Sexo

10 perguntas que sempre quiseste fazer a uma pessoa assexual

Sim. Há assexuais que fazem sexo, que se masturbam e vêem pornografia.
mulher assexual
María. Fotografia pela autora.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

María tem 28 anos e, tal como acontece com entre um a três por cento da população, segundo garante Tony Bogaert, autor de um livro sobre o assunto, não sente atracção sexual. Não é uma frígida nem uma infeliz e também não tem nenhum trauma, nem é só porque lhe falta conhecer a pessoa da sua vida ou “dar uma boa queca”, comentários com os quais lida com mais frequência do que a que gostaria. María é assexual.

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Foi durante a adolescência que se começou a sentir diferente, quando as suas amigas falavam de rapazes atraentes ela nem sequer tinha reparado neles e, por isso, chegou a achar que era homossexual. Quando se apercebeu que também não gostava de mulheres, considerou que, talvez, a solução fosse mudar de sexo – também nunca se tinha sentido confortável no papel que a sociedade (ainda) reserva às mulheres na generalidade.

Até que uma noite, aos 24 anos, ao voltar de uma festa, pesquisou no Google - “umas palavras que agora já não me lembro”, mas que, sublinha, descreviam como se estava a sentir, como sempre se tinha sentido. Deu de caras com AVENes (uma rede dedicada à Educação e Visibilidade da Assexualidade), e com outras pessoas que, tal como ela, experimentam uma muito baixa – ou nula – atracção sexual. [Nota do editor: em Portugal existe a comunidade Assexuais em Portugal)

Percebeu, então, que o que lhe acontecia não era uma escolha, nem uma doença e que havia muito mais pessoas como ela. Desde aí que luta lado a lado com os seus companheiros da ACEs (Asexual Community Espanha), para que mais nenhum jovem tenha que recorrer ao Google em busca de respostas ou ter de levar com bocas como “o que tu precisas é de uma boa queca”.

Vice: Olá María, o que é que significa ser assexual?

María: Ser assexual significa não sentir atracção sexual, ou sentir, mas com muito baixa intensidade e muito poucas vezes. Costumamos dizer que há diferentes formas de atracção: a atracção romântica, a estética, a platónica e a atracção sexual, que se dá quando o corpo tem certas reacções a respeito de alguém, impulsos que nos levam a querer ir para a cama com essa pessoa. A única que temos em comum, todos os assexuais, é que estas reacções sexuais quase nunca as sentimos.

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Depois, há muitas diferenças entre nós: há quem seja assexual mas sinta atracção romântica e quem seja arromântico, há assexuados que sentem atracção estética e outros que não, há assexuados homossexuais e transsexuais… dentro da assexualidade dão-se varias intersecções entre outras sexualidades, mas o que temos todos em comum é que não cumprimos com a expectativa social do que é a atracção sexual. Supõe-se que há certas situações em que “temos que a sentir” e nós ou não a sentimos na mesma ou, se sentimos, é com muito baixa intensidade e não com a frequência esperada.

VICE: Apesar dos assexuais não sentirem desejo sexual com a frequência e intensidade comum, fazem sexo?

Há que distinguir duas coisas: atracção sexual e comportamento sexual. A atracção é o impulso, aquele que alguém gera em ti, ou uma situação, que no nosso caso é muito raro ou nulo. O comportamento é o que decides fazer com esse impulso – no nosso caso, baixo. O nosso corpo responde aos estímulos: excitamo-nos, podemos chegar ao orgasmo, lubrificamos… Por isso sim, há pessoas que são assexuadas e decidem ter relações sexuais à mesma, ou porque gostam de ver o seu par a desfrutar, ou porque, apesar de não sentirem o desejo, sabem que vai ser bom na mesma.

Também há assexuais que mantêm relações durante anos, porque não se reconhecem como tal, seja por pressão social ou pelas circunstâncias que os rodeiam. Aparece-nos na Associação gente casada, com filhos, que nunca conseguiu desfrutar realmente das suas relações, porque nunca foi capaz de explicar ao seu parceiro como realmente se sente quanto ao sexo, mantendo a sua assexualidade invisível para poder “cumprir” o que é esperado na sua relação durante toda a vida.

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Então ser assexual não implica não ter namorados ou não desejar estar numa relação. Existem casais de assexuais com alosexuais (pessoas não assexuais)?

Claro. Há pessoas assexuais – e também pessoas alosexuais – arromânticas, como eu, que não desejam nem sentem a necessidade de ter um namorado ou namorada, mas há outras que não. Na verdade, também existe muito na comunidade assexual esse desejo de estar numa relação, até porque também a nós nos meteram o ideal romântico na cabeça.

Há casais em que um membro é assexual e o outro não e há mil estratégias e formas de lidar com isso. Há quem abra a relação porque a pessoa assexual decide não fazer sexo, e há quem tenha relações apesar de ser assexuado, como expliquei antes… O importante é que haja consenso e comunicação, que devem existir entre qualquer casal mas, no caso dos casais com um membro assexual, é ainda mais necessário.

Vocês, os assexuados, masturbam-se?

Há quem sim e há quem não, tal como acontece com as pessoas não assexuais. Há quem não sinta atração mas que tenha libido e, por isso, masturba-se. O que aqui está em causa é a orientação sexual, a assexualidade é uma delas, porque quando se fala da orientação da atracção humana, nós os assexuados não a temos dirigida a ninguém. Mas, a libido existe, independentemente. Há colegas da Associação que me contam que, quando estão em exames, se masturbam, porque os relaxa, ou raparigas que o fazem quando vão ter o período porque lhes faz bem às dores menstruais…

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E, apesar de não se excitarem nem se sentirem excitados com outros, vêem pornografia

Claro. Muitas pessoas assexuais consumem pornografia e têm as suas fantasias e há diferentes ideias sobre isso. O erótico é algo cultural, que também nos foi incutido. Não é a mesma coisa, mas se eu vir um filme em que dois personagens estão apaixonados, eu, apesar de na minha vida pessoal não relacionar sexo com amor, vou estar a torcer para que vão para a cama. Até a mim própria me pergunto porquê e o que me ocorre é que já me aconteceu que situações num filme ou em pornografia me excitaram, mas quando as mesmas situações acontecem na vida real nunca me levam ao sexo. Não são a minha cena.

Suponho que as mulheres e os homens sofram de estigmas diferentes quanto à assexualidade.

Sim. As opressões são bastante binárias, ainda que sejamos uma comunidade com pouca presencia binária. É a opressão da opressão. Os homens assexuais sentem mais o peso dos preconceitos da masculinidade, de serem considerados menos homens, ou acusados de serem homossexuais no armário… As mulheres também são acusadas de serem fufas, ou frígidas e amargas.

O que é que as pessoas te dizem quando lhes contas que és assexual?

Para muita gente, isto é comparável ao celibato, quando, na verdade, é quase o oposto. Os celibatários sentem atracção sexual, mas decidem não ter relações sexuais, enquanto os assexuais são pessoas que não sentem essa atracção, ou a sentem muito pouco e que podem decidir ter ou não ter relações sexuais.

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Também acontece muito infantilizarem a situação. Dizerem que é só uma fase, falta de maturidade, que o que me falta é “conhecer a pessoa certa” … Até me chegaram a dizer que, na realidade, o que eu sinto é que ninguém quer fazer sexo comigo e não o contrário. De facto, uma das primeiras mulheres activistas assexual de Espanha foi alvo de comentários que diziam que não podia ser assexual porque era demasiado gira. A incredulidade também é muito comum.

Notas que te tratam de maneira diferente depois de saberem que és assexual?

Há quem não mude a maneira de me tratar, o que é muito gratificante. Mas, há quem o faça. Podes ficar completamente excluída das dinâmicas de uma noite de festa só por dizeres que és assexual, porque deixas de ser uma opção para poder levar para a cama. Também já me aconteceu converterem-me num fétiche sexual.

Lembro-me de uma vez, em que estava com uma amiga minha e uma conhecida e a conhecida não sabia que eu era assexual. Quando se apercebeu começou a disparar perguntas e, enquanto eu lhe estava a responder a uma, ela interrompeu-me para me dizer que estava a ficar cheia de vontade de me foder. E nunca antes entre nós tinha havido qualquer tipo de atracção. As pessoas às vezes levam como uma espécie de desafio o conseguirem dar-nos prazer, como um certo fétiche. O que é algo que a nós, os que não sentimos prazer nunca, até se nos ocorre…, mas com muito mais incidência aos que sentem prazer.

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És arromântica e assexual, pelo que nunca te relacionas com o intuito de dormir ou andar com essa pessoa. Alguma vez tiveste que "cortar" no afecto para não passares a ideia errada, ou já de ti és uma pessoa menos afectuosa?

Passei por várias fases. Desde os 17 anos que havia dinâmicas sexuais nas quais não queria entrar, apesar de, nessa altura, ainda não conhecer a palavra assexual. Sabia que não tinha vontade de fazer sexo com ninguém, por isso tornei-me numa pessoa fria, que não dava abraços nem beijos, não era afectiva para não dar lugar a mal-entendidos. Não demonstrava afecto, porque sabia que isso ia levar a um momento em que as pessoas esperariam algo mais de mim, que eu não lhes ia dar e as poderia levar a acusarem-me de as enganar, ou de as "aquecer" para nada.

Mas, à medida que vais crescendo vais arranjando ferramentas. Quando pus um nome no que era, assexual, comecei a trabalhar nisso e, agora, quando me relaciono mais profundamente com um novo grupo de pessoas falo-lhes da minha orientação sexual.

É estranho viver numa sociedade hipersexualizada e não sentir desejo sexual?

Cresci nela, por isso estou habituada. Mas, claro que, quando olho para trás, vejo muitos momentos - principalmente antes de saber que era assexual - em que respondia de maneira diferente dos outros aos estímulos sexuais que se vêem por aí. Lembro-me das minhas amigas falarem de um anúncio de um homem de boxers, numa montra, e aperceber-me que nem sequer tinha reparado nele.

Também me acontece a ver filmes, quando as personagens têm relações sexuais só porque sim, quando há uma cena sexual totalmente fora do contexto do argumento. Fico a pensar no porquê desse encontro… Com alguns anúncios também, tipo um do detergente KH7 em que faziam sexo em cima do fogão. Chocam-me muito essas coisas.


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