Identidade

Me descobri lésbica no convento

Um depoimento sobre o despertar da sexualidade na juventude -- no pior lugar possível.
21.2.18
Thaís, com 21 anos na época iniciando o percurso para se tornar freira na Ordem Franciscana. Foto: Arquivo pessoal/Facebook.

Com 18 anos, Thaís começou a trilhar o caminho na Ordem Franciscana para ser freira e neste período descobriu sua sexualidade em um dos ambientes mais complicados do mundo para uma mulher lésbica desabrochar. Quando vi numa rede social o depoimento emocionante e engraçado da sommelier de cerveja de 31 anos, Thais Mariane Antonio, não pude deixar de conversar com ela e registrar sua história. Com muita coragem e humor, Thais topou dividir seu depoimento.

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Meus pais não ficaram muito felizes quando, aos 16 anos, disse que queria me tornar freira. Eles não eram religiosos fervorosos, ninguém na minha família era. Fiz catequese e crisma, algo normal num país católico como o Brasil, mas depois disso fui ficando na igreja e participando de encontros e retiros espirituais. Foi por meio desses encontros que conheci uma fraternidade franciscana e percebi que queria seguir esse caminho na minha vida.

Meus pais eram contra, principalmente meu pai, que ficou bravo com minha vontade de seguir essa vocação. Esperei completar 18 anos para finalmente arrumar minhas malas e sair de casa para o convento sem precisar de autorização. Minha vontade de virar freira era principalmente de fazer trabalhos sociais, a caridade e poder exercer os conhecimentos que adquiri no meu curso técnico de enfermagem que fiz junto com o colegial.

O primeiro lugar que fui enviada foi Londrina, interior do Paraná. Lá a gente fazia muita pastoral de rua, acolhendo moradores de rua e dando a possibilidade deles tomarem banho e poderem se recompor.

Na cidade, passei a morar no convento, o qual eu chamava de casa. Era um período diferente, nós usávamos vestes mais despojadas – incomuns para quem está acostumado com a imagem da freira clássica. Não havia luxos. Nós vivíamos de doações, então não era sempre que tínhamos uma carne pra comer. Todo mundo dormia no chão, em colchões bem simples, cobertos ou placas para separar nosso corpo do chão.

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Em Londrina, mal sabia sobre minha orientação sexual. Antes de entrar para o convento cheguei a beijar meninos e só. Eu era bastante inocente. Como nós mulheres vivíamos todas bem juntas, num período de experiência chamado aspirantado – que é a primeira etapa para você se consagrar na Ordem Franciscana – era inevitável a gente nutrir amizades fortes e sentimentos de carinhos. Eu nem fazia ideia, mas talvez lá que os primeiros sinais se manifestaram. Tinha uma ou outra amiga que a gente queria mais perto, sentíamos ciúmes da amizade dela com outras e uma vontade imensa de estreitar os laços de afeto. Nunca passou disso nessa época. Mesmo sendo só amizade, esses tipos de sentimentos eram encarados como fraqueza no convento, como um defeito que era preciso superar. Aliás, qualquer sentimento lá ligado ao sexo era, obviamente, tratado como tabu e um pecado da tentação.

Terminado esse período de experiência, me mudei para outra casa em Jaú, interior de São Paulo. Foi lá que tive minha primeira experiência lésbica com uma irmã consagrada. Na verdade, foi lá que comecei a me questionar porque meus sentimentos começaram a aflorar.

Não foi nada demais ou o que vocês estão pensando. Como eu disse, a vida no convento é desprovida de luxos e a gente dormia no chão. Como era normal ter amizades, não era de outro mundo a gente dormir perto da irmã que a gente mais gostava. Em uma dessas noites, minha mão tocou na mão da irmã e nós fizemos carinhos. Foi confuso e talvez o que me salvou é que nós tínhamos uma escala de oração e muitas vezes eu precisava levantar de madrugada para rezar na capela. Isso cortou esses carinhos, que não passaram disso, e acho que foi o que me salvou na época. Só que foi um caminho sem volta, porque comecei a me questionar.

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Mesmo estando confusa, guardei tudo pra mim e decidi continuar vivendo minha vida no convento. Talvez não fosse nada, talvez fosse uma fase. De qualquer forma, eu não fazia ideia do que era isso e nesse ambiente a última coisa que a gente tinha era alguma informação sobre sexualidade. É tratado como algo proibido e ponto. Ninguém faz nada a não ser reprimir. Não existia a possibilidade de conversar com alguém superior e tentar entender o que estava acontecendo. Não tinha ninguém que eu poderia recorrer.

Depois dessa irmã, outras vieram. O mesmo carinho. Sem beijo, nem qualquer insinuação mais pesada. Só que, claro, esse carinho me dava tesão e era a partir dele que me dava vontade de fazer algo mais. Mesmo eu nem sabendo ao certo o que seria o algo a mais.

Em Jaú fiquei um ano. Tive uma amiga muito próxima e querida e nutríamos esse tipo de afeto confuso e perigoso. Quando tive que ir embora para Contagem (MG) para seguir o postulantado, nós nos tivemos de nos separar e fiquei muito mal.

Essa separação e a dor decorrente dela era tratado pelas irmãs e pela superiora como algo normal lá dentro. Uma espécie de apego da amizade. Inclusive, eles separavam você da sua amiga até pensando nisso. Só que era um círculo vicioso, porque assim que você mudava de missão encontrava outra pessoa para suprir esse sentimento.

Voltei para Contagem normalmente após minhas férias e depois fui transferida para Campos de Goytacazes (RJ). Lá tive várias crushs e pela primeira vez rolou um selinho. Mesmo esquema: de noite, uma perto da outra, carinhos e teve o selinho. Só que a irmã ficou muito, muito mal. Eu fiquei também, menos, e até tive uma ponta de felicidade. Só que essa mulher estava próxima ao noviciado, a última fase antes de fazer os votos e virar freira definitivamente. Qualquer coisinha para ela poderia comprometer os próximos passos.

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O engraçado é que depois do selinho, tive de novo esse afeto com outras meninas. Quando você tinha esse afeto com uma irmã na mesma “hierarquia” que você muita gente criticava. Quando você tinha com uma irmã consagrada, ou seja, uma fase “acima” da sua, era bem mais tranquilo. Até tinha alguns privilégios de você ir rezar junto com ela, ir na missa no melhor horário e tudo mais.

Na verdade, o clima do convento depende sempre da superiora da casa. Se ela é mais rígida, tudo será mais difícil, repressivo e chato. Quando ela era mais compreensiva, existia essa possibilidade de você poder se aproximar mais da irmã que você é amiga. A superiora de Campos de Goytacazes era assim.

Aliás, na missão de Campos rolou uma coisa engraçada. Parece que uma irmã saiu com um menino da casa dos freis. Homens e mulheres se juntavam para cuidar do templo franciscano da cidade e numa dessas idas uma amiga minha viu uma irmã com um cara de lá. Aliás, era muito comum uma irmã dedurar para superiora quando ela vê algo de errado. Era algo como uma autoafirmação de que estava fazendo certo, seguindo o caminho correto. Eu não contei nada.

Depois de Campos, passei a morar num convento em Santos (SP) para ser noviciada. Quase fui barrada por causa desses lances de afeto. Como queria muito ir para o noviciado, comecei a me afastar e me excluir das outras irmãs para evitar qualquer sentimento do tipo. Pra mim, era a única solução.

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Foram seis meses em Santos. Nas primeiras semanas existia uma coisa chamada partilha. Que era basicamente um tête-à-tête onde todo mundo sentava para conversar e também havia uma conversa particular com a superiora. Nessa conversa com ela, contei meus conflitos e disse que não sabia o que fazer sobre esses sentimentos. Só que a superiora não sabia o que fazer, aliás ninguém sabia. Um detalhe importante para vocês entenderem é que não havia tanta diferença de idade entra as irmãs. A irmã no aspirantado não era tão mais nova quanto à irmã noviciada que não era também tão distante da irmã superiora. O que fazia diferença é que a irmã superiora estava já muitos anos no convento. Mesmo com pouco diferença de idade, a superiora não entendia minhas aflições.

O engraçado era quando a gente confessava com os padres. Eles encaravam nossos afetos e confusões com muito mais tranquilidade e naturalidade. Inclusive, uma amiga minha me contou que confessou o mesmo sentimento para o padre que a aconselhou a não contar para a irmã superiora.

Normalmente, quando uma irmã levava esse tipo de problema para a superiora o que eu sabia é que eles costumavam levar ela para ajuda psicológica e a cura interior – sim, quase uma cura gay. Comigo, não sei porque, nunca fizeram nada.

Tentei me isolar o máximo que dava, mas era humanamente impossível porque todas conviviam 24 horas por dia juntas. Nisso, acabei de aproximando de uma irmã e acabou rolando os mesmos carinhos que evoluíram para beijos e passadas de mão bem inocentes. Coisa de Deus mesmo (risos).

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Nós ficamos enquanto a irmã superiora estava viajando. Quando ela voltou, contei tudo e disse que queria ir embora de lá. Simples assim. A princípio ela foi contra e me ofereceu uma terapia, mas foi contar para ela que minha vida e da irmã que eu estava ficando virou um inferno. A partir desse ponto, sempre tinha duas irmãs nos vigiando. Até que a irmã que estava comigo ficou de saco cheio e resolveu ir embora.

Thaís atualmente com 31 anos. Foto: Arquivo pessoal/Facebook.

Um dia antes da gente ir embora, minha amiga foi tomar banho no vestiário e eu fiquei do lado de fora do chuveiro sentada conversando com ela. Coisa normal, de amiga. Uma irmã viu a cena, que não tinha nada demais e deu um escândalo. Falou que a gente tava tendo um caso (e a gente tava mesmo). Peguei minhas coisas, entrei num ônibus e fui embora dali de volta para minha cidade, Limeira (SP).

Na véspera que decidi ir embora, aconteceu algo estranho. Estava conversando com a superiora sobre o que eu sentia e ela olhou para mim e perguntou se era tão bom quanto as pessoas falam. Fiquei puta da vida. Em vez dela me aconselhar, me ajudar, simplesmente perguntou isso. Depois de um tempo já longe do convento, descobri que essa irmã superiora saiu em 2017. Queria muito descobrir se ela é lésbica. (risos)

Já a menina que tive o caso sumiu. Perdi o contato quando saí de Santos, já que ela era do Nordeste. Não achei em nenhuma rede social, ela simplesmente sumiu.

Deixei a Ordem Franciscana com 23 anos em 2008. Fora da casa, me reprimi. Me tranquei numa concha, não falava sobre o assunto e não saí com nenhuma menina. Fiz terapia e passei anos tentando namorar meninos, porque ainda sentia muita culpa. Inclusive, tinha uma amiga na mesma situação, mas ela era tão bitolada nesses assuntos de igreja que tratava disso como algo que não devíamos aceitar. Até hoje ela está nessa situação, uma pena.

Só quando mudei de Limeira que minha situação melhorou. Conheci uma garota em Campinas com 28 anos e simplesmente cansei de lutar contra o que eu sou. Era hora de me aceitar e ter uma vida normal. Aí sim que deslanchou. Saí com meninas, fiz um Tinder e comecei a ter uma vida tranquila.

Conheci minha atual namorada e estamos juntas já tem mais de três anos. Também me abri para os meus pais, finalmente. A primeira a saber foi minha mãe, que aceitou super de boa e disse que até já desconfiava. Meu pai também – nossa família não é tradicional. Aliás, eles aceitaram minha orientação sexual com mais facilidade do que quando disse que queria virar freira.

Olhando para trás, eu faria tudo de novo. Aprendi muita coisa, amadureci e muito da pessoa que virei hoje em dia foi por conta dessa época servido a Deus. Se não fosse por isso, não seria metade do que sou hoje. Minha fé não mudou nada, eu acho até que ela amadureceu.

A religião está cheia de gente preconceituosa, mas isso está nelas e não na religião. O carisma franciscano é maravilhoso, o que estraga são as pessoas mesmo. Mesmo sendo o que eu sou, nunca deixei de frequentar a igreja.

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