Drogas

Investigadores dos EUA querem que médicos possam receitar cogumelos para depressão

Um novo estudo da Universidade Johns Hopkins tem como objectivo reclassificar a psilocibina.
29 November 2018, 12:12pm
paciente numa experiência com dois assistentes
Foto: A sala de tratamento com cogumelos da Universidade Johns Hopkins. Imagem: Matthew Johnson.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Cientistas da Universidade Johns Hopkins, nos EUA, acham que está na hora de mudar a classificação de certos tipos de cogumelos: querem que determinados fungos deixem de ser considerados como "narcóticos perigosos" e possam ser utilizados como um possível tratamento inovador para a depressão.

Desde 1970 que as autoridades dos EUA consideram a psilocibina um narcótico Classe I, o que significa que a substância tem alto potencial para abuso e nenhum uso médico reconhecido. Segundo investigadores – que conduziram vários estudos sobre cogumelos – nenhuma dessas afirmações é verdadeira.


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Num artigo publicado na edição de Outubro da Neuropharmacology, quatro investigadores – Matthew Johnson, Roland Griffiths, Peter Hendricks e Jack Henningfield – dizem que está na hora de a FDA norte-americana considerar passar os cogumelos da Classificação I para a Classificação IV – o que significa baixo potencial de abuso e poucos risco de dependência. Se a classificação mudar, os médicos vão poder receitar cogumelos em certas circunstâncias.

Nos últimos anos, investigadores têm vindo a usar a psilocibina para tratar, com sucesso, depressão e vício em testes clínicos. Num estudo de 2016, a mesma equipa da Universidade Johns Hopkins administrou cogumelos a pacientes com cancro terminal, com o objectivo de aliviar a sua ansiedade e depressão.

“Estudos mostraram que a psilocibina causa redução significativa nos sintomas da depressão e ansiedade durante, pelo menos, seis meses após a dose ser administrada”, explica o novo estudo.

Foto: Shutterstock

O estudo de 24 páginas, sintetiza a pesquisa sobre psilocibina para dar à FDA a informação necessária para determinar se a substância deve ser reclassificada. Para classificar uma droga, as autoridades consideram oito fatores, incluindo potencial real e relativo para abuso, risco para a saúde pública e dependência física ou psicológica.

A segurança relativa dos cogumelos, quando comparada à de outras drogas, é incrivelmente alta. A psilocibina fica em último lugar no ranking das drogas em termos de danos para o indivíduo e sociedade em geral. “Mesmo misturada com álcool e tabaco”, assegura Johnson, doutorado em ciência comportamental na Universidade Johns Hopkins, em conversa telefónica com a Motherboard.

O especialista explica ainda que o potencial de abuso da psilocibina é baixo. “Ninguém sente ansiedade em relação à próxima dose de psilocibina”, garante. Isso não significa que os cogumelos não tenham potencial de abuso. As pessoas usam cogumelos de forma recreativa há décadas e não é agora que vão parar, mas, ao contrário da cocaína e heroína, por exemplo, a psilocibina não é uma substância que a maioria dos consumidores tomaria várias noites seguidas ou fins-de-semana inteiros.

“Danos em potencial, incluem comportamento perigoso no caso de consumidores pouco preparados e sem supervisão e exacerbação de doenças mentais em pessoas predispostas a transtornos psicóticos”, alerta o estudo. E acrescenta: “No entanto, o escopo do uso e danos associados é baixo, quando comparado com as drogas geralmente utilizadas em excesso”.

Johnson aponta histórias assustadoras dos anos 1960, de pessoas a meterem alucinógenos e a caírem de telhados, porque achavam que podiam voar, mas diztambém que esses casos são raros. “Há muito mais gente que caiu de grandes alturas por causa do álcool... Mas, as pessoas podem sofrer acidentes”, justifica.

Os investigadores estão a ter sucesso com a utilização de cogumelos medicinais em ambientes controlados, onde a dose é regulada e administrada por uma pessoa treinada, com um psicólogo ou terapeuta a guiar o paciente pela experiência e com objectivos muito específicos de terapia. No caso de pacientes com cancro ou outras doenças terminais, estes são guiados por uma viagem com o objectivo de os ajudar a conformarem-se e a superarem o medo da morte. Um cenário muito diferente de meter cogumelos numa viagem para acampar.


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O estudo é, também, apenas um passo num longo processo. Ainda vai demorar anos, talvez décadas, para que pessoas com depressão ou ansiedade possam entrar numa clínica e passar por uma viagem em drogas para se curarem. Johnson diz que a reclassificação pode levar entre “três a 10 anos”. Estudos, que ainda não foram feitos ou estão apenas a começar, serão necessários para garantir a reclassificação.

Mesmo assim, o caminho para a reclassificação não é fácil ou certo. “Tirar uma droga da Classificação 1 só ocorre quando um produto medicinal que contém a substância é aprovado para uso terapêutico pela FDA”, explica o estudo – o que significa que uma terceira parte precisa de fabricar psilocibina para uso médico, submeter o produto à FDA e, só aí, fazer lobby pela reclassificação. Pode parecer muita coisa, mas Johnson está optimista. “Esta é uma ciência de vanguarda e os resultados são muito promissores para vários transtornos”, garante.

Ainda que nenhuma grande empresa farmacêutica esteja de momento a sondar a Johns Hopkins sobre cogumelos, algumas organizações sem fins lucrativos estão a pensar em investir, como o Usona Institute em Wisconsin. O Usona, ou qualquer outro grupo, pode submeter um comprimido simples de psilocibina para aprovação da FDA como tratamento para depressão, desencadeando revisões da classificação. Se, e quando isso acontecer, a Usona pode ir recolher informações a este estudo.


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