Publicidade
Ambiente

Tentei ser completamente sustentável por uma semana

Dizem que "qualquer coisa já ajuda".

Por Annie Lord; fotos por Bekky Lonsdale
05 Março 2019, 12:37pm

A autora a revirar lixeiras. Todas as fotos por Bekky Lonsdale

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

É hora de almoço e estou a fritar batatas numa lata que começa a pegar fogo. Doem-me os ossos de andar de um lado para o outro, o meu cabelo está tremendamente oleoso e estou a cheirar como alguém que passou um festival de música enfiada dentro de um saco-cama ao lado de uma fogueira a comer nada mais que esparguete. Tenho frio, porque o aquecimento está desligado há dias e um vento gelado infiltra-se pelas janelas da minha casa vitoriana em Londres. Quero andar em carros aquecidos, ver documentários de crimes reais e ter gordura de hambúrguer a escorrer-me pelo meu queixo. Estou tão cansada.

Este não é o monólogo interno da protagonista do novo filme de Will Smith, I Am Legend: O Reboot. Isto é o que se passa na tua cabeça depois de uma semana a tentares ser totalmente sustentável. Viver sem electricidade e aquecimento em pleno Inverno pode parecer extremo, mas achei que era um passo lógico quando tens em conta o quanto o Planeta está fodido. No final de 2018, o Painel Intergovernamental de Alterações Climáticas da ONU (IPCC em inglês) alertou que nos restam apenas 12 anos para “limitar” uma catástrofe provocada pelas alterações climáticas.


Vê: "Shane Smith investiga o verdadeiro custo da negação das alterações climáticas"


É frustrante o quanto dessa conversa sobre limitar as alterações climáticas se foca na necessidade de o indivíduo “fazer a sua parte”. Será que fazeres compostagem de caroços de maçã e obrigares o barista a usar o teu copo reutilizável para o café vai, realmente, facilitar uma mudança, quando os supermercados continuam a embrulhar todos os vegetais em plástico? Que diferença é que uma pessoa pode fazer enquanto os governos continuam a permitir o fracking (uma prática comum levada a cabo por companhias de petróleo), insistem em cancelar subsídios para energia limpa e cortam o orçamento para a gestão do nosso lixo e reciclagem?

Portanto, enquanto os governos se recusam a fazer qualquer coisa significativa, o ímpeto da mudança continua a ser individual. Se esse vai ser o caso para o futuro previsível, temo que será preciso bem mais do que lembrares-te de apagar as luzes. Assim, durante uma semana, vou tentar ser o mais auto-suficiente e sustentável possível, a forragear, a plantar sementes, a catar comida do lixo e a trocar papel higiénico por jornal velho, em nome do “qualquer coisa já ajuda”.

1551107165636-BekkyLonsdale-1
A autora na Harringay Local Store.

Para começar, preciso de mantimentos. Obviamente, nada de carne ou laticínios – porque a agropecuária usa uma quantidade inacreditável de água, o que significa que só posso comer vegetais. Poderia visitar a horta comunitária local, mas nada ali vai nascer até Maio. Pensando no futuro, preparei o chão do meu quintal para ser adubado com restos de comida compostados – uma parte importante de preparação, já que (boas notícias!) especialistas dizem que temos menos de 60 colheitas até ao solo do Mundo estar demasiado gasto para produzir o que quer que seja.

De forma a garantir que não vou morrer de fome só para escrever conteúdo, a minha melhor opção é a Harringay Local Store, uma loja que vende produtos da quinta, atolhada de massa de lentilhas e pais que compram óleo para a barba e recebem o novo disco dos Prodigy no Natal. Mesmo não tendo cultivado estes produtos eu mesma, há aqui alguns pontos positivos: a mercadoria é orgânica e produzida localmente, o que significa o mínimo de químicos e produção de carbono possível.

1551107905412-BekkyLonsdale-7

Hora de cozinhar. Corto os meus vegetais, deposito todas as sobras no meu novo compostor lá fora, o que é bastante fácil. Também comprei outro compostor para as sobras já cozidas.

1551107199738-BekkyLonsdale-10
A autora a cozinhar com fogo.

O meu fogão é a gás, algo que algumas pessoas querem proibir em futuras construções residenciais, já que vem de combustíveis fósseis e produz emissões de gás de efeito estufa. Com isso em mente, decidi assar os vegetais directamente no fogo, usando uma lata de metal.

1551107929846-BekkyLonsdale-14

Parto umas cadeiras que encontrei na rua para usar como lenha. O método é menos "fumo de madeira” e mais “provavelmente queimar tinta venenosa para cozinhar uns pimentões”, mas não estou a reclamar: o prato final ficou com um gosto bom e fumado, mesmo que as batatas tenham ficado demasiado cruas.

sustainable food
A refeição da autora, cozida diretamente no fogo.

O problema, como descubro depois, é que queimar madeira é, na verdade, menos sustentável que queimar gás; liberta mais CO2 e produz menos calor. Portanto, não faça isto! Não tentes melhorar as coisas e acabes a piorar tudo! Em vez disso, usa um fogão de indução. Sim, aqueles que montam nesses apartamentos conceptuais modernos são uma merda, mas também são a opção mais ambiental que temos.

Na manhã seguinte, foco-me em substituir os meus produtos de beleza por coisas que não vão entupir as tripas de um peixe. Em vez de deitar fora um monte de toalhitas desmaquilhantes, compro lenços reutilizáveis. Também compro desodorizante, spray de cabelo, perfume e champô não-tóxicos, já que estudos descobriram que esses produtos – além de químicos como pesticidas e tinta de impressora – são responsáveis por metade de todas as emissões em pelo menos 33 cidades industrializadas.

1551107361438-BekkyLonsdale-21
homemade fake tan
Auto-bronzeador caseiro.

Infelizmente para mim, auto-bronzeador é, geralmente, vendido em embalagens plásticas poluídas com químicos, por isso digo adeus ao meu St Moritz e, segundo uma receita, misturo cacau em pó com uma loção eco-friendly. A mistura resultante tem um cheiro óptimo – mais chocolate quente que o cheiro de biscoitos de curry que normalmente exala dos meus braços – e a cor parece uma “queimadura antes do bronzeado” natural.

homemade face mask
Máscara caseira de cúrcuma.

Também faço uma máscara caseira de cúrcuma que parece agradavelmente esfoliante, mas tem o lado negativo de imediatamente manchar a minha cara de amarelo.

Agora que resolvi o meu skincare, analiso o consumo de água. Água da torneira drena energia, porque os centros de tratamento municipais usam vários recursos para purificar a água. Conversores de água da chuva que alimentam os canos podem custar mais de dois mil euros – um hack para casa só imaginável para o tipo de casal ricaço que vês na série de televisão Grand Designs.

1551107476924-BekkyLonsdale-25
1551107523025-BekkyLonsdale-29
1551107539203-BekkyLonsdale-28

Mas, posso ingerir água da chuva de outra forma, com uma dessas garrafinhas de filtro para viagem vendidas para homens que sonham em ser o Bear Grylls, mas que nunca, nem se precisassem mesmo, beberiam xixi. Recolho um pouco de água meio castanha de um lago e vejo a minha garrafa fazer a sua magia, até o líquido brilhar e ficar com sabor a água Fiji.

jason irving forage
A autora com o especialista em forrageamento, Jason Irving.

Quando não sobrar nada para comer a não ser creme de milho enlatado, será útil saber como forragear, portanto fui a Hampstead Heath a meio da semana para almoçar. Prefiro não morrer a comer um cogumelo venenoso, por isso encontro-me com o experiente forrageador Jason Irving, um homem que vê alimento onde outros vêem um sítio para o cão mijar.

Além de urtigas, amor-de-hortelão e azedas-bravas, encontramos sementes de heracleum, alho-das-vinhas que – quando desfazes em baixo do nariz – cheira a frango à Quieve e orelha-de-Judas, um fungo que faz lembrar uma orelha cortada.

foraging hampstead heath

Jason é muito poético sobre a Natureza que estamos a colher. Sobre flores de torjo diz: “Alguns dizem 'beijar vai sair de moda quando o torjo não florescer', porque floresce o ano todo”. Sobre língua de ovelha diz: “Os nativos americanos chamam a esta planta de 'pegadas do homem branco', porque florescem em solo pisado”.

food foraging hampstead heath

Caminhando pelo parque, Jason reflecte sobre os desperdícios da sociedade e como mesmo as pessoas que tentam viver de maneira mais sustentável podem ainda cometer erros. “Vi um tipo colocar Chenopodium album no compostor – [uma planta] com sabor parecido ao do espinafre. Ele provavelmente ia comprar sementes de espinafre, sem saber que já tinha a alternativa nas mãos”.

Penso naquele momento em que estava no meu quintal a preparar o solo e a arrancar raízes delicadas, plantas que poderia ter secado para fazer chá, ou misturado com pinoli para fazer molho pesto. Não menciono isto.

foraging hampstead heath

Forrageamento pode ser uma forma de conseguir alimentos livres de combustível fóssil ou de mão-de-obra mal paga, mas não é algo encorajado, com leis no Reino Unido a proibirem a remoção de plantas. Em 2010, a Corporation of London – proprietária das florestas Heath e Epping – proibiu a colecta de cogumelos, argumentando que era uma prática que ameaçava a ecologia, mesmo com estudos que sugerem que é tão prejudicial pisar cogumelos como colhê-los.

“As pessoas são contra o forrageamento, porque pensam 'Deixem a Natureza em paz'”, explica Jason. E acrescenta: “Mas, se não consegues comida através de forrageamento, tens de a conseguir de algum lugar, o que vai ter um impacto ambiental. Se não comes verduras de Heath, vais precisar de feijões do Quénia ou espargos do Peru”.

girl preparing food

No dia seguinte, faço sopa de urtiga com as folhas e cogumelos que colhemos. Está bem, mas tenho de melhorar o sabor com ingredientes que comprei na loja.

foraged nettle soup

O forrageamento pode ajudar a usar coisas que de outro modo apodreceriam na Natureza, mas é difícil ver como é que isso pode contribuir de uma forma significativa para uma vida mais sustentável.

Tendo em conta o tempo que demora, podes não conseguir forragear regularmente; ninguém vai chegar do trabalho às 19h30 depois de um dia inteiro a analisar dados e procurar amoras nos arbustos perto de casa. Além disso, se muitas pessoas fizerem forrageamento, vão acabar por esgotar esses alimentos da Natureza, certo?

bin diving for food

É o último dia da minha semana sustentável, hora de mergulhar nas lixeiras. Passo a noite a revirar lixeiras comerciais enquanto pessoas olham para mim com ar estranho. Depois de encontrar apenas potes vazios de cream cheese, caixas de pizza engorduradas e embalagens de manteiga, o estigma de procurar comida no lixo atinge-me.

A minha última esperança é o lixo da M&S, que de acordo com grupos de dumpster diving no Facebook, são a terra prometida da comida desperdiçada: cheio de humus de pimentão e bife borgonhesa. Mas, quando lá chego, vejo que as lixeiras estão atrás de uma cerca eléctrica com cadeado.

dumpster diving

Recolher comida do lixo (o tal dumpster diving) sempre foi ilegal, mas recentemente os supermercados aumentaram a sua segurança, às vezes chegam até a despejar tinta azul no lixo para o tornar não-comestível. Um casal foi preso por tirar asas de frango, pão e queijo de lixeiras da Tesco depois que de perderem os subsídios de ajuda estatal e foram publicamente humilhados.

Depois de uma noite sem sucesso, estou com desejos de um shawarma de cordeiro bem gorduroso e de ver a minha pele a ficar rosada debaixo do chuveiro quente. Antes de perder o controlo, vou pra casa e descongelo algumas salsichas vegetarianas. É considerado auto-suficiência roubar comida à tua colega de apartamento?

compost bin

Alguns aspectos da minha "jornada" vão continuar comigo. Vou curtir sentir-me a Deliciously Ella com o meu novo champô de coco. Mal posso esperar para fazer sugara börek turco com urtiga em vez de espinafre. Mas, até ter mais tempo ou dinheiro, as outras práticas sustentáveis vão para a lixeira metafórica e literal – o lugar reservado para o meu esfoliante com microesferas.

Os métodos mais acessíveis de sustentabilidade continuam ligados ao consumo: ou seja, realmente deveríamos estar a consumir muito menos e a reutilizar muito mais. Além disso, os benefícios dos produtos que comprei – apesar de ajudarem a reduzir o lixo e a poluição – não parecem fazer uma grande diferença tendo em atenção as 1,9 milhão de toneladas de alimentos desperdiçados pela indústria alimentícia do Reino Unido todos os anos, que poderiam ser redireccionadas para evitar importações de outros países; ou se o governo realmente seguisse o conselho de especialistas e implementasse políticas verdes; ou se a indústria fosse obrigada a reduzir radicalmente as suas emissões.

Mais uma vez, a questão resume-se a responsabilidade individual versus responsabilidade institucional. O futuro da sustentabilidade não está em lojas glamourosas que reduzem o seu lixo, no feed dos influencers de Instagram que vendem leite de amêndoa, ou na proibição performática das palhinhas de plástico. O futuro está mais próximo de reenquadrar totalmente a forma como vivemos e a forma como as empresas são responsabilizadas por afectarem as nossas vidas. Ah, e em não fazer uma fogueira para cozinhar a janta.


@annielord8 / @bekkylonsdalephoto

Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.