Veja fotos inéditas do fotógrafo particular do Prince
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Veja fotos inéditas do fotógrafo particular do Prince

Afshin Shahid participou da turnê europeia d'O Artista em 2002 e agora lança livro 'Prince: A Private View', com uma seleção de imagens íntimas e espontâneas.
1.11.17

Matéria originalmente publicada no Noisey US.

Afshin Shahidi conheceu Prince em 1993 em Paisley Park, no set de gravações de um clipe. O câmera havia distorcido um pouquinho a verdade para conseguir o trampo dizendo para o responsável pelas filmagens que sabia como colocar filme em uma câmera. De fato, ele não fazia a menor ideia de como fazê-lo, mas nunca que o nativo de Minnesota perderia a chance de conhecer o icônico Prince. Felizmente as coisas acabaram dando certo a ponto de Afshin ser chamado novamente para trabalhar em outros clipes e projetos cinematográficos com Prince ao longo dos anos.

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Para chegar nesse patamar, Shahidi aos poucos se aproximou do círculo íntimo de Prince, começando como o cara responsável por colocar o filme na câmera, depois como cinematógrafo e por fim como fotógrafo particular de Prince. Ele usava suas lentes de forma a criar um olhar introspectivo dentro do mundo habitado pelo recluso e excêntrico músico que Prince fora, garantindo assim lugar privilegiado junto a um dos maiores artistas de nossos tempos. O fotógrafo teve sua grande chance quando Prince o levou em sua turnê europeia em 2002, apenas para tirar fotos mesmo: foi assim que Shahidi teve contato contínuo e próximo com Prince, tornando-se parte de seu processo criativo. No recém-lançado livro Prince: A Private View (publicado pela St. Martin Press e contando com uma introdução escrita por Beyoncé), o fotógrafo nascido no Irã e naturalizado americano compartilha com os fãs seu acervo de fotos raras do cantor, que capturam Prince como nunca antes. Para o livro, Shahidi literalmente escolheu entre milhares de imagens para compor o produto final, em cerca de 250 fotos, sete das quais publicamos aqui hoje.

Conversamos com Shahidi ao telefone para descobrir como suas fotos capturaram a essência de quem Prince era, como era ser amigo do ídolo e como foi fotografar as lendárias festas no número 3121 de Los Angeles, e o que todos aqueles momentos pessoais, espontâneos e inclusivos revelam.

O primeiro ensaio de Shahidi com Prince: "Ele disse que queria que uma das fotos transmitisse as emoções da música e me perguntou o que eu achava […] Uma das ideias que tive era esperar por uma ligação que nunca viria. Quando começamos a fotografar, tudo parecia bastante real."

Noisey: Como você entrou nessa de fotografia e câmeras?

Afshin Shahidi: A fotografia foi sempre um hobby meu. Tirava fotos de minha esposa, às vezes alguém precisava de um retrato, sempre que podia, fotografava. Desde cedo minha mãe fotografava, então cresci com um quarto escuro no porão e fuçando naquilo tudo, naquela magia de ver uma foto sendo revelada com os químicos e tudo. Naquela época, ainda criança, parecia mesmo mágica, então isso me chamou a atenção. Ao longo dos anos, sendo uma pessoa bastante criativa e visual, fotografia, cinematografia e direção meio que se tornaram minhas paixões, mas crescendo em Minnesota não sabia muito o que fazer com isso tudo e acabei me formando em física na faculdade. Chegada a hora de escolher uma profissão, quis descobrir como entrar no ramo das artes visuais.

Sentado no carro com a mão na janela.

Qual era a técnica utilizada por você ao tirar fotos de Prince e até que ponto ele influenciou as imagens?

Um dos motivos pelo qual mudei de analógico para digital foi o Prince. Ele me perguntou se poderíamos trabalhar com esse formato, já que gostava do resultado imediato. Podíamos então fazer uma foto e então observá-la em uma tela ou na própria câmera e tomarmos algumas decisões, diferente do que acontecia com as fotos analógicas. Acho que por ser iraniano, tenho essa relação com a simetria, algo que gosto e aparece em meu trabalho com Prince. Na maior parte do tempo ele aparece centralizado.

Uma das fotos de Prince favoritas de Shahidi — em uma pequena casa noturna londrina: "Só achei que tudo parecia tão cool."

Quantos das fotos do livro foram produzidas em comparação às mais naturais?

A grande maioria das fotos foi espontânea. As únicas de fato produzidas são os retratos, meio que só cabeça e ombros, olhar fixo na câmera. Ali rolou produção, com luzes e tudo. Todo o resto, como no caso de shows ou pela rua, eu estava com a câmera e ele fazia o que tinha o que fazer enquanto eu fotografava. Vez ou outra via algo de interessante onde estávamos e pedia pra fazer uma foto, mas nunca o fiz posar. Sempre quis capturar tudo da forma mais espontânea possível.

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Como você acha que suas fotos se saíram em capturar a essência de Prince?

Os olhos dele são bastante penetrantes e estão no centro de muitas de minhas fotos. Ele é um cara bonito, belo mesmo. Sinto que os registros que fiz foram dele agindo como ele mesmo, naturalmente, nem sempre muito preocupado com a câmera. É difícil esquecer que a câmera está perto quando estou ali batendo fotos, mas sempre tentei me misturar aos arredores de forma a não chamar atenção. Sinto que dá pra entender quem ele era [através das fotos]. Seu lado apatetado, brincalhão, seu lado mais sério, seu lado mais melancólico. Dá pra ver um pouco disso tudo nas fotos.

Nos bastidores em Milão: "O vi caminhando em meio às cortinas brancas, puxei minha câmera e fiz umas fotos antes que ele terminasse de atravessar o corredor. Não tendo muita certeza se tinha conseguido alguma foto boa, pedi para que ele passasse por ali de novo. Prince riu e disse 'Você sabe que não faço nada duas vezes!'"

Como era o Prince enquanto amigo?

Ele me acolheu, junto de minha família, e nos ajudou de várias formas. Ele conhecia meus filhos, minha esposa, saíamos de férias juntos. A amizade se deu em meio à colaboração criativa. Foi tudo bastante espontâneo e acabamos passando bastante tempo juntos. Ficar ali e ouvir ele falar sobre música, mas também sobre os direitos dos artistas, criatividades e tudo mais. Ele foi meio que um mentor pra mim. Nunca saiu da minha cabeça o fato de que lá estava eu, diante de um ícone, só a gente, jogando conversa fora. Eu não cheguei a me beliscar, mas me questionava se aquilo era real mesmo, sair só eu e Prince? Era bizarro e bem surreal.

Foi uma lição de humildade saber que ele confiava em mim e se importava comigo o bastante para pedir minha opinião criativa e seguirmos como amigos e colegas de trabalho. Ele gostava de fazer piadas e se divertir sempre que possível, coisa que não sabia antes de conhecê-lo. Prince era excelente em muitas coisas, obviamente um multi-instrumentista e vocalista único, mas fora isso, conseguia ganhar de mim na sinuca, no pingue-pongue, no basquete, coisas em que eu era bom mesmo. O cara vivia em um nível completamente diferente.

Em um vôo de Tóquio à Sapporo, no Japão: "Sempre me diverti vendo o Prince em público, mas assim que ficávamos a sós, ele mostrava esse seu lado mais bobo."

Como foi quando Prince faleceu, subitamente? Isso te motivou a organizar o livro como uma espécie de testamento ao legado dele?

Logo que ele faleceu foi tudo bem difícil pra mim, pra minha família e claro, para muitos pelo mundo. Mas ainda mais para quem o conhecia e considerava como amigo. Levei um tempo até pra conseguir olhar as fotos. As pessoas me ligavam e pediam fotos por diferentes motivos e eu nem conseguia consultar meu acervo, aquilo tudo me fazia lembrar de diversos momentos e todas as lembranças que tenho de trabalhar com Prince são muito boas, mas naquele momento era doloroso lembrar, então levei um tempo para me acostumar.

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Recebi muito apoio de fãs do mundo inteiro. Muita gente entrou em contato perguntando onde poderia ver as fotos e se havia pensado em fazer um livro, então comecei a considerar a possibilidade. Eu buscava uma espécie de encerramento, coisa que não consegui ao falarmos de seu falecimento: comecei a vasculhar as fotos e elas me trouxeram lembranças. Foi um momento terapêutico pra mim e me ajudou durante o processo de luto. Em grande parte, fiz tudo pelos fãs, mas pra mim serviu como terapia e se tem gente que pode se aproveitar disso, que ótimo. O objetivo final é dar continuidade ao seu legado de forma significativa e respeitosa.

Sessão em quarto de hotel: "Quem fica bem assim às 4 da manhã?"

O que você quer que as pessoas levem deste livro?

Espero que ele faça as pessoas sorrirem. Espero que elas vejam um lado de Prince que não conheciam. Quero dar continuidade ao seu legado pela Purple Family, como chamamos os fãs de Prince pelo mundo. Somos muito fortes e unidos e quero que as pessoas possam aproveitar este livro de forma a honrar a memória de Prince.

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