
Uma unidade do Sendero Luminoso pronta para sair em patrulha.
Algumas semanas atrás, todos os jornais do Peru estamparam manchetes sobre o grande golpe do governo contra o que restava do Sendero Luminoso — um grupo brutal de guerrilha maoista que, segundo a história, passou os últimos 20 anos escondido na floresta, massacrando camponeses e traficando cocaína. As manchetes anunciavam ao mundo que o camarada Alipio, líder militar do grupo, tinha sido morto.
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A morte de Alipio foi tão cartunesca quanto enfática. Um traficante de cocaína, que tinha ligações com o Sendero e era informante da polícia, atraiu uma coluna armada dos rebeldes para uma cabana. A maioria dos guerrilheiros ficou do lado de fora, guardando o local, e os camaradas Alipio, Gabriel e Alfonso entraram no que parecia ser um local seguro, esperando encontrar algumas moças que o traficante ficou de arranjar para eles.
O que Alipio e seus companheiros não sabiam é que o exército tinha lotado a cabana com explosivos ANFO. Assim que os três rebeldes se acomodaram, a casa toda foi pelos ares numa grande explosão. Os corpos carbonizados tiveram que ser identificados pelo DNA.
Tão logo as notícias sobre as mortes se espalharam, meu telefone não parou de tocar: tenho o discutível privilégio de ser o único jornalista a ter conhecido o camarada Alipio e a mídia local estava desesperada por uma frase de efeito.
Em setembro de 2010, recebi uma ligação em nome da liderança do Sendero Luminoso, que tinha concordado em se encontrar comigo se eu viajasse, sozinho, até o VRAE (Vale do Rio Apurímac e Ene), um região de floresta no Peru que serve como zona de guerra para as forças armadas e os barões do tráfico de drogas. Eles me contataram depois de receber, com atraso, uma mensagem que enviei a eles quando estive na área, seguindo as patrulhas da polícia antinarcóticos.
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A oferta era interessante, porém, amedrontadora. Em 1980, o Sendero Luminoso pegou em armas prometendo não somente defender os camponeses, mas derrubar os governantes e entregar o país ao proletariado, que por gerações lutou sob o jugo de uma pequena elite de descendentes de europeus.
No entanto, o que caracterizou o Sendero desde o início foram suas táticas sangrentas. Dentro de poucos anos, eles aniquilaram milhares de peruanos; muitas das vítimas sendo os mesmos camponeses por quem eles supostamente entraram em guerra.
A resposta do governo não foi menos brutal. Depois de 20 anos de conflito, o número total de mortes se aproxima de 70 mil. Em 1992, o conflito parecia próximo de acabar, com a captura, pela polícia, de Abimael Guzmán, o líder/messias demente do Sendero Luminoso. O restante do movimento bateu em retirada para o coração do VRAE, onde se manteve discreto por vários anos.

Um dos helicópteros derrubados pela nova formação do Sendero Luminoso em 2010.
Porém, no meio dos anos 2000, uma versão reinventada do grupo começou a dar sinais de vida. Em 2010, apesar do pequeno número de guerrilheiros (eles seriam cerca de 300 pessoas), o grupo conseguiu matar dezenas de soldados e policias, além de derrubar três helicópteros da Força Aérea.
O governo peruano culpou o terreno inóspito pela incompetência em lidar com os rebeldes, além dos laços do grupo com os chefões do tráfico de cocaína, que seriam os financiadores do Sendero. O governo falou em “narcoterrorismo”, uma expressão rapidamente adotada pela mídia. As autoridades pareciam dispostas a fazer o inimigo grande o suficiente para merecer sua própria metanarrativa — como se isso fosse uma nova fusão desprezível de comércio e ideologia — e não apenas 300 camponeses vivendo no meio do mato.
O suposto envolvimento no tráfico de drogas fez com que os EUA se intrometessem no conflito e, em 2009, o líder do Sendero, camarada José (nome verdadeiro Victor Quispe Palomino), foi adicionado à lista negra de chefões da droga do DEA. O Departamento de Estado norte-americano rapidamente seguiu o exemplo, oferecendo cinco milhões de dólares de recompensa pelo líder do Sendero. Mas José e seus seguidores eram realmente tão ricos quanto os chefões do tráfico do México ou da Colômbia? Estariam eles tão bem armados quanto a guerrilha colombiana financiada pela cocaína, as FARC? As contas não estavam batendo. Então, fui até lá investigar.

A polícia antinarcóticos patrulhando o VRAE.
Depois de um passeio acidentado pelas estradas de terra da VRAE, alcancei um rio, onde um barqueiro veio me encontrar. Sem uma única palavra, ele me levou rio abaixo até encontrarmos um pequeno assentamento. Na chegada, um fazendeiro de coca enrugado e alegre me deu as boas-vindas: “Então você é o jornalista? Venha, me siga”.
Quatro horas depois, chegamos a uma cabana onde quatro homens armados com rifles automáticos me esperavam. Eles disseram que eu era seu hóspede e me pediram para chamá-los de compañeros. Eu devia passar a noite no abrigo, enquanto eles esperavam mais instruções para seguirmos caminho e encontrar a liderança do Sendero.

Fernando Lucena, camarada “Alfonso” e um rifle Galil apreendido.
Na manhã seguinte, enquanto esperávamos o walkie-talkie chamar com novas ordens, conversei com o camarada Alfonso, um cara atarracado de rosto pacífico, que não se encaixava em nenhuma das minhas preconcepções sobre guerrilheiros assassinos. Perguntei a Alfonso sobre seu rifle, um Galil israelense. Ele disse que tinha tomado a arma de um soldado que eles mataram numa emboscada. Depois, passou a arma despreocupadamente para mim.
Depois de mais algumas horas de caminhada, em que tivemos que nos esconder nas folhagens enquanto um helicóptero da Força Aérea passava, fizemos uma curva e chegamos a uma clareira no meio da floresta, onde um grupo de cerca de 40 rebeldes armados esperava para me cumprimentar. Depois do choque inicial, escaneei rapidamente os rostos ali, esperando encontrar pelo camarada José, o homem de cinco milhões de dólares. José não estava presente, mas, no fim da fila, reconheci alguém das fotos dos jornais: camarada Raul, o irmão de José. Era óbvio que o homem do lado dele também era alguém importante, mas não consegui reconhecê-lo.

A coluna armada do Sendero Luminoso.
Eles me ofereceram comida. Raul e o outro cara que parecia importante se sentaram comigo. Foi aí que percebi quem era aquele homem. Tratava-se do camarada Alipio, o líder militar do Sendero Luminoso, o homem por trás da maioria das ações armadas do grupo na década anterior e, na época, praticamente o homem mais temido do Peru. Além de uma foto antiga dele que os jornais ainda publicavam regularmente, não havia outras imagens de Alipio em circulação, então, não era surpresa que eu não o reconhecesse de cara.
Raul começou dizendo que aquela era uma reunião apenas para nos conhecermos, que eles me dariam a entrevista numa outra oportunidade. O que se seguiu foi um debate exaustivo sobre marxismo, maoísmo e muitos outros ismos. Raul mostrou argumentos enferrujados, coisas da Guerra Fria. Acho que é difícil se manter atualizado sobre política internacional depois de passar 20 anos numa selva remota.
Depois de conversarmos, Raul me disse para tentar dormir um pouco. Foi difícil relaxar com uma sinfonia de barulhos da floresta e uma hérnia de disco no pescoço. Um adolescente armado com uma metralhadora MAG 7.62 montando guarda ao lado da minha cama também não ajudou muito.

Os camaradas Raul e Alipio.
Para minha alegria, Raul concordou em seguir com a entrevista propriamente dita na manhã seguinte. Ele disse que o grupo não tinha quase nenhuma ligação com os barões da droga, mas que, em áreas sob seu controle, os agricultores tinham permissão para cultivar coca. Apesar do meu ceticismo, achei que havia alguma verdade no que ele dizia. Ficou claro que eles estavam longe de ser um grupo rico. Eles me deixaram ver todas as armas que tinham — todas com selos que diziam “Exército Peruano” ou “Polícia Peruana”. Esse exército esfarrapado, de homens com uma altura média de 1,60 metros, tinha emboscado o exército e a polícia nacionais vezes suficientes para fazer um estoque de rifles automáticos.
Raul continuou e admitiu algo de que o grupo sempre foi acusado: “Agimos como criminosos, agimos como terroristas”. Ele culpou Abimael Guzmán, o fundador preso do Sendero, por todos os atos bárbaros cometidos contra civis no passado: “Pedimos a execução de Abimael Guzmán por crimes contra a humanidade”, disse ele. Mas, apesar de sua aversão atual em relação ao psicopata Guzmán e seus crimes hediondos, Raul e seu irmão mais velho também teriam participado de vários massacres de civis. Perguntei a ele sobre um dos mais infames, que aconteceu no pequeno vilarejo andino de Lucanamarca em 1983. “Participei disso, assim como o camarada José… Se cometemos excessos em Lucanamarca, se aniquilamos mulheres e crianças, foi porque essas eram as ordens do partido.”
Sessenta e nove pessoas, incluindo 29 mulheres e crianças, foram massacrados em Lucanamarca, a maioria com facões para economizar balas. Como Raul poderia justificar um movimento popular que mata soldados rotineiramente, a maioria vinda das classes mais pobres?

As crianças do Sendero Luminoso.
“Os soldados são nossos irmãos de classe, mas são essas leis escravizantes que fazem os filhos do povo lutarem pelo Estado. Por que os filhos dos ricos não precisam servir no exército?” Parecia que Raul tinha uma resposta para tudo.
Uma das questões mais polêmicas das muitas que cercavam o Sendero Luminoso era a presença de crianças entre as fileiras do grupo. Raul tinha me dado, cheio de orgulho, um dispositivo USB com uma filmagem das crianças do Sendero, meninos e meninas gritando frases marxistas-maoístas que elas, obviamente, não entendiam. Perguntei sobre as origens daqueles menores de idade, já que alguns relatórios diziam que eles tinham sido sequestrados.
“Ninguém nunca vai provar que sequestramos uma criança sequer. Nossas crianças não se envolvem nos combates. Elas são os filhos e filhas dos nossos combatentes e todas sabem ler e escrever.”
Nossa entrevista foi interrompida por um rebelde que cochichou algo no ouvido de Raul. Raul me pediu para desligar a câmera, enquanto ele e Alipio conversavam algo em voz baixa. Desliguei e liguei a câmera de novo. Foi aí que Raul me perguntou: “Recebemos a notícia de que um destacamento militar de 80 homens está vindo em nossa direção e você tem que entender que isso levanta suspeitas em relação a você. Queremos saber, isso é um plano entre você e o inimigo?”.
Antes que eu pudesse responder, Raul e Alipio começaram a planejar que ação tomar. Colunas armadas começaram a ser mandadas em diferentes direções. Parecia que Raul tinha perdido toda a confiança em mim de repente, então tentei conversar com Alipio.
“Então, camarada Alipio, o que está acontecendo?”
“O inimigo está se movimentando, mas temos uma unidade em espera pronta para emboscá-los a qualquer momento.”

Membros do Sendero Luminoso numa patrulha pela selva.
Dado o que parecia ser um confronto iminente, Alipio me pediu para passar mais uma noite no acampamento, para minha própria segurança. Felizmente, descobri no dia seguinte que o destacamento das forças armadas tinha seguido por uma direção diferente e que o Sendero tinha abortado a emboscada. Antes que eu fosse embora, um Alipio envergonhado e desarticulado me abordou. Ele disse timidamente que também queria dizer algo para a câmera. Comecei a gravar imediatamente. Diferente de Raul, Alipio não tinha muita habilidade com as palavras; seus termos eram bastante simples, beirando o infantil. Ele só estava interessado em dizer uma coisa. Ele e suas tropas tinham atacado uma base do exército recentemente, matando três soldados e derrubando um helicóptero durante a ação. Para indignação de Alipio, ele e seus seguidores não receberam a exposição da mídia que esperavam depois disso, então ele queria alguma publicidade.
Depois de me despedir, fui escoltado por quatro rebeldes numa longa caminhada para fora da zona de emergência (um deles estava carregando um lançador de foguetes). Fui entregue, então, a outro agricultor de coca, com quem caminhei durante a noite. Treze horas mais tarde, depois de ter sido picado por mais mosquitos do que eu imaginava existir, ter queimaduras de urtiga nos braços, dois dedos do pé infeccionados e uma hérnia de disco que doía loucamente, consegui sair da floresta.
Isso foi no final de 2010. Centenas de operações do governo depois, as forças da lei ainda não tinham conseguido pôr as mãos em nenhum membro do Sendero. Isso até agosto de 2013, quando Alipio, Gabriel e Alfonso (aquele que me emprestou seu rifle) foram atraídos para uma cabana e explodidos em mil pedacinhos. Esse foi o fim de Alipio: um guerreiro endurecido, um assassino e um indivíduo intelectualmente deficiente. Um homem cujas ações superaram o exército peruano, apoiado pelos Estados Unidos, por mais de uma década.
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