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A carne de laboratório não vai consertar o Planeta que o capitalismo rebentou

É claro que precisamos de uma mudança estrutural na sociedade para abordar as alterações climáticas. Quando o assunto é a carne, temos uma perspectiva desoladora.

Por Caroline Haskins; Traduzido por Madalena Maltez
04 Março 2019, 3:59pm

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Em Fevereiro último, um artigo publicado no jornal científico Frontiers in Sustainable Food Systems colocava uma pergunta bastante razoável: a longo prazo - digamos, um milénio? -, a carne cultivada em laboratório emite realmente menos gases de efeito de estufa do que a carne convencional.

No final do artigo, os investigadores argumentam que carne cultivada em laboratório não é, necessariamente, mais sustentável do que certos cenários de produção de carne, porque a de laboratório emite dióxido de carbono, que fica na atmosfera mais tempo do que o metano produzido por vacas vivas. Mas, não é assim tão linear. Primeiro, o estudo só tem em conta emissões de carbono de transporte em um dos três cenários de transporte de carne e nenhum dos cenários para carne cultivada em laboratório.


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O estudo também não teve em conta o desperdício de comida, o acesso a alimentos e distribuição com a agropecuária convencional, o que afecta o seu impacto ambiental. Também não considerou as grandes emissões do desmatamento, que destroem lugares onde o carbono é sugado pela Terra. Há mais desmatamento a ser feito para suportar a criação de gado. Em regiões como a Amazónia, cerca de 80 por cento do desmatamento é feito para a criação de gado. Segundo o capítulo 11 do Quinto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), o fluxo de gases de efeito estufa associados a terras de agricultura são responsáveis por 9-11 por cento de todas as emissões humanas. E, ainda, as cadeias de fornecimento de gado respondem por outros 14,5 por cento das emissões de gases de efeito estufa.

O estudo diz que as emissões de dióxido de carbono de carne cultivada em laboratório podem ser mais altas do que as emissões de metano de carne comum, mas salienta que “se deve ter em conta que a estimativa equivalente a toda a pegada de dióxido de carbono de carne cultivada, incluindo o extremo da análise de sensibilidade, é mais baixa que aquela de todo o sistema de gado nesta investigação”. Por outras palavras, carne normal vai sempre emitir mais dióxido de carbono e metano do que carne cultivada. John Lynch, um dos líderes da investigação, diz à Motherboard por e-mail: “Este é um dos pontos-chave do estudo: que a nossa pegada de dióxido de carbono convencional não pode dar uma resposta completa à forma como emissões diferentes afectam o clima”.

Estes investigadores não foram as primeiras pessoas a examinar o impacto ambiental de carne cultivada em laboratório. Mas, praticamente todos os estudos anteriores sobre o tema, quatro deles citados no artigo, concluem que a carne cultivada em laboratório é mais eco-friendly do que carne normal. Os investigadores argumentam que, alguns desses estudos, não tiveram em conta que o dióxido de carbono fica na atmosfera por mil anos, enquanto o metano fica na atmosfera por apenas doze - o que é justo.

Neste estudo, as versões de 2013 a 2015 de carne de laboratório continuam a emitir menos gases de efeito estufa do que a carne comum durante quase 200 anos. Na maioria dos cenários, múltiplas versões de carne de laboratório nunca emitem mais gases de efeito estufa do que carne comum (os investigadores apresentaram quatro métodos de carne de laboratório e três métodos de produção pecuária. Também mapearam três cenários de consumo: consumo perpétuo, uma diminuição de um século a terminar em consumo zero e um aumento do consumo seguido por um declínio).

É muito improvável que métodos de produção de carne de laboratório continuem os mesmos e não se tornem mais eficientes no que respeita a emissões nos próximos 10, 20 anos – quanto mais 200-1000 anos. A carne cultivada em laboratório nem existia até 2013. Os avanços científicos vão acontecer rapidamente, os esforços de engenharia de tecidos estão a expandir-se muito depressa e a carne de laboratório pode chegar a mercados comerciais em menos de cinco anos.

 Screenshot from the study, edited by Caroline Haskins to show the points at which emissions for lab-grown meat surpasses the emissions for regular beef.
Imagem: Screenshot do estudo, editado por Caroline Haskins para mostrar os pontos onde emissões de carne da laboratório ultrapassam as emissões da carne comum.

Ainda assim, é bom que estes investigadores tenham analisado carne de laboratório com um nível tão alto de escrutínio, porque são estudos como este que realçam o facto de que versões futuras de carne de laboratório devem ser pensadas, desde logo, para emitir menos carbono. Não só é o que é justo, como também é necessário priorizar inovações com emissões mais baixas.

Hoje, a captura de carbono está a receber milhões de dólares em financiamento, mas os resultados são medíocres. De momento, isto não é uma tecnologia realista, tanto financeiramente como em termos de logística, para implementar a larga escala. No “Relatório 1,5 Graus” de Outubro do IPCC, cientistas de todo o Mundo disseram que a recaptura de carbono é necessária, mas só deve tirar uma pequena quantidade de emissões em excesso num cenário em que emissões de carbono estão um pouco acima de zero.

“A velocidade da transição e a mudança tecnológica exigidas para limitar o aquecimento de 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais tem sido observada no passado, dentro de setores e tecnologias específicos”, diz o relatório. “Mas as escalas geográficas e económicas em que as taxas de mudança exigidas em sistemas de energia, terras, urbanas, de infraestrutura e industrial que precisam de acontecer são maiores e não têm precedentes históricos documentados.”

Agora estamos a emitir mais de 32 gigatoneladas de carbono anualmente (uma gigatonelada são mil milhões de toneladas métricas). Resumindo, a tecnologia de recaptura de carbono não é uma solução para os nossos níveis de consumo actuais. Não há perigo na inovação tecnológica em si. Em vez disso, há perigo em como as inovações tecnológicas se desenvolvem dentro de uma economia global maior.

“Acho que, realmente, precisamos de uma boa quantidade de inovação”, explica Matthew Huber, professor de geografia da Universidade de Syracuse, à Motherboard por telefone. E acrescenta: “Mas, acho que, na nossa sociedade actual, as inovações são estritamente guiadas pelo lucro. Esse é o problema. Só perguntamos que inovações vão dar dinheiro aos investidores privados”.

Daniel Nyberg, professor de negócios da Universidade de Newcastle na Austrália, realça à Motherboard por e-mail que essas inovações tecnológicas estão ao serviço da economia tal como ela é. “Estamos basicamente a tentar reconfigurar materialmente a Terra para não termos que reconfigurar a nossa economia”, justifica Nyberg. Mas, num cenário mais amplo, essa dualidade entre precisarmos de inovação tecnológica e ainda não podermos contar com ela, existe em cada conversa de nicho sobre como prevenir as piores consequências das alterações climáticas. As alterações climáticas são uma doença das instituições do Mundo.

Charles Derber, professor de economia política do Boston College, avança à Motherboard por telefone que a inovação tecnológica é algo bom e necessário para uma mudança rápida no Mundo, mas, muitas vezes, funciona apenas como um chavão político, que sufoca conversas mais complexas sobre instituições económicas e alterações climáticas. “Inovação, na minha opinião, é uma linguagem para legitimar a negação das forças estruturais que são realmente fundamentais para lidar com a questão das alterações climáticas”, diz Derber. E salienta: “Se disseres 'bem, vamos inovar para sair desta', não só estás a dizer que a estrutura básica da economia é compatível com resolver as alterações climáticas, como também que essa é a melhor maneira. É um discurso muito perigoso, porque não só coloca a tecnologia como a base para a solução e o problema, como também afunda as pessoas ainda mais no sistema económico que está a alimentar o problema”.

O Relatório 1,5 Graus do IPCC diz que as instituições públicas e privadas que organizam o Mundo como o conhecemos têm de mudar. Isto se quisermos evitar os piores efeitos do aquecimento global. O relatório afirma que precisam de ocorrer grandes mudanças em “escolhas tecnológicas e arranjos institucionais, consumo e estilo de vida, infraestrutura, uso de terras e padrões espaciais”, para apoiar mudanças em produção e no uso de energia, transporte, de terra e de infraestrutura urbana.

Quando se trata de comida, isso significa que factores como “agricultura de conservação, gestão melhorada de gado, aumento da eficiência de irrigação, agro-silvicultura e gestão de perda e desperdício de comida” terão que ser regulados institucionalmente. Mesmo a nível individual, o relatório afirma que, esse apoio institucional, deve permitir escolhas de dieta, como comer menos carne (claro que o relatório aponta que não é claro como é que esse apoio institucional para mudanças dietárias poderia ocorrer na prática).


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Está claro que precisamos de uma mudança estrutural na sociedade para abordar as alterações climáticas. O problema é que os países do Mundo são governados por instituições neoliberais, criadas para tornar o Planeta seguro para o capitalismo. No seu livro Globalists: The End of Empire and the Birth of Neoliberalism, Quinn Slobodian explica que instituições de mercado extra nacionais, como o Banco Mundial, Organização Mundial de Comércio e o Fundo Monetário Internacional foram pensados para proteger o capitalismo como sistema económico. Agora, como diz o ditado, “é mais fácil imaginar o fim do Mundo do que imaginar o fim do capitalismo”.

Em praticamente toda a indústria, lucro máximo é incompatível com adaptações apropriadas para as mudanças climáticas. Vimos isso na indústria de serviços públicos, por exemplo. Empresas de serviços públicos privadas são guiadas pela “mão do mercado” para manter os seus activos de combustível sujo e nunca fazer a transição para energia renovável, apesar desses activos serem inseguros e, muitas vezes, abastecerem incêndios descontrolados. Segundo o relatório Climate Change Communication do Yale Programa, 85 por cento dos eleitores norte-americanos registados querem que as suas companhias locais de serviços públicos façam a transição para energia renovável. As forças do sector privado têm métodos e incentivos de negócio fundamentalmente não-democráticos.

Por todas as linhas de partido, a maioria dos cidadãos norte-americanos querem que as corporações combatam as mudanças climáticas. Mas, as empresas já deixaram claro que não vão agir por vontade própria e, até empresas de tecnologia, perceberam que podem ganhar dinheiro acelerando a crise climática. Num relatório recente do Gizmodo, descobriu-se que empresas como a Amazon, Google e Microsoft prestam serviços de computação para empresas de petróleo e gás, para optimizar as suas operações e maximizar os seus lucros.

Trump justificou a sua tentativa de sair do Acordo Climático de Paris ao dizer que os acordos propunham “fardos financeiros e económicos” especificamente sobre os EUA. Mas, a maioria dos eleitores registados acham que o país precisa de fazer os possíveis para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa, independentemente do que os outros países estão a fazer - isto em Dezembro de 2018. A justificação capitalista de Trump para não agir sobre as alterações climáticas não importa para os eleitores.

Agora, falemos sobre carne. Cerca de 80 por cento da carne norte-americana é processada por apenas quatro companhias: Tyson Foods, Cargill Meat Solutions, JBS USA e National Beef Packing Co. As condições neoliberais e “market-friendly” que permitiram que essas empresas fizessem o maior lucro possível, não são compatíveis com os limites de emissões de gases de efeito de estufa da carne. A regulamentação que visa uma “agricultura de conservação, melhoria de gestão de gado, aumento da eficiência de irrigação, agro-silvicultura e geestão de perda e desperdício de alimentos”, como o IPCC recomenda, vai prejudicar as margens de lucro das empresas que compram, embalam e vendem carne.

O nosso problema não é que a carne de laboratório possa, sob condições muito específicas, emitir mais gases de efeito estufa que certos tipos de carne durante várias centenas de anos no futuro. O nosso problema é que construímos instituições económicas globais pensadas para proteger o lucro privado às custas de vidas humanas. O nosso problema não é a carne cultivada em laboratório. O nosso problema é o capitalismo.


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