Pitty fala sobre novo single com Elza Soares, 'Na Pele'
Foto: Daniel Ferro/ Divulgação

Pitty fala sobre novo single com Elza Soares, 'Na Pele'

"Se o rock morreu, não me convidaram pro enterro."
04 August 2017, 1:30pm

"Olhe bem pra minha cara. Você vê que eu vivi muito?", canta Elza Soares do alto de seus 80 anos. A baiana Pitty rebate: "Contemple o desenho fundo dessas minhas jovens rugas". Na Pele, a nova parceria musical das duas, chega com timbres roucos, densos, violinos e guitarras distorcidas às plataformas digitais nesta sexta (4).

O Noisey bateu um papo com Pitty, autora da composição, sobre seu "xaveco antigo" com Elza, como ela mesma descreve. "Admiro demais a vida e obra dessa mulher", mencionou. Falamos também sobre o rock e seu eventual enterro. Saque abaixo a entrevista na íntegra.

Noisey: Elza e Pitty juntas é muita banca. Como surgiu essa parceria?
Pitty: Eu tinha escrito esse som lá na época do meu último disco, o Setevidas. Mas, na hora, achei que essa música não pertencia àquela obra. Até tentamos gravar, mas a coisa não veio. Deixei a música na gaveta, esperando que ela tomasse um rumo no mundo. Eu já morria de vontade de fazer alguma coisa com Elza, é xaveco antigo. Admiro demais a vida e obra dessa mulher. E aí mandei a música pra ela, para que ela usasse como bem entendesse. E ela quis gravar comigo, vê só que honra. Aí, as pessoas tão achando que a convidada é ela, mas embora a composição seja minha, acho que o lance é mais Elza feat. Pitty.

E como, exatamente, vocês se conheceram?
Artisticamente, de longa data. Mas pessoalmente a conheci há um tempão, num programa de TV, acho que foi em 2007 ou 2008. E depois nos encontramos em algum VMB, eu acho. Mas aí ficou aquele namoro, aquela vontade de um dia fazer algo junto.

Interpretei a letra como o envelhecimento de uma mulher. No que você pensou ao escrevê-la?
Na passagem do tempo, na reflexão sobre a efemeridade das coisas. Sobre, num determinado ponto de vista, a injustiça que é a idade da alma não ser a mesma do corpo, e como a gente lida com isso. Sobre a casca, o casulo que nos abriga. Sobre sobreviver, de certa forma, e entender o fluxo das coisas.

A capa do single 'Na Pele'.

Esse é o primeiro single que você lança desde que sua filha nasceu. Voltar para o estúdio e para os palcos está nos planos?
Pros palcos eu já voltei, na real. Voltei pianinho, mas voltei. Não tô na mesma pegada da turnê anterior porque não quero ficar muito longe de casa nesse momento, então resolvi fazer só alguns shows que considero especiais, festivais e coisas assim, até o fim do ano. Depois eu vejo pra onde vou.

Foda perguntar isso pra uma roqueira, mas... o rock morreu?
Rapaz... se morreu não me convidaram pro enterro. Ele tá meio em crise de identidade, acho. E acho que isso é bom. De tempos em tempos tudo fica meio chato, careta e previsível; e esse sacode é sempre produtivo. Talvez o rock precise repensar seu lugar na vida das pessoas, seu prazer, seu propósito. "Sua missão" soa meio pretensioso, mas quem sabe não é isso? Porque o lugar de protesto e fala crítica se perdeu a partir do momento que ele aceitou se sentar, calado e engomado, na mesa de jantar com nossos pais. O lugar de diversão, do foda-se, do hedonismo também ficou obtuso porque veio a galera de outros estilos chegando pesado e roubando esse protagonismo. Então talvez é isso: reencontrar seu lugar no mundo. Agora, pra mim, ele tá vivasso e causando: tem muito artista de rock foda, que mesmo (e quiçá até por isso) não fazendo parte da grande mídia são inspiradores e continuam lançando discos relevantes para o estilo.

Se pudesse fazer cover de algum som da Elza, qual seria?
Eu gravei Edmundo pra um projeto de samba, que ficou conhecida na voz dela, há uma cara. Mas, hoje, eu gostaria de fazer uma recente, pra reverenciar o trabalho dela agora. Tipo Maria da Vila Matilde.

Elza disse que você é "doce e rocha ao mesmo tempo". E ela, é o quê?
Ela é uma fênix.