Sexo

A artista que cria dildos baseados em pénis de insectos

Joey Holder passou quatro anos a imprimir dildos em 3D à escala humana, modelados com base em pénis de insectos.

Por Hannah Pezzack; Traduzido por Madalena Maltez
18 Abril 2019, 3:35pm

Foto por Damian Griffiths, cortesia Seventeen Gallery.

Este artigo foi publicado originalmente na VICE UK.

Um objecto da era espacial está suspenso da parede de uma galeria. Podia ser um meteoro ou uma forma de vida alienígena, mas o formato fálico já diz tudo. O estranho espigão é o pénis de uma abelha. A artista Joey Holder passou os últimos quatro anos a trabalhar em The Evolution of the Spermalege, um projecto inspirado em órgãos reprodutores de insectos.

Com impressão 3D detalhada e microtecnologia, ela faz dildos em escala humana, utilizáveis e baseados em pilinhas de insectos. Há vários pénis de invertebrados na exposição, incluindo de ácaros, gorgulhos, moscas domésticas e aranhas. Feitos de silicone prateado, dermatologicamente testado, os objectos são realmente impressionantes. É uma cena meio David Attenborough, meio erótica sci-fi, se curtes esse tipo de coisa.

Encontrei-me com a Joey para saber mais sobre o seu fascínio por genitália não-humana.

‘The Evolution of the Spermalege', Joey Holder, 2014-and ongoing, courtesy of the artist
Um protótipo 3D de um pénis de insecto (‘The Evolution of the Spermalege', Joey Holder, 2014, cortesia da artista).

VICE: Olá Joey, porque é que estás a fazer dildos com formas de pénis de insectos?
Joey Holder: Directa ao assunto. Gostei. Sempre fui fascinada pela diversidade da Natureza. Andava a estudar o acasalamento estranho de certos insectos, em particular do besouro de feijão. O macho dessa espécie fura o abdómen da fêmea com o pénis e injecta o esperma através da ferida na sua cavidade abdominal. Pode parecer bizarro para nós, mas é só um exemplo dos curiosos rituais sexuais desses insectos. O pénis das abelhas que produzem mel quebram e explodem. A louva-deus fêmea come o macho, às vezes até durante a cópula! Decidi destacar essas práticas estranhas fazendo modelos impressos em 3D da genitália de insectos e aumentá-los para criar dildos. Pensei em como os nossos desejos sexuais humanos são categorizados e como certas coisas são consideradas “tabu”. Spermalege pode ajudar-nos a pensar mais abertamente. Todas as possibilidades existem na Natureza.

Já usaste algum deles?
Ainda não. De momento penso neles como “objectos de arte”. Mas, podem ser usados para propósitos eróticos já que são de silicone dermatologicamente testado. No futuro, espero expandir a disponibilidade e explorar esse caminho. Levei muito tempo a chegar até aqui, porque é muito caro produzir o silicone.


Vê: "10 Perguntas Que Sempre Quiseste Fazer a um fabricante de dildos"


Reparei numa citação da feminista futurista Donna Haraway no teu site. Como é que The Evolution of the Spermalege se relaciona com o trabalho dela sobre libertação sexual, tecnologia e ecologia?
Haraway diz: “Precisamos de uma aliança multiespécies, através das divisões assassinas da natureza, cultura e tecnologia”. Muitas vezes tentamos criar divisões e hierarquias entre seres vivos e até não-vivos. O meu objectivo é questionar a maneira fixa como somos ensinados a pensar nos nossos corpos, identidades, géneros e capacidades biológicas.

Quero encorajar as pessoas a olhar mais além de categorias limitadoras. Observar outras espécies permite-nos reflectir sobre a nossa própria existência desconcertante e estar mais aberto a aceitar outras possibilidades. A cultura e a sociedade estabelecem o que é “normal” ou “desejável”. O mundo natural contém uma variedade de formas e comportamentos requintados, que muitas vezes são invisíveis para nós. Imaginamos como é a vida noutros planetas, mas o que está à frente do nosso nariz é mais alienígena do que qualquer coisa que imaginamos.

Another bug penis
Foto por Damian Griffiths, cortesia Seventeen Gallery.

Acho que o mundo dos genitais de insectos é, de facto, invisível para a maioria das pessoas. Dirias que queres captar a complexidade do mundo natural?
Certamente. Alguns animais são hermafroditas (têm os órgãos sexuais masculino e feminino), alguns reproduzem-se assexualmente (envolvendo um único organismo), alguns são hermafroditas sequenciais (podem mudar de macho para fêmea e vice-versa). Também há animais que “agem” como o sexo oposto. A homossexualidade existe em quase todas as espécies observadas.

As teorias de Darwin centravam-se na reprodução, ou seja: que todos os seres vivos têm esse objectivo em mente. Pensamos que os machos são promíscuos, dominantes e agressivos e que fêmeas são castas e passivas. Para muita gente, essa é só a ordem natural do mundo. Mas, a realidade é muito mais complicada! Animais já foram observados a envolverem-se em sexo por prazer, interacção social, demonstração de dominância ou alívio, ou em troca de objectos. Os nossos próprios preconceitos culturais cegam-nos, levam-nos a colocar os animais nos tipos de papéis que vemos no mundo humano.

Como é que o teu trabalho se relaciona com as tuas experiências pessoais?
Já fui instrutora de mergulho. O fundo do mar tem um conjunto de regras completamente diferente: podes mover-te quase sem peso, ir em qualquer direcção. As vibrações e sons podem parecer que estão à tua volta ou até dentro de ti. E os peixes, crustáceos e tudo mais – o que me surpreendeu no começo – estão-se a cagar para a tua presença. É como se eles já tivessem visto de tudo, então humanos com um tanque de mergulho não chamam a atenção! Dentro do meu trabalho, quero reflectir sobre esses habitats alienígenas e as criaturas que vivem neles e, mais importante, o que é que eles nos podem ensinar.

Obrigada, Joey.

The Evolution of the Spermalege é parte da exposição Joy Before the Object da Seventeen Gallery, Londres, que pode ser visitada até 25 de Maio de 2019.


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