O corvo que hackeou um experimento científico

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O corvo que hackeou um experimento científico

Na Suécia, cérebro de pássaro é elogio.

Parece que estamos vendo o despertar do Planeta dos Corvos.

Pois é: corvos são pássaros tão inteligentes que planejam acontecimentos com antecedência – algo até então visto só em humanos e macacos grandes – e abrem mão de recompensa imediata em troca de uma melhor mais adiante. É a conclusão de novo estudo publicado na Science ontem.

Assim como gaios e gralhas, corvos pertencem à família de pássaros corvídeos, conhecidos por sua inteligência: estudos anteriores já disseram como o gaio-comum ( Garrulus glandarius) esconde alimentos para consumo no futuro em vez de comê-los imediatamente. Para alguns pesquisadores, esse comportamento de armazenamento de comida era o limite da capacidade de planejamento para o futuro. Mas aí vieram os corvos.

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Vídeo: Can Kabadayi e Mathias Osvath. GIF: Jacob Dubé.

Nesse estudo, os pesquisadores da Universidade de Lund, na Suécia, treinaram corvos para utilizar uma máquina simples. O funcionamento era fácil: largar uma pedra dentro de um tubo em troca de uma recompensa em comida. Mais tarde, eles eram colocados em uma sala com a máquina (mas sem pedras), que depois era retirada. Uma hora depois, os pássaros foram apresentados a uma lista de objetos: a pedra e várias outras distrações. Praticamente todos os pássaros escolheram a pedra, e 86% deles conseguiram utilizá-la com êxito para abrir a máquina, quando levada novamente à presença deles 15 minutos depois.

Em outro experimento, 78% dos corvos foram capazes de negociar com um ser humano em troca de objetos – uma tampinha de garrafa por uma recompensa –, uma taxa de sucesso alta em comparação com experimentos similares em macacos.

Conversei com o coautor do estudo Can Kabadayi, estudante de doutorado em ciências cognitivas, via Skype, para questioná-lo sobre o artigo. (Sua foto de perfil exibe dois corvos empoleirados na cabeça e em um dos ombros.)

Ele me contou como um dos experimentos sofreu uma reviravolta: um dos corvos do compreendeu o funcionamento do mecanismo pedra/caixa primeiro e começou a ensinar o método para os outros corvos e, em seguida, inventou um jeito próprio de manejá-lo. Em vez de jogar uma pedra no tubo para soltar a comida, o futuro soberano do Reino dos Corvos construiu uma camada de ramos no tubo e empurrava um pauzinho nessa camada para forçar a abertura. O pássaro precisou ser removido do experimento para não ensinar o método aos outros pássaros.

Kabadayi também contou que é lógico que os macacos tenham traços cognitivos similares aos dos humanos – como a capacidade de se planejar para o futuro – porque são nossos ancestrais mais próximos. Mas a evolução dos corvídeos como os corvos é tão distante da nossa a ponto de sugerir que eles desenvolveram essa habilidade por seus próprios motivos. "Os corvos são dinossauros aviários que compartilharam um ancestral com mamíferos cerca de 320 milhões de anos atrás", observou o artigo da Science.

"É uma evolução independente da cognição complexa, uma ideia fascinante, porque mostra que a evolução às vezes gosta de repetir boas soluções. Nesse caso, são as habilidades de planejamento", afirmou Kabadayi.

O fato de os corvídeos terem cérebros do tamanho de uma noz pode não ser uma desvantagem. Um estudo publicado no ano passado revelou que, apesar de o cérebro ser muito menor do que o de alguns macacos, como o macaco-prego, o dos corvídeos e papagaios grandes apresenta uma grande quantidade de neurônios em algumas partes e em altas densidades. Kabadayi afirmou que as velocidades de conexão podem ser ainda maiores do que a dos mamíferos em razão da proximidade dos neurônios uns com os outros.

"O cérebro de um pássaro não é nada mais que o cérebro de pássaro. O que pode parecer um insulto, na verdade, é um elogio", afirmou Kabadayi. E quanto ao pássaro que descobriu como hackear o experimento? Kabadayi e seus colegas o apelidaram de "o pequeno engenheiro".
Kabadayi me contou que as pessoas são fascinadas pelos corvídeos, principalmente, porque eles representam alguns dos animais mais espertos com que interagimos diariamente. Claro, os macacos podem ser assustadores, mas eles não ficam observando você ir até seu carro ou roubando as armas da cena de um crime. Logo, não é nada pessoal.