guitarra a arder
Imagem: YouTube.

O rock morreu, graças a Deus

Está na hora de encarares a realidade de que o rock foi eclipsado pela pop, pelo rap e pela música electrónica e aceitares que isso pode ser uma coisa boa para o género.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
22 June 2018, 5:24pm

Este artigo foi publicado originalmente na nossa plataforma Noisey.

A frase “o rock morreu” deixa muita gente chateada. Mesmo que digas isto sozinho no topo dos Himalaias, há 30 pessoas com a t-shirt do CBGB que se vão materializar à tua frente para te atirar com um valente, “Bem, então vejamos...”. O assunto é um clickbait muito comum na Internet e defender a honra do rock tornou-se na Introdução ao Jornalismo Musical. A maioria dos muitos, muitos artigos de opinião com o título "O Rock Não Morreu" acabam por usar como argumento os mesmos clichés de sempre.

Às vezes são escritos por jornalistas da velha guarda - amantes da guitarra eléctrica do auge do rock -, que são mais ou menos como aquele meme do director Skinner dos Simpsons, perguntando-se se terá perdido o contacto com a cultura jovem, para depois determinar que não, que os putos é que estão errados. Outras vezes, jornalistas mais actualizados vão apontar que o rock não morreu, está apenas finalmente a evoluir para se tornar mais inclusivo para mulheres e pessoas não brancas, ao mesmo tempo que defendem algumas das suas bandas favoritas. E mesmo que isso seja verdade e algo de positivo, não é disso que as pessoas estão a falar quando dizem que “o rock morreu”. Elas querem dizer que, da perspectiva da indústria, o género foi eclipsado em todas as medidas de popularidade e lucro pela pop, rap e EDM. E, por esses padrões, sim, o rock morreu.


Vê: "O rock de ginga na anca dos The Twist Connection"


É difícil de engolir, eu sei, especialmente para quem não costuma acompanhar o que acontece fora do género. Como é que o rock morreu, se a tua banda preferida acabou de dar um concerto esgotado, ou um novo disco de rock revolucionário foi escolhido como Best New Music pela Pitchfork? Olhando por cima, o futuro parece promissor, mas são meros vislumbres das ondas do oceano que carregam um cadáver flutuante.

Nos últimos anos, as tabelas de rock da Billboard têm sido um abismo de novos artistas pop que às vezes usam guitarras como acessórios (enquanto escrevo isto, os Imagine Dragons estão nos “três mais” da lista de rock), bandas mais velhas que conseguiram infiltrar-se no sistema, como Godsmack e Arctic Monkeys e discos de há décadas atrás que, de repente, são relevantes, porque o seu autor morreu ou por algum motivo está nas notícias. Não sei se há um indicador mais triste do que a banda sonora de Guardiões da Galáxia 2 a dominar as tabelas de rock durante 22 semanas no ano passado, chegando mesmo ao número 1.

O hip hop tem, hoje, um controlo tão forte sobre a música nova, que Kanye West - ultimamente debaixo de fogo por se ter ideologicamente aliado à escória da Terra, lançou um single na brincadeira que rendeu mais de sete milhões de streams e chegou muito perto de entrar para a tabela dos 100 mais da Billboard, enquanto o seu novo disco chegou ao número um. Nem dizer merda ao microfone com o boné oficial da xenofobia na cabeça consegue parar o impulso do hip hop.

O rock é tão irrelevante na indústria da música no geral que os Grammys nem transmitiram o prémio da categoria rock na cerimónia deste ano. Avenged Sevenfold, aparentemente devido a algum engano, foi a banda indicada para “Melhor Música de Rock” no evento, mas teve o bom senso de não aparecer na cerimónia (de qualquer forma, os Foo Fighters levaram o prémio para casa, num momento em que os Grammys correram o forte risco de reconhecer uma banda que existe há menos de 20 anos).

Além dos números de vendas e streaming, a sentença de morte do rock pode ser ouvida no terreno. Não sei quanto tempo é que os defensores de “o rock não morreu” passam entre adolescentes fãs de música, mas recomendo que tentem. Há uns dias, atravessei uma ponte com adolescentes a vomitar no Governors Ball, um festival de Nova Iorque para todas as idades, que apresenta vários géneros. E, quando apresentados a uma variedade de opções musicais, adivinha qual é que a garotada escolheu. Sim, não foi o rock. Japnadroids e The Menzingers, duas bandas médias/grandes, tocaram para plateias meio vazias, enquanto a rapaziada se juntava para ver Hasley e Post Malone.

Mesmo os Gaslight Anthem, os queridinhos do rock que saíram de uma semi reforma para tocarem o disco favoritos dos fãs como atracção principal da noite de sábado, viu do palco um cenário pouco preenchido. Enquanto isso, a alguns metros dali, o mar de adolescentes à espera para ver Travis Scott era tão grande que alguém teve que subir ao palco antes da sua apresentação para pedir à multidão para recuar um pouco, porque as pessoas da frente estavam a ser esmagadas.


Vê: "A música dos Whales a entrar na vida adulta"


Mesmo sendo eu um fã de longa data dos Gaslight, tenho que reconhecer que estávamos em menor número. Enquanto a apresentação da banda de Nova Jérsia se reflectiu num set íntimo com uma simples faixa de pano de fundo, o concerto de Travis Scott parecia uma viagem de ácido em Tóquio - uma festa multimédia com o palco cheio de ecrãs a piscar, máquinas de fumo e lasers, enquanto Scott, de tronco nu, saltava entre os monitores. Para uma geração que cresceu com os filtros do Snapchat e truques de fumo de vaping, claro que esta parece a opção mais atraente.

Até Galantis, que tocaram no mesmo palco que os Gaslight algumas horas antes, atraíram uma multidão mais substancial, apesar de serem, pelo que sei, os Hoobastank do EDM. O concerto é basicamente feito de dois gajos idênticos, mas não familiares, com microfones a gritar para a multidão durante 45 minutos, enquanto chamas de três metros saem do chão. Não ligo à música que tu ouves ou quantos anos tens, mas lança-chamas são fixes e é isto. Mas, fora o aspecto visual, não era difícil ver porque é que os Galantis eram populares num festival para todas as idades. A sua música, mesmo se nunca a ouviste antes, soa muito familiar. Parece um anúncio para um produto cool.

A cobiçada demografia jovem é mais afectada pela publicidade que nunca. As campanhas publicitárias estão em todo o lado e a música pop não é excepção. Mostrar produtos está na base do videoclip moderno, com Miley Cyrus a passar protector labial EOS em “We Can't Stop”, Migos a mostrar (e a cantar sobre) 19 marcas como Chanel e Segway em “Bad and Boujee” e toda a gente na lista de pagamento do Beats by Dre.

Um dos vídeos mais celebrados deste ano - a colaboração de Spike Jonze com FKA twigs - era basicamente um anúncio de quatro minutos das colunas HomePod, da Apple. As empresas fazem uma publicidade tão agressiva para os jovens ouvintes, que mostrar uma marca de uma maneira sofisticada em músicas parece algo omnipresente, o que explica porque é que a música popular, falando objectivamente, é uma chatice. Roubando uma piada a John Mulaney, toda a música hoje em dia é sobre “esta noite é a noite e só temos esta noite”. Portanto não é surpresa que a miudagem nos festivais queira ouvir músicas que pareçam anúncios. Os miúdos querem familiaridade. Os jovens querem música para dançar e meter drogas. Os putos querem Galantis.

Mas mesmo que as coisas pareçam sombrias para o rock, há um lado positivo: este género sempre foi melhor numa posição de underdog. Na verdade, sempre que o rock teve a sua oportunidade no mainstream, alguém foi lá fazer merda e dar cabo de tudo. Pode ser tentador olhar para o boom do grunge nos anos 90 como os dias de glória mais recentes do género, mas é fácil esquecer que os booms geralmente só beneficiam um pequeno número de pessoas, enquanto deixam muita gente de fora. Nirvana, Smashing Pumpkins e Soundgarden são recordados com carinho, mas milhares de outras bandas foram esquecidas - ou, na melhor das hipóteses, conseguiram aquele one hit wonder. Para cada Green Day e o seu mega sucesso Dookie, há centenas de Jawbreakers cujos Dear Yous desapontaram a editora, que imediatamente os varreu para debaixo do tapete da história. Dizem que a maré alta levanta todos os barcos, mas ninguém fala dos náufragos que se afogam.

Outra coisa que acaba sempre encoberta quando relembramos o boom de um género são as consequências vergonhosas. Quando um artista realmente inovador define um novo som, é copiado por toda a gente que vem depois dele e isso costuma durar pelo menos uma década, até que o que resta é uma abominação constrangedora que quase nem lembra o espírito do original. Ten, dos Pearl Jam gerou uma nova onda de scruff-rock em 1991 e, quase 30 anos depois, ainda aqui estamos com Chad Kroeger a fazer a sua imitação de Eddie Vedder nos Nickelback. Isso acontece com todos os géneros; quando o pessoal com menos talento copia e cola uma fórmula para criar algo sem alma que acaba a matar o original. No metal foram os Winger. No pop punk foram os SR-71. No hardcore foram todas as bandas que vieram depois dos Minor Threat.

Todavia, o que vai acontecer ao rock no futuro? Um ressurgimento comercial em breve parece improvável, mas, mais uma vez, The Strokes e várias outras bandas conseguiram um sucesso surpresa no mainstream na viragem do século sem reinventarem muita coisa. Talvez o rock só precise de um prodígio carismático - o próximo Joe Strummer ou Joan Jett - para chegar e arrombar a porta para novas bandas. Mas, tendo em conta quantas bandas de rock excelentes têm agora um status mediano, parece que isso já devia ter acontecido.

Talvez o rock comece a parecer mais atraente em comparação, enquanto o hip hop e a música electrónica envelhecem e incham com os seus próprios SR-71 e Wingers. Ou, talvez o rock como o conhecemos nunca mais se torne uma moda. Pode ir ficando cada vez mais pequeno, enquanto os últimos dinossauros, como Metallica e U2, morrem e o género passe apenas a existir como uma pedra fundamental a que artistas populares prestam homenagem, como quando um rapper faz sampling de músicas antigas de jazz, ou o Jack White finge que toca blues.

Mas, independentemente do que acontecer ao rock no futuro, o género está agora num bom momento, com muitas bandas boas e tantos subgéneros que seria impossível mencioná-los todos aqui. O rock pode estar a ser chutado do topo, mas o seu meio está a expandir-se. Quanto mais a sua popularidade encolhe, mais ele atrai os esquisitos e desajustados - aqueles com algo para provar e nada a ganhar com isso. Quanto mais a tradicional carreira de rock star se desmorona, mais o rock vai levar os verdadeiros e inimitáveis visionários a fazerem coisas inovadoras pela arte em si, não pelo dinheiro. Demasiado esperançoso? Claro. Só que a alternativa é aceitar que as guitarras são o canto do cisne de um cadáver flutuante.


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