imagem da série russian doll
Natasha Lyonne. Foto: Divulgação/Netflix
Entretenimento

"Boneca Russa" dá um novo significado ao conceito de "bad trip"

Macabra e divertida, a série da Netflix usa mitologia, gaming e sarcasmo para reinventar uma receita vencedora.
12 February 2019, 3:44pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Aviso: contém spoilers

Morrer é fácil, viver é que é difícil. Quando Nadia Vulvokov morre no dia em que faria 36 anos e, de seguida, reaparece na casa-de-banho da sua festa de aniversário ao som de Gotta Get Up, de Harry Nilson, a primeira hipótese que lhe ocorre é que o cigarro de coca ou ketamina lhe bateu mal. Mas, conforme continua a morrer de diferentes maneiras e a regressar sempre ao mesmo dia e local, com a mesma banda sonora, a coisa parece mais complicada do que uma bad trip.

Esta é a premissa de Boneca Russa (Russian Doll, no título original), a nova produção da Netflix, criada por Amy Poehler, Natasha Lyonne, que interpreta a protagonista e Leslye Headland. A série mal estreou e já se tornou a estrela do momento. Aqui, vamos considerar algumas hipóteses que podem explicar o sucesso e esta calorosa recepção.

No início, Boneca Russa parece uma versão mais mórbida de Feitiço do Tempo, em que Bill Murray está destinado a reviver o dia 2 de Fevereiro, o Dia da Marmota, até se tornar uma pessoa melhor. O filme tornou-se um clássico de culto, para além de render óptimos gifs. Aqui, as criadoras revisitam a fórmula, mas acrescentam-lhe novas camadas de complexidade. A data de estreia - justamente na véspera de 2 de Fevereiro último - parece mais uma homenagem do que uma coincidência. Mas, o acaso às vezes tem destas coisas.

O trocadilho com as camadas no título da série, aliás, é inevitável: Nadia é uma mulher insensível, egocêntrica e sarcástica, com impulsos destrutivos e auto-destrutivos. Se há algo diferente recalcado, parece a anos-luz de distância. Natasha Lyonne está inabalável no papel, numa interpretação que parece um cruzamento de Al Pacino, em Advogado do Diabo, com Emma Stone, em Maniac. A sua rabugice soa genuína e a sua fragilidade, quando por fim emerge, também.

É possível que muita gente se tenha identificado tanto com a solidão como com o sarcasmo da personagem. Nadia é uma versão indie da louca dos gatos: prefere viver sem amarras com o seu gato, do que ter uma relação de intimidade com alguém. Com o tempo, acaba tão embrutecida que nem sequer somos capazes de dizer se ela, afinal, gosta ou não gosta do ex-namorado, com quem, entre algumas mortes, acaba por ter recaídas. Parece que nem ela própria sabe.

Em dois dos óptimos diálogos da série, as personagens lembram-nos que os gestos e os afectos nem sempre estão alinhados com as palavras e que existem muitas formas de dizer algo. É exactamente nisso que a actuação de Lyonne impressiona: ela interpreta as contradições e o sofrimento de Nadia com o corpo inteiro, em cada olhar e movimento, de maneira muito convincente.

A história, que começa como ares de comédia, vai-se tornando mais macabra e mais dramática à medida que nos aproximamos do seu foco central, embora nunca abandone o humor. A edição e a banda sonora embalam esse movimento e contribuem para o entusiasmo da recepção por parte do público.

Numa das suas mortes, Nadia conhece Alan Zaveri (Charlie Barnett), um homem que partilha a mesma sina: morre e ressuscita todos os dias na mesma casa-de-banho. Alan está, obviamente, deprimido e tem uma vida tão vazia quanto a de Nadia, talvez até mais. A namorada acabar com ele é apenas a cereja no topo do bolo.

Juntos, Nadia e Alan tentam perceber como é que os seus destinos podem estar relacionados, apostando que a solução desse enigma seria capaz de resolver o que ela chama de "bug no sistema". Nadia é uma programadora que trabalha com videojogos e racionaliza os acontecimentos a partir de conceitos da física sobre a relação tempo-espaço, um pouco como Dark. Já Alan tem uma hipótese mais simplista: acredita que ambos estão no purgatório, porque não foram boas pessoas, quase como em The Good Place. A série soube, pois, absorver e retratar com inteligência e consistência o espírito do seu tempo, dialogando com temas e obras que já se tornaram parte do repertório afectivo desta geração.

Para Nadia, não existe isso de ser boa pessoa: "Há o Hitler e depois há o resto do Mundo", diz. Ela própria está longe de ser exemplar, mas a acidez dos seus comentários elevam-na a um posto quase oracular, como quando argumenta que a hipótese de Alan é narcisista por assumir que o universo não só tem uma moral, como ainda por cima é a mesma que a dele.

Bons diálogos como este permeiam as cenas com tal frequência que se torna difícil destacar quais são os melhores. Temos também as frases de efeito, sempre fáceis de agradar: quando Nadia decide consultar um rabino, assumindo que o prédio para o qual regressa morte após morte, uma antiga yeshivá (local de estudos de textos religiosos do judaísmo), é um lugar assombrado, ele responde que não são os prédios que são assombrados, são as pessoas.

A frase faz pensar no poema de Emily Dickinson:

"One need not to be a Chamber — to be Haunted —
One need not to be a House —
The brain has Corridors — surpassing
Material Place —"

Dickinson escreve que não é preciso ser uma casa para ser assombrada: o cérebro tem corredores mais obscuros do que os lugares materiais. São exactamente esses corredores que Nadia tem de visitar enquanto procura pela saída desta armadilha em que se meteu. Acompanhar a personagem nesse caminho é um dos pontos altos da série.

Logo no início, sabemos que a mãe de Nádia morreu antes de completar 36 anos e que, agora, a protagonista é mais velha do que a sua mãe alguma vez foi. A culpa de sobreviver à mãe pode ser um dos motores que a leva a perseguir a morte em todos os cantos. É o que lhe diz Ruth, a mulher que a criou, invertendo a lógica do que vemos: não é a morte que a persegue, é Nadia quem se coloca constantemente em risco, muito antes de estar presa a essa maldição.

Órfã, como a personagem Anne, do clássico romance infanto-juvenil Anne of Green Gables, de Lucy Maud Montgomery, Nadia, no entanto, vê-se mais como Emily, de Emily of New Moon, livro menos célebre da autora e referência importante para a série. A relação conflituosa com a mãe, que poderia soar a cliché psicanalítico, acaba por ser, pelo contrário, um grande acerto. É um conflito com o qual, em maior ou menor grau, todos nos podemos identificar. O tratamento cuidadoso que o guião e a realização dão à questão, faz com que a dor de Nadia soe pessoal e, ao mesmo tempo, tenha algo de universal.

À medida que vai despindo a carapaça e fica mais vulnerável, também nos importamos mais, acreditamos ainda mais nela. Quando, finalmente, conhecemos a menina que ela foi um dia, num misto de flashback e assombração, já estamos ao seu lado, a torcer para que encontre uma maneira de fazer as pazes com o passado recalcado, elaborar a dor e livrar-se da repetição.

A história de Alan é menos interessante, mas apenas porque é cobardia competir com a de Nadia. Obcecado por controlo, tenta organizar e limpar o que pode, enquanto a sua vida entra em colapso. A fragilidade da condição de Alan torna-se mais comovente quando ele se consegue lembrar da sua primeira morte, o episódio que desencadeou todas as outras.

A amizade entre Nadia e Alan também é uma história bonita de acompanhar e não desemboca num romance convencional, o que parece outro grande acerto. Entre espelhos, por vezes ausentes ou partidos, Boneca Russa parece dizer algo sobre a importância dos laços, da relação com os outros, para que possamos constituir-nos com alguma autonomia. Alan, que à primeira vista parece um namorado dedicado, nem sequer sabia qual era o escritor que Beatrice (Dascha Polanco), agora sua ex-namorada, estava a estudar para a tese de doutoramento.

Já Nadia, completamente egocêntrica, importa-se ainda menos com os outros, é um milagre que tenha sequer amigos. Defensiva e solitária, faz questão de minar as suas relações uma a uma. Embora, eventualmente, seja capaz de gentilezas, não sabe pedir ajuda e não quer aprender, até que se vê metida nessa alhada e é obrigada a tentar. Agora, Nadia e Alan precisam de investir e confiar um no outro. No último episódio, têm que fazer isso de uma forma ainda mais radical.

Boneca Russa é uma comédia dramática, esquisita, da melhor forma que uma comédia dramática pode ser. Mais do que ficção ou fantasia, a história parece-se com um mito sobre a compulsão à repetição e ao desamparo. Não é à toa que o episódio final se chama Ariadne, provavelmente é uma referência ao fio de Ariadne, que, na mitologia, ajudou Teseu a encontrar a saída do labirinto do Minotauro com um novelo de lã. Hoje, o "fio de Ariadne" é também um conceito de lógica que pressupõe a resolução de um problema através da aplicação exaustiva de todos os meios disponíveis. A referência também está presente no videojogo que Nadia projectou e que Alan detesta jogar, porque "era impossível vencê-lo".

A série é a prova de que é possível criar laços com os espectadores, criar bom entretenimento, sem prejudicar nem a qualidade, nem a densidade de uma obra e sem recorrer a caminhos triviais. É possível, mas, infelizmente, é também raro.


Fabiane Secches é psicanalista e aluna de mestrado do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo.

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