Por que os hooligans belgas não torcem para a Bélgica na Copa
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Por que os hooligans belgas não torcem para a Bélgica na Copa

Eles nem ousam ir para a Rússia, aliás.
10.7.18

Nos últimos dias, a seleção belga, conhecida como Diabos Vermelhos, não só eliminou o Brasil, como enfrentou a Inglaterra no jogo final da fase de grupos da Copa. O estádio ficava em Kaliningrado, a sede do campeonato mais próxima da Bélgica, de longe.

Em teoria, uma disputa com os ingleses não soa apenas como mera diversão – é um sonho para os hooligans de qualquer país. Combater hooligans ingleses, famosos por dominar essa arte, é uma honraria na cena internacional de torcidas organizadas. Juntando ainda o fato dos Diabos Vermelhos serem uma das seleções favoritas da Copa, era de se esperar que os hooligans belgas aparecessem em peso em Kaliningrado.

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Mas, a bem da verdade, só alguns gatos pingados fizeram a viagem. Isso porque os hooligans belgas não estão torcendo ou arrumando brigas pela Bélgica enquanto país ou seleção. Em termos culturais, a Bélgica se divide em duas regiões: Flandres, ao norte, de língua neerlandesa, e Valônia, ao sul, de idioma francês. Em geral, os hooligans belgas são nacionalistas declarados, mas muitos se consideram tipicamente flamengos (não confundir com flamenguistas!) ou valões, não belgas. Peitar torcedores ingleses na Rússia implicaria torcer por um time que não reconhecem, representando um país do qual não se sentem parte.

Esse sentimento não é partilhado apenas por ultras (torcedores ultrafanáticos). Na Copa do Mundo de 2014, o presidente do Parlamento Flamengo, o nacionalista Jan Peumans, comentou que estava incomodado com o número crescente de bandeiras belgas que se alastravam durante eventos como esse.

Um membro do grupo Casuals Against Terrorism pisoteia o memorial para vítimas do ataque terrorista em Bruxelas. Créditos: Patrik Stollarz/AFP/Getty Images

As seleções belgas dos anos 90 e 2000 eram tão ruins que ninguém gostava muito de acompanhá-las, que dirá levar uns socos na cara em nome delas. Quando os belgas rememoram essa época, descrevem imagens de estádios quase vazios, onde a equipe mal foi capaz de empatar um jogo contra um país balcânico recém-formado, numa tarde monótona de terça-feira.

Tradicionalmente, os hooligans da Bélgica operam na esfera de clubes. Os grupos de ultras jamais consideraram se unir por uma única bandeira – ou jamais tinham considerado, pelo menos até a Páscoa de 2016, quando o fizeram por razões nada a ver com o futebol. Dia 27 de março de 2016, cinco dias depois de 32 pessoas serem mortas e mais de 300 outras serem feridas e um ataque terrorista em Bruxelas, os hooligans belgas de extrema direita se uniram e fizeram um protesto com o mote “Casuals against Terorrism” (Casuals contra o Terrorismo). Movimentos parecidos vêm surgindo por toda a Europa nos últimos anos. Em 2014, hooligans alemães de extrema direita se uniram e formaram o grupo “ Hooligans Against Salafists“ (Hooligans Contra Salafistas), e então organizaram diversos protestos violentos, anti-islâmicos, ao redor do país. No Reino Unido, o grupo Football Lads Alliance já realizou uma série de protestos, alegando combater todas as formas de extremismo, embora as manifestações foquem claramente no terrorismo islâmico.

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A manifestação em Bruxelas em março de 2016 logo saiu do controle, conforme membros do Casuals Against Terrorism faziam saudações nazistas, importunavam mulheres muçulmanas e peitavam a polícia e os locais. De um dia para o outro, os hooligans belgas viraram tópico de conversa pelo país, embora, àquela altura, ninguém achasse que as torcidas organizadas fossem uma questão de dimensões nacionais.

Na revista 'T Pallieterke, publicação nacionalista flamenga, um hooligan de Bruges explicou por que se uniou ao Casuals Against Terrorism. “Embora sejamos nacionalistas flamengos convictos, essa questão afeta todos nós”, escreveu. O que trouxe uma unidade nacional aos hooligans flamengos e valões, ele argumenta, não foi o futebol ou um senso de identidade belga, ou mesmo a eliminação da Canarinho, mas o que esses caras veem como ameaça terrorista iminente.

Embora a cultura hooligan costume ser associada à extrema direita e movimentos nacionalistas, os hooligans belgas com quem tive contato me explicaram que há um espectro amplo e diverso de visões políticas na cena, dependendo do clube a que se afiliam. Thomas*, um ultra conhecido, explica que os torcedores belgas do noroeste do país são “de extrema direita, mas os torcedores da Antuérpia são o oposto”.

“Nem ligaria se a Bélgica fosse eliminada na fase de grupos”, disse Xander*, que já foi afiliado ao grupo de ultras do Beerschot-Wilrijk FC. “A maioria se sente mais flamenga que belga.”

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É um sentimento curioso, já que em outros países os hooligans parecem ficar desesperados para ligar a violência a uma vaga noção de identidade nacional. No entanto, a composição da cena hooligan na Bélgica, ligada aos clubes, faz com que isso seja quase impossível. Segundo Jonathan*, membro dos ultras do Genk, seus companheiros são multiculturais demais para aderir a uma identidade belga. “Muitos membros da nossa turma têm raízes italianas, romenas, turcas ou alemãs”, explicou. “Durante os torneios internacionais, eles torcem para os próprios países. Os demais flamengos e valões até assistem, mas não pretendem brigar em nome da Bélgica.”

Jonathan preferiu não especular se estaria disposto a brigar pela Bélgica, nem mesmo na final. “Se eu falar demais, pode ficar feio pro meu lado.”

Um sinalizador é aceso no meio de torcedores belgas durante um amistoso recente. Créditos: AMA Sports Photo Agency / Alamy Stock Photo

Thomas não espera violência durante a fase final da Copa. “O problema da Rússia é que ninguém sabe do que os extremistas do país são capazes”, ressaltou. Os hooligans russos são famosos por serem treinados e organizados e, como diz Thomas, “por serem de outro nível”. Ele acha que, depois que um grande número de hooligans russos atacaram torcedores ingleses na Liga dos Campeões de 2016, na França, os ultras belgas não ousariam arrumar briga com eles, quanto mais arriscar o possível troféu da Bélgica.

As autoridades belgas não esperam problemas. “Não temos uma cultura de hooligans ligada à seleção nacional”, explicou Gaetan Willems, membro do Ministério do Interior belga, da unidade responsável por futebol. No entanto, dois anos atrás, em Lille, dois dias depois dos ultras russos atacarem torcedores em Marseille, um punhado de hooligans belgas foram presos por gerar confusão quando a Rússia enfrentou a Inglaterra nas redondezas.

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“É, Lille foi uma boa farra”, lembra Maarten*, um dos fundadores do Casuals United belga, um grupo que parece ter se inspirado no Casuals United inglês, que por sua vez é filiado ao partido English Defence League, de extrema direita. “Foi só dirigir até ali e tomar umas cervejas com o pessoal. Mas fazer o mesmo na Rússia seria um salto e tanto. Tendo em vista todas essas coisas, a maioria do nosso pessoal não tem preparo pra enfrentar os russos ou alemães.”

Maarten espera que as coisas mudem. “Sempre me pergunto por que não podemos fazer como os ingleses e trabalhar em conjunto”, disse. “Juntando os casuals [subgrupo de hooligans, famosos por usarem roupas de grifes caras], dá uma boa galera. Não conseguimos mobilizar pessoas para a Copa do Mundo e outros torneios internacionais porque somos muito menos nacionalistas. Somos um país dividido, e temo que isso nunca vá mudar.”

Guy Theyskens, Diretor Administrativo da Polícia Federal do país, explica que alguns hooligans flamencos assistem aos Diabos Vermelhos ao vivo, não agem com a seleção da mesma forma que agem perante os clubes. “Talvez seja porque a Bélgica não foi muito longe no passado”, sugere ele. A polícia belga enviou alguns agentes para a Copa do Mundo para ficar de olho, mas Theysken acha que os hooligans mais proeminentes da Bélgica não estão dando muita bola para a Copa.

“Na Bélgica, vivem nos colocando uns contra os outros”, disse Maarten. “Qualquer coisa que acontece, culpamos o outro lado. Se parássemos com isso, talvez teríamos um país” – e hooligans para apoiá-lo.

*Os nomes foram alterados para proteger identidades.

Este artigo foi publicado originalmente na VICE Bélgica
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