reportagem

A revolução mais feminista que o Mundo alguma vez testemunhou

Na Síria, um colectivo anarquista curdo, liderado por mulheres, está no centro da luta contra o auto-proclamado Estado Islâmico.

Por VICE Staff
31 Julho 2017, 6:15am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK e apresenta as visões pessoais do autor, Carne Ross, realizador do documentário "Accidental Anarchist".

Há algo de extraordinário a acontecer no nordeste da Síria. É uma história pouco comentada, que desafia as narrativas mais comuns sobre o país em conflito, sobre Assad, guerra civil ou ISIS. Nada menos que uma revolução política, que dá lições importantes ao resto do Mundo. Nessa revolução, as mulheres estão na vanguarda, tanto política como militar, muitas vezes a actuarem como líderes da luta armada a ponto de sacrificarem as suas vidas contra o inimigo mais atávico e misógino que existe: o suposto Estado Islâmico - ou Daesh, como o grupo é depreciativamente chamado.

Esse lugar chama-se Rojava, o nome curdo para o Curdistão ocidental, localizado no nordeste da Síria. Depois do colapso do regime de Assad em 2012, partidos curdos começaram um projecto extraordinário de auto-governação e igualdade para todas as raças, religiões, homens e mulheres. Visitei Rojava no Verão de 2015, para tentar entender o que estava a acontecer e fazer um documentário sobre anarquismo [que podes ver no iPlayer, mas apenas em território britânico].

São poucos os jornalistas que visitam este pedaço de terra ao longo da fronteira turca, que tem cerca de metade do tamanho da Bélgica. É difícil e caro lá chegar, já que exige uma longa jornada a partir do norte do Iraque e cruzar o Rio Tigre num pequeno barco até chegar a solo sírio. O Governo Regional Curdo no norte do Iraque (KGR) não é simpático para com os curdos de Rojava, e torna o acesso muito difícil, às vezes até impossível.


Vê também: "O Estado Islâmico"


Os poucos jornalistas que lá conseguem chegar, tendem a focar-se na luta contra o Daesh, acreditando que é nisso que o público ocidental está mais interessado. Rojava é mais segura que as principais zonas de combate na Síria, mas ainda sofre com ataques suicidas e os visitantes ocidentais são uma óptima presa para raptores a mando do grupo terrorista.

Como resultado, muito pouco tem sido relatado sobre a incrível experiência política que é Rojava. Os pequenos comentários que aparecem, já chegam, habitualmente, em segunda mão. Em geral, repetem equívocos e espalham uma propaganda hostil do grupo, principalmente, por parte da Turquia, que se opõe ao principal partido dos curdos de Rojava - o PYD - e às forças armadas de Rojava, as Unidades de Autodefesa Popular, formadas pelo YPG, principalmente com soldados homens, e o YPJ, formado só por mulheres. Além do carácter político da revolução de Rojava não se encaixar nas narrativas familiares, também não é um projecto nacionalista curdo para um estado independente, nem marxista ou comunista, nem comandado por motivos religiosos ou étnicos.

"Autodefesa é um princípio da revolução de Rojava, por isso as mulheres são tão activas na luta armada".

Talvez a coisa mais notável - e, infelizmente, única - é que esta é a revolução mais explicitamente feminista que o Mundo já testemunhou, pelo menos na história recente. Antes, esta zona era lar de tradicionais camponesas, havia casamento infantil e as mulheres eram mantidas em casa. Essas tradições foram exterminadas: o casamento infantil, por exemplo, é agora ilegal. Há organizações paralelas de mulheres em cada área, desde uma milícia feminina, o YPJ, até comunas e cooperativas femininas.

Autodefesa é um princípio da revolução de Rojava, por isso as mulheres são tão activas na luta armada - mas o conceito estende-se ao direito de autodefesa contra todas as práticas e ideias contra mulheres, incluindo aquelas da sociedade tradicional e não só contra a violência extrema do Daesh.

Além de garantir direitos iguais para as mulheres, as políticas feministas de Rojava visam quebrar o domínio e a hierarquia em todos os aspectos da vida, reconstruindo as relações sociais entre todas as pessoas, independentemente de idade, etnia ou género, com o objectivo de alcançar uma sociedade ecológica e em harmonia social.

Em termos de comparação histórica, o projecto lembra mais o curto período de anarquismo testemunhado por George Orwell durante a Guerra Civil espanhola, no final dos anos 30. No entanto, os representantes de Rojava também rejeitam o rótulo de anarquistas, mesmo que muita da inspiração para a revolução tenha vindo originalmente de um pensador anarquista de Nova Iorque, Murray Bookchin.

"É auto-governação, com as decisões para a aldeia a serem tomadas na aldeia ou na região".

O coração político de Rojava está nas assembleias das comunas locais, nas quais os moradores tomam decisões por si mesmos sobre tudo: saúde, empregos, poluição... crianças a andarem demasiado depressa de bicicleta nas ruas da localidade, como reclamou uma mulher numa das assembleias que visitei. Homens e mulheres têm voz igual. As mulheres são co-presidentes em cada reunião e assembleia.

Minorias não curdas, principalmente árabes, mas também siríacos, turcomanos e assírios recebem prioridade na lista de intervenções; na reunião a que assisti, havia intérpretes. É auto-governação, com as decisões para a aldeia a serem tomadas na aldeia ou na região. Se as decisões não podem ser tomadas a nível local, há representantes que participam de assembleias municipais ou regionais, mas esses representantes continuam responsáveis no nível comunitário e só podem oferecer visões aprovadas localmente. É uma tentativa muito deliberada de manter a tomada de decisão o mais local possível — uma rejeição ao estado de autoridade de cima para baixo.

Ironicamente, no entanto, a inspiração para a revolução é muito de cima para baixo. Abdullah Öcalan, líder do PKK (o movimento de guerrilha curdo na Turquia), leu os trabalhos de Murray Bookchin numa prisão turca localizada numa ilha no Mar de Marmara (onde ainda está). Antes, um líder marxista-leninista, militarmente implacável, Öcalan convenceu-se de que aquele sistema de auto-governação, sem ajuda do Estado, era o melhor caminho para o futuro do povo curdo. Moldou a filosofia de Bookchin para o contexto curdo, chamando-lhe "confederalismo democrático". O PYD curdo sírio é associado do PKK. Seguindo Öcalan, estes curdos adoptaram o confederalismo democrático e implementaram-no na Síria.

Alguns acusaram o PYD de usar tácticas dominadoras, particularmente no início desta revolução democrática. Essa conduta deu espaço aos críticos para descartarem injustificadamente todo o projecto. Mas, pelo que vi, agora a transformação política tem vindo a receber apoio de todos: curdos, árabes, mulheres e homens, jovens e velhos. E porque é que haveria de ser diferente? O ponto crucial é dar a toda a gente a hipótese de opinar sobre a governação. Uma inovação radical em qualquer lugar, ainda mais na Síria, um país acostumado à ditadura e à repressão.

"Todavia, a revolução tem sofrido ataques consideráveis. A Turquia opõe-se a Rojava e impede que mantimentos, comércio e ajuda humanitária cruzem a fronteira da região".

Falei com muitas pessoas aleatoriamente. Todas foram unanimemente positivas e muitas argumentaram que o modelo Rojava, de governo altamente descentralizado, deveria ser adoptado em toda a Síria e até mais além. Mas, este é ainda um trabalho em progressão. Em algumas assembleias a que assisti, mulheres e homens sentam-se separadamente, algo das práticas tradicionais que esta revolução ainda está a resolver.

Todavia, a revolução tem sofrido ataques consideráveis. A Turquia opõe-se a Rojava e impede que mantimentos, comércio e ajuda humanitária cruzem a fronteira da região. Hoje, as forças turcas estão a atacar o grupo predominantemente curdo Forças Democráticas Sírias (SDF), associado ao YPG/YPJ e milícias árabes na frente comum contra o ISIS. O SDF tem sido o mais eficiente na luta contra o auto-proclamado Estado Islâmico e fez os extremistas recuarem centenas de quilómetros no terreno, com um custo de milhares de vidas. Agora, o SDF - liderado por uma comandante, Rojda Felat - começou um ataque à "capital" do ISIS, Raqqa. O SDF, actualmente, conta com apoio militar dos EUA e aliados, principalmente no suporte aéreo, mas também com forças especiais no solo.

Sendo assim, EUA e outros governos ocidentais estão envolvidos na grotesca contradição que permite que a Turquia, "parceira" da NATO, ataque o SDF - o seu aliado mais importante na luta contra o ISIS - enquanto ainda proclamam estar totalmente comprometidos em derrotar o grupo terrorista. Graças à ausência quase total de cobertura pela imprensa, esse absurdo não gera polémica nas capitais ocidentais. Os curdos temem, com razão, que quando Raqqa cair, os EUA abandonem os curdos às agressões turcas. E, de facto, com os ataques turcos contra o SDF a intensificarem-se num cantão do norte da Síria chamado Afrin, alguns acham que essa traição já terá mesmo começado.

Ainda assim, as hipócritas manobras geopolíticas internacionais não devem obscurecer a importância da revolução democrática de Rojava. Graças a tácticas horríveis, o ISIS atrai mais atenção, mas o facto é que Rojava carrega uma mensagem política mais importante para aqueles que se importam com a democracia. Rojava oferece uma alternativa e um exemplo prático, onde as pessoas estão no comando. E isso funciona.

Em vez de replicar os desastrosos governos centralizados no Iraque e na Síria de Assad, as instituições de auto-governação de Rojava estão a propor o seu modelo para toda a Síria quando a ditadura de Assad terminar – Rojava até se renomeou como Federação Democrática do Norte da Síria, para enfatizar o seu carácter multi-étnico e a aceitação das fronteiras existentes da Síria, outra divergência da visão preguiçosa ocidental de que "os curdos" querem o seu próprio Estado separado.

Mas, graças à hostilidade da Turquia, representantes da Federação Democrática são excluídos dos diálogos da ONU sobre o futuro da Síria - uma injustiça a que EUA, Reino Unido e outros países fazem vista grossa. A ONU continua a fingir que "os curdos" são representados por um partido que na verdade é uma proxy do KRG do Iraque. É relevante que os oficiais internacionais - a maioria homens que nunca visitaram a área - ainda prefiram os estereótipos étnicos datados, do que o carácter mais cosmopolita e feminista deste projecto.

Ao mesmo tempo, o modelo de Rojava não é menos relevante para o Ocidente, onde pouca gente pode dizer que a democracia vai de vento em popa, quando desilusão e extremismo reaccionário - e mesmo hostilidade aberta contra mulheres (expressada não apenas por Donald Trump) - estão em ascensão. E dezenas de ocidentais, como a Brigada Internacional de Republicanos de Espanha, juntaram-se já às fileiras do YPG e YPJ.

Muitos perderam a vida, incluindo recentemente um activista do Occupy Wall Street, de Nova Iorque. Alguns desses homens e mulheres são perseguidos quando voltam para casa, punidos pelo seu comprometimento com a democracia e a igualdade. Todos sofrem com a representação equivocada da sua luta em boa parte da imprensa internacional. Na cobertura da morte do activista do Occupy, o Washington Post descreveu a revolução de Rojava como "pseudomarxista", quando é exactamente o oposto disso. Nessa democracia, não há lugar para o Estado, nenhum. As pessoas no governo funcionam como a antítese do Estado comunista.

O autor, Carne Ross, e Viyan, a quem dedicou o seu documentário.

Milhares de combatentes do YPG e YPJ morreram por esta causa. Durante a minha visita, conheci Viyan, uma jovem soldado do YPJ, na linha de frente da batalha - uma grande faixa de cascalho que se estende até ao horizonte numa planície na Síria. A posição do ISIS ficava algumas centenas de metros à frente.

Com uma espingarda pendurada no ombro, ela disse-me que nunca antes no seu país, ou região, as mulheres foram iguais aos homens. Sem igualdade para as mulheres, não pode haver justiça na sociedade. Ela estava preparada para morrer a defender essa igualdade. Tragicamente, Viyan morreu alguns meses depois da nossa entrevista, a lutar contra o ISIS, na cidade de Al-Shaddadi.

O nosso filme sobre a procura por uma democracia mais eficaz é dedicado a ela.


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