Entretenimento

Como fui de assistente de uma agência para roteirista de 'Atlanta'

A roteirista/produtora de 'Atlanta' de 25 anos Stefani Robinson dá seu conselho sobre como entrar para a indústria.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
NS
Como contado a Nakia Swinton
2.3.18
Stefani com o elenco de Atlanta. (Da esquerda para direita: Donald Glover, Keith Stanfield, Zazie Beetz, Stefani Robinson e Brian Tyree Henry). Imagens cortesia do FX.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

Cerca de um ano e meio depois de me formar na faculdade, eu estava trabalhando como assistente de uma agência de talentos, e tinha acabado de conhecer meu agente. Foi uma daquelas coisas: eu tinha escrito um piloto original, submetido ele para o FX e, pronto, surge uma nova roteirista. Foi na mesma época em que eles estavam contratando a equipe de Atlanta, e estavam procurando por mais um roteirista, uma garota, especificamente, e acontece que eu também sou de Atlanta. Foi uma loucura – de repente eu estava conhecendo produtores, e aí fui contratada para a série.

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A sala de roteiristas de Atlanta é única. Nosso processo é diferente. Numa sala de roteiristas mais tradicionais, há mais uma estrutura, mais “Precisamos escrever essa história específica hoje”. Atlanta parece mais amigos conversando, o que torna o processo de escrever superfácil. Abordamos a série de um jeito muito indireto, e ela é mais sobre nós e o que achamos engraçado e interessante do que o que precisamos fazer para preencher cenas de televisão.

No episódio “Juneteenth”, queríamos um episódio “Van & Earn” para mostrar ao público a disfunção do relacionamento deles. Eu e outro roteirista pensamos “talvez uma festa de Juneteenth bem burguesa”. Quando eu era adolescente, minha mãe ajudava a organizar eventos de Juneteenth na Marietta Square. Lembro que eu tinha que ir e fazia muito calor na Georgia. Eu não achava que era uma celebração que alguém conhecia fora os negros, e nem todo o negro sabe o que é o Juneteenth, o que acrescenta uma camada mais burguesa ao episódio.

É algo muito negro, e para mim isso é meio engraçado. Era tão interessante que haja esse evento acontecendo atrás de portas fechadas neste país. É uma experiência negra muito específica.

A roteirista de Atlanta Stefani Robinson.

Quanto ao episódio “B.A.N.”, a criança transracial tem uma conversa que começa com Rachel Dolezal. Pensamos “Gente branca consegue fazer isso mas nós não podemos”. É muito frustrante ela pensar que pode fazer o que quiser. Ela pode ser da raça que quiser, enquanto nós, como negros, ou qualquer pessoa não branca, não temos esse luxo de dizer “Sabe de uma coisa? Na verdade sou branco, e mereço receber mais, não ser assediado pela política e nem ser discriminado”. O episódio vem da ideia de que isso não funciona para os dois lados. É daí que vem o humor para nós. Um adolescente negro não pode decidir ser um cara branco de 35 anos. Isso nunca ia funcionar.

Earn (interpretado por Donald Glover) e a mãe de sua filha, Van (interpretada por Zazie Beetz).

Na segunda temporada, entramos um pouco mais na vida de Van. Vamos ver uma vida que não passa necessariamente pela lente do relacionamento dela com homens. A vemos sozinha e com amigas. É importante para nós explorar a vida de uma mulher negra que não é contextualizada por quem ela está namorando. A personagem dela pode sair com caras, e ela é legal e parte da turma, o que acho que é importante especialmente na cultura negra: mulheres negras geralmente são vistas apenas incomodando os caras. Elas não são legais o suficiente para fazer parte do grupo, elas estão sempre reclamando e enchendo o saco enquanto os homens seguem com suas vidas.

Tem algo um pouco mais real sobre o relacionamento de Van e Earn. Relacionamentos são complicados, e há relacionamentos por aí que não são tão simples como “Estamos juntos” ou “Não estamos mais”. As pessoas ficam ligadas pela vida inteira de uma maneira muito complicada, e ainda sentem amor uma pela outra. Algumas pessoas estão ligadas por razões muito estranhas. Seja por um filho, seja porque mentalmente não querem desistir da outra pessoa; essa é a maneira menos sitcom de continuar.

Earn (Donald Glover) e Van (Zazie Beetz) numa festa de Juneteenth na primeira temporada.

Para ter mais negros escrevendo papéis, você começa com educação. Muitas pessoas querem atuar porque não sabem o que está disponível para elas. Quando era criança, eu só sabia que adorava filmes e queria ser parte deles ou da TV um dia. Eu não conhecia nenhum roteirista negro. Eu não sabia que era uma coisa que pessoas negras faziam, ou sabia que pessoas negras estavam escrevendo, editando e filmando coisas, ou criando figurinos. Se você não vê alguma coisa, como vai saber que isso é algo que você quer, ou algo que você pode querer ser no futuro? Quando eu era jovem, atuar era a entrada mais aparente para a indústria do entretenimento. Felizmente, fiz teatro e vários programas de atuação, e tive professores que reconheceram minha força na escrita e me disseram isso.

Tenho sorte de ter tido pais que me guiaram na direção certa. Quando era criança e fui para um acampamento de cinema, aprendi como operar uma câmera, como escrever para a TV, como editar e como dirigir. Tive a oportunidade de me colocar em atividades onde tive um senso completo de como seria me envolver com televisão ou cinema. Disso eu pensei “Sabe de uma coisa? Gosto mesmo de atuar e sou boa nisso, mas me divirto muito mais escrevendo”. Considerando pessoas não brancas, especialmente crianças negras, elas precisam ter acesso e oportunidade, o que não é sempre o caso.

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Não tenho um conselho em particular para roteiristas negros entrarem na indústria do entretenimento, porque depende muito de sorte e oportunidades aleatórias, mas o que posso dizer é: esteja preparado e escreva. É isso que me faz seguir em frente. Nunca na minha vida vou poder entender o momento que me colocou em Atlanta. Eu literalmente estava no lugar certo na hora certa para essa oportunidade. A razão para eu ter conseguido é porque eu estava preparada. Eu escrevia o tempo todo. Eu estava sempre pensando em novas ideias. Meu maior conselho é estar constantemente escrevendo, constantemente lendo, e acima de tudo, ser honesto com o que você ama.

Earn (Donald Glover) e Van (played by Zazie Beetz) numa festa de Juneteenth na primeira temporada.

O que mais gosto em roteiristas é quando eles são autênticos consigo mesmo e escrevem sobre o que querem ver na TV. Isso não deveria se basear no que está na moda agora. Eles não deveriam se afastar de suas inspirações, por mais bobas que sejam. Meu filme favorito é Austin Powers. É um filme ridículo e não tenho vergonha disso – foi a chave que me influenciou, me fez rir e me fez querer entrar para a comédia. Seja verdadeiro com o que te influenciou na sua vida e se agarre a essas coisas. Não se desculpe por elas e por você mesmo. É mais fácil falar que fazer, mas é daí que vem a grandeza. Tem alguma coisa muito excitante em ler um roteiro ou assistir uma série ou filme e pensar “Meu Deus, ninguém mais faria uma coisa dessas”. Ninguém além de Donald Glover poderia criar uma série com esses roteiristas na sala de roteiro. Acho que é por isso que as pessoas gostam de Atlanta: a série tem a voz única das pessoas que escrevem para ela.

Meu mentor provavelmente é Donald Glover, ele sabendo disso ou não. Passamos muito tempo juntos e eu penso nele como um irmão mais velho. Ele é muito inteligente, e a coisa que mais admiro nele é que ele é muito aberto. Eu nunca tinha escrito nada profissionalmente antes de Atlanta, e ele se arriscou me escalando. Ele é genial o suficiente para perceber que precisa de todos os tipos de pessoas, e acho que tem algo grande aí. Estou constantemente observando ele e me inspiro pelas coisas que ele cria.

Paper Boi (interpretado por Brian Tyree Henry) na fictícia Black American Network discutindo ser "transracial".

Se eu pudesse escalar quem eu quisesse para a série, eu chamaria Eddie Murphy. Adoro o Eddie Murphy. Ele anda meio sumido, mas acho ele brilhante. Não sei no que poderíamos usá-lo, mas ele é icônico em comédia, e em comédia negra especificamente, então seria uma honra tê-lo na série.

Meu objetivo no FX é fazer coisas que não foram feitas antes, ou feitas pela voz de uma mulher negra de 25 anos. Espero trabalhar com pessoas com quem adoro trabalhar, que me inspiram e me incentivam a ser melhor.

Atlanta volta ao FX na quinta-feira, 1º de março.

Esta matéria é parte de um esforço da VICE para destacar a contribuição de mulheres negras de todo o mundo que estão fazendo a diferença. Leia mais sobre mulheres negras fazendo história aqui.

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