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Como "Africa", dos Toto, se tornou a música favorita da Internet

Por algum motivo, esta música meio tonta e emotiva, lançada há 35 anos, inspira o amor quase absoluto da Internet.

Por Jessica Furseth
27 Novembro 2017, 5:27pm

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Noisey.

Nunca tinha parado para pensar em "Africa", o hit da banda californiana Toto, lançado em 1982. Era apenas mais uma música que existia no Mundo. Certo dia, o tema fez-se notar e soube de imediato que tinha sido apanhada. Estava no banco traseiro de um táxi, a deslizar pelas ruas de Amesterdão, na Holanda, a meio da noite. O sol de Verão, as boas companhias e uma garrafa de um óptimo vinho tinto tinham-me deixado embriagada. Por outras palavras, estava com o humor necessário para ser encantada pela melancolia sincera desta adorável canção dos oitentas.

Uma vez arrebatada por "Africa", descobri, como muitos outros antes de mim, que não era a única. "Africa" é tão popular na Internet que quase ascende ao estatuto de meme. Os seus gloriosos 4 minutos e 55 segundos possuem uma qualidade que fazem com que estivesse fadada a ser ovacionada pela Internet e a primeira pista do porquê está na própria música. "Africa" não é apenas uma obra musical. É um sentimento.

Começa suavemente, de tal forma que demorei um pouco até reconhecer a música que tocava baixinho no táxi. "I hear the drums echoing tonight", canta David Paich sobre o som do teclado, com a sua sinceridade a encher o a viatura e, naquele momento, talvez mesmo o Mundo inteiro. "Hurry boy, it's waiting there for you!". Neste momento abandonei qualquer pretensão de conversar com os meus amigos e, quando o refrão começou, fui obrigada a cantar em uníssono: “It's gonna take a lot to drag me away from you!.


Vê também: "O R&B dos anos 90 ainda reina em 2017"


"Africa" fez 35 anos em Fevereiro deste ano e, por algum motivo, essa música meio tonta e emotiva inspira hoje o amor quase absoluto da Internet. No Twitter, há um bot que posta ininterruptamente a letra de "Africa". No site www.ibless.therains.downin.afr..., o teledisco oficial de "Africa" passa em loop infinito (até ao momento, o vídeo tem mais de 250 milhões de visualizações, só no YouTube).

A música já foi utilizada em inúmeras campanhas publicitárias e séries de TV, entre elas Stranger Things, South Park e Community (com uma participação especial de Betty White). Mais recentemente, a canção foi parodiada por Justin Timberlake e Jimmy Falon, no The Tonight Show with Jimmy Fallon.

Estes são alguns exemplos do tipo de apreciação genuína que a música inspira nas pessoas. Basta procurar as palavras "Africa + Toto" no Twitter para veres o teu ecrã encher-se com declarações de felicidade e amor: "Não sei porquê, mas 'Africa', da banda Toto, faz-me sentir que posso fazer qualquer coisa", diz uma delas. "Não fales comigo antes do meu 'Africa' by Toto matinal", diz outra. "Se estiveres stressado", escreve outro utilizador, "lembra-te que ‘Africa’ by Toto existe".

A lista não acaba por aqui.

Nick Desideri, um entusiasta da música pop de Chicago, nos EUA, pode confirmar que "Africa" tem um lugar cativo no coração da Internet. "Bom dia, as minhas notificações foram invadidas por mais de 50 pessoas a discutirem comigo por causa de 'Africa'", escreveu no Twitter, depois de o seu gráfico de melhores músicas pop, Unifying Theory of Bops (acima), ter viralizado no início deste mês.

"Depois de 'Africa', 'Love on Top', de Beyoncé, obteve a posição mais polémica no gráfico", diz-me Desideri por e-mail. Ele assegura que a maioria das pessoas gostou do gráfico, mas que recebeu um número significativo de críticas de fãs de "Africa", muitas das quais afirmavam que a baixa posição da música invalidava todo o gráfico. "Como 'Africa' se trasnformou quase num meme, estas críticas não me surpreenderam. O que me surpreendeu foi a sua força", salienta Desideri.

Essa paixão talvez explique porque é que novas músicas são constantemente comparadas com o clássico dos Toto. Quando Taylor Swift lançou o primeiro single do seu novo álbum, em Agosto último, Mollie Goodfellow, uma jornalista de Londres, conseguiu mais de 60 mil gostos ao escrever no Twitter: "Porque é que ouviria a música da Taylor seis vezes antes de 'começar a gostar dela', se posso ouvir 'Africa' uma vez e passar-me completamente?".

Boa pergunta.

Mas, como é que "Africa" se transformou na música favorita da Internet? Muitos outros álbuns e canções pop, incluindo Billie Jean, de Michael Jackson, Let's Dance, de David Bowie, e 1999, de Prince, estiveram entre as mais tocadas de 1983, ano em que "Africa" liderou a lista da Billboard. Embora essas músicas e os seus respectivos álbuns ainda sejam populares e aclamadas pela crítica, "Africa" talvez seja a mais famosa de todas, mérito obtido graças ao seu apelo à estética da Internet, muitos anos antes de a Internet existir.

"'Africa' é uma música que representa os anos 80. É um produto do seu tempo", diz Ben Lunt, director de Meios Digitais da BMB, uma agência de publicidade em Londres. Lunt é suficientemente velho para se lembrar que "Africa" era considerada "extremamente foleira" durante a sua infância nos anos 80, mas agora vê a música como um guilty pleasure. "'Africa' transcende gerações. Inspira uma nostalgia verdadeira em pessoas da minha idade e uma nostalgia projectada em pessoas mais jovens", sublinha Lunt, que sugere ainda que os jovens gostam de "Africa", porque lhes lembra as músicas ouvidas pelos seus pais quando eles eram crianças. E explica: "Remete-nos à nossa infância e isso faz com que nos sintamos seguros".

Parte da popularidade da música deve-se ao facto de ser muito bem feita, com bons loops de bateria, camadas de harmonia e um refrão pegajoso. As vozes são um pouco difíceis de entender, como acontece muitas vezes em músicas dos anos 80, mas, mesmo quando entendes, a letra continua a ser um pouco absurda. Isso provavelmente ajudou a canção a popularizar-se na Internet, defende Lunt, pois um meme tem de ser suficientemente vago, para que cada um o possa mudar como bem entender. "A maioria dos memes tem um elemento de subversão", salienta Lunt. E acrescenta: "Mas, ‘Africa’ é um meme sem muita subversão. As pessoas usam-no como uma expressão de amor e alegria".

Quando o tecladista dos Toto, David Paich, e o baterista Jeff Porcaro escreveram a música, nunca tinham estado em África. Porcaro, que morreu em 1992, descreveu a letra da seguinte forma: "Um gajo branco está a tentar escrever uma música sobre África, mas, como nunca lá esteve, só pode falar sobre o que viu na televisão". A música não fala sobre um continente; fala sobre uma ideia, uma saudade de um lugar onde nunca estiveste.

"'Africa' é produto de um momento cultural muito específico", afirma Kate Miltner, uma investigadora de media digital da Universidade do Sul da Califórnia. "A frase 'I bless the rains down in Africa' ['Abençoo a chuva que cai em África', em tradução livre] faz sentido dentro do contexto da fome etíope do começo dos anos 80, que inspirou a criação de músicas de beneficência, como 'We Are The World' e 'Do They Know It’s Christmas?'”, acrescenta Miltner. A música da banda Toto é semelhante a essas outras, na medida em que apresenta uma visão ocidentalizada do continente africano e o teledisco mostra também algumas imagens vagamente africanas, que não seriam muito bem recebidas hoje em dia (como Taylor Swift descobriu ao gravar o videoclip da música "Wildest Dreams", em África).

A Internet não costuma ser complacente com temas problemáticos, como a apropriação cultural ou o whitewashing. Por isso, é ainda mais surpreendente que essas críticas não tenham sido direccionadas para uma música, que foi escrita por uma banda composta por seis gajos brancos. Miltner diz que a ambiguidade da canção pode ser o motivo. À primeira vista, "a música parece contar a história de um tipo que gosta de uma grapariga, mas com algumas referências mitológicas atiradas lá para o meio", explica Miltner, destacando a falta de verosimilhança geográfica da seguinte frase: "As sure as Kilimanjaro rises like Olympus above the Serengeti”. E sublinha: "O ponto é mais o de evocar uma sensação, do que construir uma narrativa coesa".

"Africa" pode parecer um pouco foleira ou irónica em 2017. Mas, em 1982 era completamente sincera: "Parte da cultura da Internet passa por fetichizar aquilo que é sincero e puro. É comum ver uma foto de, digamos, um cão e um veado bebé abraçados, com a legenda 'Demasiado puro para este Mundo'", diz Miltner, que acredita que a Internet adoptou a música em parte porque vem de um tempo em que a sinceridade era socialmente mais aceite.

É claro que os anos 80 tinham os seus próprios problemas sociais e políticos, mas Miltner acredita que o actual clima político nos pode dar uma pista do porquê a Internet ter abraçado "Africa". Esta canção super-sincera e nostálgica, pode nunca ser considerada cool, mas isso faz parte do seu apelo. Podemos berrar a sua letra ridícula e amá-la sem reservas, como eu descobri durante aquela charmosa viagem de táxi numa madrugada em Amesterdão.

"Ela permite essa catarse. Estamos a viver tempos muito estranhos", conclui Miltner.


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