Cultura

Trocámos umas ideias psicadélicas com os criadores de "Rick and Morty"

Justin Roiland e Dan Harmon falam sobre ácido, conspirações, alienígenas e a natureza da consciência.

Por Mike Pearl
24 Julho 2017, 12:47pm

Imagem via Cartoon Network.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Rick and Morty, da Cartoon Network, com o seu público enorme e elogios da crítica, é, provavelmente, tido actualmente como o mais alto padrão da animação para televisão. No entanto, como o co-criador da série, Dan Harmon, me confidenciou numa recente conferência de imprensa em Los Angeles, até agora só foram para o ar 21 episódios e isso não é assim tanto material que chegue para uma avaliação pertinente.

A comunidade de fãs cresceu consideravelmente durante os quase dois anos de hiato da série e, segundo Harmon, "isso aconteceu mesmo com todo o atraso na conclusão da terceira temporada. A coisa cresceu sozinha".

E, durante essa pausa, aconteceu muita coisa alucinada no Mundo real. Deixando as surpresas políticas dos últimos dois anos de lado, Alex Jones tornou-se, de alguma forma, um comentador político proeminente e teorias da conspiração e o apocalipse transformaram-se em temas de conversa do dia-a-dia. O que só pode ser bom para uma série sobre um cientista louco com uma queda por conspirações, que está permanentemente a acabar com o Mundo. Na verdade, no episódio mais recente, Rick refere-se aos ataques do 11 de Setembro como uma "desculpa para nos tirarem as nossas liberdades" - um facto que eu nem sequer teria percebido, não fosse pela intensidade febril com que os fãs dissecaram a frase na Internet.

Outro co-criador de Rick and Morty, Justin Roiland, alerta-me para não ler muito sobre essas coisas. Diz-me que se mantém longe da política o máximo possível e isso inclui as políticas do universo de Rick and Morty. "Mais ou menos acabamos por seguir em frente. Acontece e depois acaba por acontecer outra vez". Acrescenta ainda que evita teorias online sobre a série, porque "essas coisas vão acabar por se infiltrar no meu cérebro".

Harmon e Roiland aceitaram conversar um pouco mais comigo sobre todas estas coisas e as teorias da conspiração tornaram-se a base para falarmos da natureza da consciência, experiências psicadélicas e as lesmas alienígenas que nos observam secretamente, enquanto vivemos a simulação que é a nossa suposta vida real.

A conversa abaixo foi editada para maior clareza.

VICE: Rick and Morty não é uma série política, mas esta é a primeira temporada desde que os EUA foram completamente consumidos por política e Rick é um tipo muito anti-governo e meio libertário. Vocês conversam na sala dos guionistas sobre o facto de andarem nessa corda bamba?
Dan Harmon: Já tínhamos saído da sala do guião quando surgiu a noção de que a política seria importante - e não apenas numa esfera estranha e diferente. Acho que podemos falar sobre as políticas de Rick, no sentido de que ele é muito distante disso e vê tudo tão de longe que seria virtualmente impossível traduzi-las para o espectro dos terráqueos.

Porquê?
Harmon: Simplesmente, porque Rick - apesar de alguém poder sentir-se assim sobre certas filosofias políticas - é realmente auto-centrado. Ele vê uma imagem tão maior e tem "um peixe tão grande para fritar", que qualquer coisa terrestre que, bem... Qual seria a coisa mais próxima de que poderias apelidá-lo (se fosses um humano a tentar explicar Rick a outra forma de vida) num espectro político? Eu usaria a palavra "anarquista". Ele não gosta de receber ordens de ninguém. E sim, é isso que os libertários dizem, mas também reconhecem a existência de outros libertários e dizem que, se deixares os outros fazerem o que quiserem, vai ser tudo espectacular. Não acho que Rick acredite nisso.

Então, o que é que ele pensa?
Harmon: Acho que ele pensa que, se deixares toda a gente fazer o que quiser, vai conseguir safar-se e que sabe que, sempre que se tenta ter um governo, a coisa acaba em nonsense. Ele seria tão apaixonado por acabar com o governo como por votar, ou seja, o equivalente a nada. São ambas coisas insignificantes para ele.

E como é que isso se relaciona com o que acontece no arranque da temporada três?
Harmon: No [episódio] 301, o que vês é que, para ele, desmantelar toda a federação galáctica é a mesma coisa que aparar a relva. Ele fá-lo para poder voltar para a sua vida confortável. E fica ressentido com Jerry por o obrigar a fazê-lo e, portanto, elimina Jerry da sua vida. É muito fácil dizer isto na sala dos guionistas - e não prevejo nenhum problema. Toda a gente sabe que Rick não votaria em ninguém. Estaria perfeitamente a marimbar-se para o assunto.
Justin Roiland: Ele diria algo tipo: [voz de Rick] "Quem se importa? Game of Thrones!"
Harmon: Ele é muito como o Justin. O Justin não se envolve com essas coisas, tem os seus próprios planos para colecções de Lego e coisas assim. Se Justin tivesse um QI de 3.000 e pudesse flutuar pelo espaço e pelo tempo, Rick seria assim. Acho que o Justin não marcharia por nada, provavelmente estaria a coleccionar coisas estranhas e a construir o seu arsenal.
Roiland: Não de um ponto de vista apático, seria mais tipo: "O que é que posso fazer? Como é que alguma vez poderia ajudar alguém?"
Harmon: Esse é exactamente um ponto de vista apático.
Roiland: Verdade.
Harmon: Mas isso é bom! É melhor do que alguém com esse grau de poder a decidir que o seu trabalho é salvar as pessoas de si mesmas de qualquer maneira. Isso é muito perigoso. Se Rick fizesse outra coisa além de procurar seja lá o que ele está a procurar, causaria ainda mais danos do que já causa.
Roiland: Ele poderia [voz dramática] escravizar mundos se quisesse!

Mas no episódio 301, Rick olha mesmo para a TV durante o 11 de Setembro e diz que foi uma desculpa para "nos tirarem as nossas liberdades"?
Roiland: Acho que sim! Acho que podemos dizer que foi tudo conversa fiada - mas não sei. Foi uma piada que nos fez rir bastante.
Harmon: Se analisares o cânone desse episódio, acho que tem que ser tecnicamente uma construção, porque o insecto nunca sai de Shoneys e tem que acreditar que saiu. Portanto, é muito possível, acho eu - e provavelmente necessário -, pensar-se que as coisas fora da janela são construções. Agora, qual é a forma mais fácil de construir alguma coisa? Copiar e colar. Porque é que construirias algo a partir do zero, quando podes simplesmente fazer um exemplo de algo que já existe e mudares o que quiseres mudar? Por isso, acho que depende. Onde é que Rick estava em 2001?
Roiland: Exacto! Onde é que ele estava, caraças? Provavelmente em alguma realidade baseada na Terra, que é muito semelhante àquela em que eles estão agora. Gosto de como ele disse logo "Ah, eu sei o que é isso!".


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Para vocês, de onde veio a ideia de Rick ser meio que um truther do 11 de Setembro?
Harmon: Isso é baseado na minha realidade. Foi exactamente assim que reagi ao 11 de Setembro. Não estou a brincar. Estava ao telefone com o meu amigo Rob Schrab e foi exactamente isso que lhe disse - o que agora me deixa totalmente envergonhado! Mas, olhei para trás e pensei "Ah, isso é um personagem". Um gajo que acorda de manhã, vê pessoas a morrer, enquanto está de cuecas na sala de casa a olhar para uma tragédia nacional a desenrolar-se à sua frente e a primeira coisa na minha cabeça era "Eles vão mudar o nome do país. Vão mudar as nossas liberdades e isso vai afectar a minha busca pessoal pelo conforto". É uma coisa bastante fodida.

Mencionaste anteriormente que tentas manter-te afastado de teorias de fãs. A minha questão não é sobre as teorias em si, mas sobre como elas se formam. Vês alguma ligação entre conspirações e esse tipos de teorias?
Harmon: Sim, 100 por cento. Acho que quando JFK foi assassinado, a parte do nosso cérebro que estava pronta para ligar todos os pontos necessários para provar que havia alguma ordem naquilo e que era uma ordem sinistra, são os mesmos químicos no nosso cérebro necessários para escrever histórias - e isso inclui fanfic.

Dizes que isso inclui fanfic, mas há mais alguma coisa que aches que esteja envolvido nessa parte de criação de histórias no cérebro?
Harmon: Quando coisas más acontecem a pessoas boas, quando os nossos amigos ficam doentes, quando nós ficamos doentes, quando o governo muda de mãos, quando olhas para um mapa e consegues imaginar quantos cães e gatos de rua estão ali a ser negligenciados, podes começar a olhar para aquela caixa do "O Que a Realidade Realmente É" e é a parte criativa do teu cérebro que te puxa para fora da tua caixa e diz: "Sim, mas é assim: há heróis, bandidos, tiroteios, e histórias, amor e paixão. E há transformação, há mudança". Quando sentes esse surto mental a acontecer, isso quer dizer que estás a ficar mais esperto. Estás a crescer. Estás a herdar o universo. Estás cada vez mais perto de uma coisa chamada "Deus" e "vais superar isso. Vais passar por isso".

É como quando tens uma bad trip de cogumelos ou ácido e o teu amigo diz "Está tudo bem. É normal. Mesmo que as paredes estejam a falar contigo. Só tens de comer uns gomos de laranja. Tens de passar por isso e é importante que esteja a acontecer. Dá-te perspectiva". Se não fosse por isso, pensarias "Isto é uma loucura, estou louco, portanto nada importa, acho que vou fazer alguma coisa horrível em público".
Roiland: Então, usa mesmo ácido e JFK foi um trabalho interno.

Ah, não precisas de me dizer isso a mim. Mas, uma teoria de fã que eu queria abordar é essa ideia de que Rick sabe que é um desenho e que vemos isso quando ele "arromba" a quarta parede. É idiotice?
Harmon: Isso começa sempre do lugar, tipo, se estou a viver a minha vida ideal, onde passo pelas galáxias e pelas linhas do tempo - onde estou vivo vai-se lá saber há quanto tempo e vi tantas batalhas fatais e vivi para contar a história - quando estou contra a parede numa luta de espadas com Drácula, porque é que eu não olharia para uma câmera inexistente e diria "Voltamos já".
Roiland: [Risos]
Harmon: Porque é que fazemos coisas destas quando estamos em bares e lugares desse género? Alguém diz alguma coisa e nós dizemos "A conta, por favor!". Por isso comecei daí e digo "isso é explicável através dessas lentes, ou o Rick é apenas meio louco?".
Roiland: Acho que é só uma coisa estúpida. Para mim é apenas engraçado.
Harmon: Mas, essa é uma teoria de fã de que gosto.
Roiland: É, [voz dramática] ele sabe.
Dan Harmon: A ideia de que em algum nível, Rick não só é consciente de múltiplas realidades, mas múltiplas camadas de realidade...
Roiland: A sexta dimensão...
Harmon: Ou, em teoria de simulação...
Roiland: Alguém está a ver! Sim, é verdade. Teoria da simulação. Há, neste momento, uma parede de monitores em algum lado e lesmas gigantes alienígenas estão a ver-nos.
Harmon: Fui para Tulum com a minha namorada e o lugar era tão bonito, estava tão apaixonado por ela e, como sou um tipo niilista e orientado por ficção científica, a forma como lidei com esse amor foi imaginar que, enquanto eu a olhava nos olhos, estava a ganhar um jogo, que todos os meus amigos estavam a ver-me jogar esse jogo de piñata - o jogo do Roy, de Rick and Morty - e que eles estavam a torcer por mim, enquanto eu a olhava nos olhos. Porque é nesses momentos que percebo que o sentido da vida é perceber como tenho sorte. E enquanto falava com ela, estava realmente noutro lugar, numa sala cheia de criaturas-polvo, a verem-me e a dizerem: "Ele conseguiu! Ele conseguiu!".


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