Ilustração: Kato

Porque é que a nossa geração é tão fodida da cabeça?

E como o excesso de informação e a vida alheia nas redes sociais pioram tudo.

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ago 10 2018, 10:11am

Ilustração: Kato

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adpatado ao português europeu.

Faço terapia há pouco mais de um ano. Não me sentia mal da cabeça nem nada do género, mas talvez tenha sido influenciada pelo facto de que praticamente todos os meus amigos vão – ou acham que deviam ir – a um psicólogo.

Ansiedade, depressão e crises de pânico são alguns dos problemas relatados por conhecidos meus em conversas quotidianas. A dado momento, comecei a perguntar-me: qual é o problema da minha geração? Estaremos, de facto, mais susceptíveis a esses transtornos psicossociais ou, simplesmente, passámos a falar mais sobre o assunto?

De acordo com um estudo da BDA- Morneau Shepell, um em cada cinco millennials sofria de depressão nos EUA em 2015, o equivalente a 20 por cento da população millennial do país. No Brasil, o suicídio é a quarta maior causa de morte de jovens entre os 15 e os 29 anos [em Portugal, a prevalência de sintomas de depressão (ligeira e grave) é de 9,98 por cento, para a população com 15 ou mais anos, sendo maior nas mulheres (13,59 por cento) do que nos homens (5,86 por cento)].


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E, ao longo dos anos, parece existir uma evolução da incidência destes transtornos. Segundo um estudo de 2009 de Jean Twenge, professora de psicologia da Universidade de San Diego, que estuda a relação entre o uso de smartphones e redes sociais e a ocorrência de problemas de saúde mental entre integrantes das gerações Y e Z, houve um aumento do número de jovens que usam antidepressivos e estimulantes, como Ritalina.

Para Fabiana Ratti, mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, e Paula Prates, doutora em saúde pública pela USP, ambas participantes do Colectivo Feminista Sexualidade e Saúde, as cobranças em relação aos jovens de hoje são maiores. "Na geração anterior, as pessoas passavam anos no mesmo trabalho. Havia uma certa estabilidade. Não era preciso ter muitos diplomas ou conhecimento de línguas para se ter um bom emprego", comparam. E acrescentam: "Hoje, a competitividade é frenética. Os jovens captam tudo isso. O futuro passa a ser assustador o que os torna mais temerosos em relação às frustrações, gerando mais ansiedade, mais frustração, menos vontade de investir e mais depressão".

E parece que a nossa relação com as redes sociais também não está a ajudar muito. Uma investigação realizada pela Amdocs, empresa norte-americana de software e serviços de media e comunicação, avaliou o uso de redes sociais por parte de jovens de 10 países. Além de apontar que não saímos do telemóvel, o estudo mostrou que 68 por cento dos jovens entrevistados ficam ansiosos e solitários quando estão sem Internet. A taxa passa para 65 por cento quando estão longe da família.

FOMO ("Fear of Missing Out", o medo de ficar de fora de algum acontecimento), insegurança diante das reacções a uma nova publicação, dificuldade de se focar numa só actividade diante das notificações que não param de chegar e a constante sensação de que a relva do vizinho é mais verde (ou pelo menos é isso que o feed do Instagram faz parecer). Embora toda a gente que está online fique susceptível a esses incómodos típicos de uma sociedade hiperconectada, os problemas que daí decorrem acentuam-se nas gerações que nasceram com os telemóveis praticamente como uma extensão do próprio corpo.

"Através de imagens e publicações, as pessoas mostram momentos paradisíacos, colocam-se em posições maravilhosas que causam no utilizador a sensação de que não está a fazer o suficiente. Então, a pessoa deixa o que está a fazer, abandona os seus próprios desejos, para correr atrás do que o outro quer", avaliam Fabiana e Paula. Na mesma lógica de raciocínio, na Internet muitas vezes as pessoas não escolhem - são escolhidas. Filmes, sites, notícias, tudo é sugerido. "Por um lado temos a sensação de estar a escolher, de que tudo nos é acessível, por outro, é uma prisão, uma falsa liberdade", rematam.

A nossa geração e a ainda-não-muito-bem-definida que veio a seguir a nós, talvez sejam, de facto, um bocadinho fodidas da cabeça. Mas, do mesmo modo em que nos esforçamos por mostrar a nossa melhor versão nas redes, também aprendemos a falar sobre os problemas que nos atingem.

Se, antes, tratar de temas como ansiedade, depressão ou mesmo alguns factores sociais que contribuem para isso – como relacionamentos abusivos, preconceitos etc. – era tabu, ou pelo menos eram temas limitados a discussões privadas, hoje sabemos que, por exemplo, expor as altas taxas de suicídio entre jovens é fundamental para começarmos a pensar em soluções.

"Antigamente, havia um estigma sobre a pessoa que dizia ir ao psicólogo, psicanalista ou ao psiquiatra, essa pessoa era vista como 'problemática', como aquela que não sabia resolver os seus problemas sozinha e muitas escondiam-no como um segredo. Hoje em dia, cada vez se fala mais abertamente sobre cuidar da saúde mental com a ajuda de profissionais especializados", concluem.


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