Por dentro da funerária que mostra os mortos como se estivessem vivos

Falámos com o responsável de uma das funerárias mais antigas e criativas de Nova Orleães sobre “embalsamamentos extremos”.

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ago 7 2018, 11:00am

Foto via WGNO (esquerda) e Marín Funeral Home (direita).

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Duas semanas depois de Renard Matthews ter sido tragicamente baleado e morto no seu bairro em Nova Orleães, Estados Unidos, o rapaz de 18 anos parecia estar exactamente como era em vida. No seu velório, estava reclinado numa cadeira, em frente a uma televisão, a “jogar” NBA2K, com um comando de PS4 nas mãos.

De óculos escuros, meias e chinelos e uma camisola dos Celtics, tinha até os seus petiscos favoritos – Doritos e uma bebida – numa mesinha próxima. E era exactamente isso que a família queria.

O velório de Matthews foi o exemplo mais recente do que os responsáveis de funerárias chamam de velórios “não tradicionais”. Em vez de terem o seu ente querido deitado num caixão, algumas famílias escolhem colocar os corpos em cenários relacionados com o defunto, para os verem como eram em vida antes de serem colocados no descanso eterno.

A prática apareceu em Porto Rico em 2008, como uma forma de despedida mais celebratória para o falecido, com a Marín Funeral Home a posicionar os corpos em cima de motas, ou de pé num ringue de boxe.

Foto por Ricardo Arduengo/AP.

Em 2012, os velórios com “embalsamamentos extremos” chegaram a Nova Orleães, quando a família de Lionel Batiste – percussionista da famosa Treme Brass Band – pediu a Charbonnet-Labat-Glapion Funeral Home para o colocar perto do seu bombo, com as mãos pousadas sobre a bengala que sempre usava. Q

uando Mickey Easterling, uma socialite de Nova Orleães conhecida pelas festas extravagantes, morreu - há dois anos -, a família contratou a funerária Jacob Schoen & Son para organizar a sua festa de despedida, posicionando-a com o seu boá de penas marca registada no pescoço, um cigarro numa mão e uma taça de champanhe na outra. Quando Miriam Burbank, uma adepta dos Saints, faleceu, a filha contratou a Charbonnet para a posicionar como ela geralmente era vista: sentada numa mesa, vestida de preto e dourado, com um cigarro de mentol entre os dedos e uma lata de cerveja Busch ao lado.

Numa época em que podes lançar os restos da tua cremação para o espaço, estes embalsamamentos não tradicionais são outra maneira criativa que as pessoas estão a escolher para celebrarem a vida de alguém e mudarem a narrativa que habitualmente rodeia a morte. A VICE falou com o director da funerária Patrick Schoen – que organizou o velório de Easterling – para descobrir de que forma é que estes serviços funerários pouco tradicionais são realizados, porque é que se estão a tornar tão populares - em particular em Nova Orleães - e porque é que as famílias escolhem este tipo de evento.

VICE: Podes falar um pouco sobre quem era Mickey Easterling?

Patrick Schoen: Era uma socialite de Nova Orleães e estava sempre no centro das atenções. Ela sabia viver. Recebia muitas estrelas de Hollywood e aparecia constantemente nos jornais, sempre a divertir-se. Tinha uma casa linda à beira de um lago e organizava festas extravagantes.

Como é que o seu velório foi organizado?

Era o seu último desejo. Partilhou-o com a filha e, quando faleceu, a filha ligou-me e explicou quais eram os interesses da mãe. Trabalhámos juntos em tudo. A premissa do velório, basicamente, era ela a ser a anfitriã de uma festa. Era um evento com muito champanhe e a ideia é que ela vai para o jardim depois da festa, senta-se num banco e adormece. Essa era a ideia. Com a taça de champanhe Waterford Crystal ainda na mão. Na outra mão, um cigarro. Estava até a usar um broche em que se lia “bitch” – com diamantes verdadeiros.

Um conhecido restaurante de Nova Orleães, o Galatoire, serviu o seu prato favorito no velório. E claro – sendo Nova Orleães – metemos uma banda de jazz a tocar. Foi uma festa muito boa. Ela estava um pouco distante de nós, quase como um cenário, com orquídeas e outras flores a rodeá-la. Flores que foram escolhidas pelo sua florista, para dar a ideia que ela estava mesmo num jardim. Tinha um pequeno balde perto dela com a garrafa de champanhe lá dentro e um boá cor-de-rosa ao pescoço. O cabeleireiro arranjou-lhe o cabelo e estava vestida com as suas roupas de marca favoritas.

Já alguma vez tinham feito um velório deste género, com o corpo em pose?

Não, nunca tínhamos feito.

Como é que reagiste quando a família te abordou para fazer este velório? Tiveste alguma reserva sobre o assunto?

Bem, a questão aqui é que o nosso trabalho é satisfazer as famílias. Neste caso, era basicamente satisfazer a Sra. Easterling. Quer dizer, foi o seu último pedido, ela procurou-nos para isso e demos-lhe o que ela queria. Essa é, para nós, a coisa mais importante, garantir que a pessoa tenha o seu pedido atendido. Nem sabia que tínhamos essa capacidade, mas pus-me a pensar e conclui que tínhamos de fazer isto, independentemente de como o iríamos fazer. E a nossa equipa pensou em tudo. Foi um grande desafio, pelo menos para a nossa funerária.

Como é que as pessoas responderam ao velório?

O evento foi muito bem recebido, acredites ou não. Ninguém ficou chocado, ou pensou que seria inapropriado ou algo do género. Quer dizer, há que entender: velórios destes não acontecem todos os dias. Portanto, foi uma grande surpresa para quem compareceu. O essencial era ter a certeza de que o velório seria lembrado... e foi. Foi notícia em todo o Mundo. Até estacionámos um carro funerário à porta, para as pessoas não ficarem tão chocadas e parecer-se mais com um velório comum. Só para deixar toda a gente um pouco mais confortável, mesmo que não tenhamos colocado o corpo dela na viatura. Foi tudo feito aqui na funerária e claro que ela teve que cá chegar numa carrinha normal, porque a sua posição já estava pronta.


Vê: "Invocar os mortos na Cerimónia do Fogo na Venezuela"


Tiveram alguma resposta negativa? E que problemas é que as pessoas têm com este tipo de velório?

Acho que ficaram apenas surpreendidas. Se as pessoas não entendem, ou não tiveram a possibilidade de ver algo assim anteriormente, claro que vais ouvir “Ah, uau, isto foi muito diferente”. Esse tipo de coisas. Mas, ninguém disse nada depreciativo. Pensaram apenas que era, não sei, estranho? Acho que a questão aqui é, esta era Mickey Easterling. E foi assim que ela viveu e foi esse o velório que ela escolheu.

De que forma é que realizar este tipo de velório é um desafio maior que um velório tradicional?

Em primeiro lugar, as pessoas que fazem cursos de ciências funerárias não aprendem a colocar uma pessoa morta sentada num banco. Não te ensinam isso no curso. Portanto, esse é um grande desafio. Tivemos que descobrir como o fazer e conseguimos. Lembro-me de receber uma chamada a dizerem-me: “Meu Deus, vocês estão loucos? Como é que esperam que se consiga fazer tal coisa?”. E eu disse: “Este é o acordo. Vamos satisfazer a família independentemente de qualquer coisa, por isso vamos ter que descobrir como o fazer”. Não posso entrar em muitos detalhes, porque posso ofender a família, mas sim, foi um grande desafio.

Utilizam uma técnica de embalsamamento especial?

Não é tanto o embalsamamento, é mais encontrar uma forma de estabilizar o corpo. A técnica de embalsamamento é a mesma que usamos sempre.

Foto via Marín Funeral Home.

O que achas de alguns dos velórios não tradicionais que são feitos em Porto Rico, onde, por exemplo, já se viram os mortos posicionados em cima de uma mota ou de pé num ringue de boxe?

Se é isso que a família escolheu, então não há nada de errado. Desde que toda a gente fique satisfeito com o que a funerária fez – e talvez fosse a vontade do falecido –, não acho que haja alguma coisa errada. Culturas diferentes fazem isto de formas diferentes. Essa é, obviamente, a cultura deles e eles gostam muito de o fazer. As pessoas de que falas, acho que são mais jovens. São elas que vês em motas e coisas dessas.

Quando fizemos o nosso velório, a premissa era que a Sra. Easterling estava a dormir. Nos outros, eles fazem as pessoas como se estivessem numa foto de acção, o que é um pouco diferente. Parece um pouco mais realista ter o falecido a parecer que está a dormir do que alguém numa mota, ou a cantar. Não estou a dizer que está mal. Se esse é o desejo da família, concordo a 100 por cento.

O que achaste do velório de Renard Matthews?

O velório deixou a família feliz e toda a gente ficou satisfeita, tenho a certeza. E era isso que ele fazia. Tentaram representá-lo – o evento era sobre ele e mais ninguém. Posicionaram-no a fazer o que sempre fazia – portanto, o que outras pessoas acham é indiferente. Julgo que é sempre preciso seguir os desejos dos entes queridos.

Depois do velório da Sra. Easterling, como dirias que é o clima num velório não tradicional? É diferente do que se vive numa homenagem mais tradicional?

Não era algo tão melancólico. Entendes? Não era como entrar na funerária e ver o caixão – quando vês uma apresentação como esta, não tens a mesma sensação. É um sentimento mais alegre, para ser honesto. Do tipo, “Ela parece muito bem”. Sentias-te como se estivesses numa festa. E era isso que ela queria. Ela queria celebrar a vida.

O que achas que as famílias retiram destes velórios, onde vêem os seus entes queridos como eram em vida, que não conseguem retirar de velórios mais tradicionais?

O evento representa a pessoa para quem o velório está a ser realizado. Toma como exemplo Lionel Batiste – ele sempre esteve sob os holofotes, tal como Mickey Easterling. Essa era a vida deles e essa era a forma como eles queriam ser representados no seu velório.

A minha família está neste ramo há 144 anos. Nos primeiros 120, todos os velórios eram exactamente iguais. Todos. Quer dizer, o que mudava era o pastor a entrar e só isso. Agora – diria que nos últimos 15 anos – os velórios estão a tornar-se algo muito diferente. Fiz um velório numa linda mansão antiga, com belos jardins e colocámos a pessoa deitada num dos jardins. Havia um quarteto a tocar, o evento era de bar aberto e foi lá que fizemos o velório. Temos um jardim de esculturas no nosso City Park e o falecido era um artista que tinha lá obras famosas expostas, portanto colocámo-lo deitado no jardim, com uma das suas obras à frente do caixão. Hoje em dia, podes experimentar mais – tonar a coisa mais pessoal, em vez de teres um evento muito genérico, onde acontecem sempre as mesmas coisas, como era feito no passado.

Foto via Marín Funeral Home.

Achas que este tipo de velório está a começar a tornar-se mais popular?

Podem tornar-se mais populares com o tempo. Agora, tens uma opção que antes não tinhas. Se a pessoa quer expressar a sua passagem por este mundo de uma maneira diferente, pode fazê-lo como nunca foi feito antes. Não posso dizer que é uma moda a que toda a gente vai aderir, mas sim apenas algumas pessoas, pessoas que, geralmente, são muito únicas em vida.

Já houve outras pessoas a abordarem a tua funerária para terem um velório não tradicional como o de Easterling?

Já tive pessoas que me vieram perguntar sobre velórios não tradicionais para si próprias. Não sabiam que era uma possibilidade, mas agora há quem comece a pensar fora da caixa.

Porque é que achas que este tipo de velório se está a tornar mais popular em Nova Orleães? O que é que existe na cultura da cidade que permite que velórios não tradicionais ganhem impulso?

Nova Orleães tem um espírito diferente. Adoramos comemorações e, só porque é um velório, não quer dizer que não possamos celebrar, que não te possas divertir. Muitos destes velórios são, provavelmente, o último desejo de pessoas que eram daqui, do falecido – é isso que eles queriam para o seu último evento. Saberem que toda a gente se está a divertir.


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