriedades não tenham sido até agora suficientes para conseguir a legalização em alguns países, como em Espanha [e Portugal], há cada vez mais produtos terapêuticos que contêm derivados da canábis.

"A investigação científica com canabinóides é difícil devido, sobretudo, às restrições morais derivadas das leis anti-droga. No entanto, é preciso dar prioridade àquelas investigações em que há efeitos terapêuticos demonstrados, como em alguns casos de epilepsias infantis, náuseas por quimioterapia, dor neuropática, doenças neurodegenerativas, efeitos antitumurais...", afirma Fernando Caudevilla, especialista espanhol em canábis, cocaína e drogas de síntese, conhecido na deep web como Doctor X.


Vê: "A luta pela legalização da canábis medicinal em Espanha"


Se falarmos de produtos relacionados com a saúde feminina, alguns colectivos, como o Foria, com sede nos EUA e formado por pacientes de tratamentos à base de marijuana medicinal e profissionais da área da saúde, apostam no uso da canábis como ferramenta para acabar com as dores menstruais. Na sua página web vendem supositórios vaginais com THC e CBD desde o ano 2016. Asseguram que não têm efeitos psicotrópicos e que, simplesmente, têm propriedades anti-espásmicas e analgésicas.

Mariano García de Palau, director médico na Kapala Clínic, uma plataforma de informação especializada em tratamentos com canabinóides, conta que, de momento, não é possível a aquisição destes produtos em Espanha. "O nível de THC que contêm é superior a 0,2 por cento, o que os torna ilegais actualmente e não se podem, de maneira legal, comercializar em Espanha". Mas, como é que actuam no organismo? Como é que a marijuana se relaciona com a menstruação? Pode a canábis ajudar as mulheres que sofrem de dores muito fortes durante o período?

Fernando Caudevilla afirma que não existe nenhum estudo científico publicado que sugira que a canábis ou algum dos seus componentes seja um tratamento eficaz para as dores menstruais, nem os seus mecanismos de acção sugerem algum efeito nesse sentido. O tipo de dor em que os canabinóides têm eficácia demonstrada é na que se produz por afectação directa dos nervos (a chamada dor neuropática) e que decorre de doenças neurodegenerativas, como a esclerose múltipla, compressões de raízes nervosas por tumores ou hérnias ou o denominado fenómeno fantasma (que consiste em sentir dor num membro amputado).

"Ainda assim", acrescenta Caudevilla, "é certo que a dor é uma experiência pessoal e subjectiva. Os cremes anti-inflamatórios têm pouca eficácia quando comparados com fármacos tomados por via oral, por exemplo, e mesmo assim há idosos que me dizem que, para eles, o que resulta mesmo na artrose é o creme. Nesse caso concreto parece-me adequado continuar o tratamento e seria irresponsável receitar outro, assim como, da mesma forma, se uma fumadora regular de marijuana recreativa prefere melhorar a sua dor menstrual através da canábis, não lhe podemos negar essa experiência pessoal", conclui.

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Ilustração por Aina Carrillo vía Max Stantworth/Flick e Marie-Lan Nguyen/Wikimedia Commons

Já Mariano García de Palau, sublinha que os canabinóides como o THC e o CBD têm efeitos analgésicos, anti-inflamatórios e espasmolíticos quando administrados a mulheres com dismenorreia, que é o nome científico das dores menstruais. "O THC e o CBD são úteis no tratamento da dor menstrual, tanto administrados por via oral como aplicados a nível local intravaginal", comenta.

"Estes canabinóides possuem propriedades anti-inflamatórias que se potenciam no seu uso conjunto e melhoram os processos inflamatórios que acontecem durante a menstruação, que evidentemente provocam dor. Também a dor melhora com o tratamento, já que as propriedades analgésicas dos canabinóides estão comprovadas nestes processos, ainda que a resposta dependa das características de cada paciente. Para além disso, podemos falar de um efeito espasmolítico, que reduz a dor cólica que aparece, em muitos casos, durante a menstruação".

"Os canabinóides não são os analgésicos mais potentes, e também não são os anti-inflamatórios mais eficientes, mas certamente que nos podem trazer um efeito interessante de muito baixo nível tóxico", enfatiza o director médico da Kapala Clínic. A recomendação de Caudevilla é que "em nenhum caso a canábis deve ser usada como um tratamento de eleição para alguém que não o utilize para fins recreativos, já que existem muitas outras alternativas de segurança e eficácia comprovadas".



"Alguns estudos sugerem que os canabinóides podem ser eficientes contra a endometriose - aparecimento de tecidos do útero noutros orgãos - e que às vezes se confunde com dismenorreia, ainda que só se tenham realizado algumas provas em animais", comenta Caudevilla.

E, para rematar, o especialista critica aqueles que abraçam tudo o que vem da indústria canábica só porque usa "substâncias naturais". "É costume criticar-se a indústria farmacêutica - muitas vezes de forma justificada -, mas ninguém critica a parta da indústria canábica que apresenta a erva como uma panaceia. A canábis é natural como o veneno de uma serpente ou a Amanita phaloides. Mas, natural não é, por definição, melhor ou pior que os medicamentos".

Sobre se o consumo lúdico pode chegar a influenciar o ciclo menstrual, como ocorre com outras drogas, o perito afirma que "não Há provas de que o consumo de canábis altere o ciclo menstrual, ao contrário do que acontece com, por exemplo, a heroína. Sabe-se, sim, que pode alterar a fertilidade, mas os estudos vêm de animais aos quais foram administradas doses massivas e, por isso, essas conclusões não são aplicáveis a humanos".


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