A Liga Global do Medo 2016


Era uma vez — pelo menos é assim que contam — um mundo de paz. Pássaros cantavam, os rios corriam, havia cavernas que não podiam ser medidas pelo homem (porque ele não existia). Aí o homem chegou e trouxe outros homens com ele. O mundo mudou. As pessoas se fecharam em países, com medo do que outras pessoas fechadas em outros países poderiam estar planejando.

O medo cresceu, inicialmente, porque ninguém sabia o que estava acontecendo fora da sua aldeia; depois, isso foi alimentado por mídia/governos/países. Agora, em 2016, o mal vem em tantas formas, tamanhos e cores que é quase impossível diferenciar o medo fictício do medo é real.

Com isso em mente, aqui vai nossa Liga Global do Medo deste ano:

Assista ao documentário da VICE sobre a destruição da cidade de Daraa, na Síria.

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SÍRIA

A situação: Todo mundo, de Putin a Obama até Hilary Benn, quer tirar uma casquinha da guerra mais cruel do mundo. O Ocidente consegue vitórias baratas de Relações Públicas bombardeando alvos fáceis de significância superestimada. O ISIS continua a saquear, cobrar impostos e aterrorizar.

Enquanto isso, ninguém sabe realmente quem é o bandido. ISIS? Assad? Putin? Cameron? Todo mundo? Os roteiristas de Hollywood estão tão confusos que quase derrubaram seus frappuccinos. O regime Assad é realmente o herói à lá John Wayne porque, apesar de ter matado crianças inocentes (e mais toda uma galera), está disposto a ajudar o Ocidente (o que só pode ser bom, né?) a derrotar o ISIS?

Nível de perigo: Com o aniversário de 100 anos do Acordo Sykes-Picot — o acordo secreto anglo-francês que dividiu as terras otomanas em esferas britânicas e francesas — em maio, o Oriente Médio, e a Síria em particular, está mais problemático e dividido que nunca. A Europa ergue fronteiras enquanto as vítimas da guerra síria cruzam o mar procurando um lugar mais seguro. O mundo manda aviões cheios de bombas. O ISIS continua produzindo #conteúdo em vídeo para recrutamento.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif (foto por Max Talbot-Minkin).

IRÃ E ARÁBIA SAUDITA

A situação: Desde 1979, quando o xá iraniano foi derrubado, o estado xiita vem traçando esquemas contra a Arábia Saudita, o reino sunita do outro lado do Golfo. A Arábia Saudita também faz seus planos. Recentemente, esses esquemas todos ficaram bem sérios.

Muita coisa realmente aconteceu: a Arábia Saudita executou o clérigo xiita Sheik Nimr Al-Nimr, levando a uma intervenção no Iêmen para combater rebeldes apoiados pelo Irã, depois retirou seus diplomatas do país quando sua embaixada em Teerã foi atacada. Depois que vários iranianos morreram pisoteados quando faziam o Hajj, o país disse que os iranianos não vão mais para Meca. Os sauditas fizeram lobby contra o acordo nuclear entre EUA e Irã, agora estão batendo o pé cheio de petróleo e pegando seus armamentos com a perspectiva de que Rússia e China vendam um monte de armas para o Irã, caso o embargo seja retirado.

Enquanto isso, em Teerã, clérigos barbados continuam sua guerra fria contra os iranianos pró-ocidente, que querem assistir Big Bang Theory, usar camiseta da Taylor Swift e ouvir Bruce Springsteen.

Nível de perigo: Uma evidência de que a situação está ruim é quando o governo do Iraque se oferece para mediar sua treta gigante.

(Foto: Twitter.)

REINO UNIDO

A situação: Uma elite super rica e poderosa manda numa população oprimida que está por aqui com essa história. A única esperança é um tio barbado conhecido como “Inelegível”, cujas leves declarações de bondade são apenas uma fachada para seu desejo de substituir “realismo” por uma ditadura leninista. No exterior, a Grã-Bretanha continua tentando provar que manda em alguma coisa — e é isso que torna o país tão perigoso.

Nível de perigo: Com os aviões britânicos no ar e metade do país embaixo d’água, os líderes da nação voam de jatinho para a Arábia Saudita para aceitar a Ordem do Rei Abdulaziz “por serviços prestados ao reino”. A Inglaterra continua sendo o Waylon Smithers do mundo.

Um drone MQ-9 Reaper (foto via).

EUA

A situação: No exterior, a Guerra Perpétua pela Paz: Drone Edition, continua. Em casa, o presidente dá uma pausa entre gravar podcasts e tomar café com o Jerry Seinfeld para, em lágrimas, dizer ao Congresso que, se eles pararem de descontar seus cheques do lobby das armas só um minutinho, eles podem perceber que dificultar que crianças sejam mortas em escolas não é a mesma coisa que mijar no túmulo de George Washington queimando a bandeira americana.

Nível de perigo: Quando você mora na terra da liberdade, o preço é a constante vigilância. Outras pessoas — particularmente aquele bastardo socialista Barack HUSSEIN Obama — estão sempre tentando tirar suas armas. Mas tudo bem, porque ouvi dizer que esse cara chamado Donald Trump vai concorrer à presidência, e ele vai deixar tudo no esquema.

Um judeu ortodoxo com a bandeira palestina em Londres (foto por Henry Langston).

ISRAEL E PALESTINA

A situação: O conflito entre Israel e Palestina rola há tanto tempo que é difícil para quem não está diretamente envolvido lembrar que as pessoas de lá ainda estão se fodendo de verdade. Nada muda e todo mundo troca de canal. Tem outros conflitos novos mais sensuais rolando na vizinhança de Israel. Mas agora estão falando em uma terceira intifada. Ondas recentes de violência mataram 22 israelenses, 150 palestinos, um americano e um eritreu. E esses números provavelmente vão subir.

Nível de perigo: Bem alto. A treta da moda de ontem é sempre mais perigosa quando é esquecida.

Adolescente traficante de armas em Trípoli (foto por Wil Crisp).

LÍBIA

A situação: Quem diria que uma intervenção militar apoiada pelo governo de David Cameron, sem nenhum plano que fosse para reconstrução, resultaria num país sem governo, cada vez mais comandado pelo ISIS e uma coleção de grupos armados?

Nível de perigo: A Líbia é o último campo de petróleo do ISIS. ISIS + petróleo = PERIGO!

Mahamadou Issoufou, presidente do Níger (foto por Rama).

NÍGER

A situação:Edições anteriores da Liga do Medo Global foram a única lista meio zoeira meio séria a prever o crescimento dramático da violência na Síria, República Centro-Africana e Nigéria. Este ano nossa aposta é o Níger, oficialmente o país mais pobre do mundo e uma nação onde o potencial para grandes incursões jihadistas preocupa cidadãos e parceiros internacionais. O colapso do governo na Líbia, a presença do Boko Haram no nordeste da Nigéria e a turbulência no leste de Mali, tudo isso está batendo na porta do Níger agora.

Nível de perigo: O Níger é um “parceiro-chave” na luta do Ocidente contra o terrorismo islâmico. Isso geralmente não funciona muito bem para os parceiros.

Assista o documentário da VICE sobre a Coreia do Norte.

COREIA DO NORTE

A situação: Blá, blá, blá — Estado impenetrável quase soviético — blá, blá, blá — “I’m só ronry” — blá, blá, blá — Kim Jong-um — blá, blá, blá — BOMBA H BOMBA H BOMBA H!

LEIA: Precisamos nos preocupar com a suposta bomba H da Coreia do Norte?

Nível de perigo: Alta se você for um norte-coreano antiautoritário, ou se a ideia de pessoas vivendo uma existência miserável te faz se sentir ameaçado. Para o resto do mundo — bom, para ser honesto, não tão alta assim. Mas é divertido pensar que eles podem dar uma de Dr. Strangelove pra cima da gente.

O MUNDO INTEIRO

A situação: Os humanos foderam com o planeta e as mudanças climáticas estão chegando para se vingar. Não vamos mais poder olhar para plantas e animais e cantar “We are the champions”.

Nível de perigo: Fodeu.

@ocarrickettnow

Tradução: Marina Schnoor

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