Homem à janela
Todas as fotos por Bruna Scorsatto/VICE

Como vivem os seringueiros 30 anos após a morte de Chico Mendes

Durante duas semanas, vimos de perto um Brasil que muitos desacreditam: ainda sem luz elétrica, banho quente, escola ou internet.
17.12.18

Quando contava para as pessoas aonde eu estava indo daquela vez, o que mais ouvia era que "o Acre não existe". A piada é sem graça, mas tinha um fundo de verdade. Mesmo com a passagem comprada e a mala pronta, eu sabia muito pouco sobre o meu destino. Apesar de ter uma imagem formada por meio de histórias contadas por amigos, o Acre ainda não fazia muito sentido pra mim. Foi só depois de passar quase um mês inteiro lá, dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes, é que fui entender o que é o Acre de verdade.

Para chegar até a Resex, como é chamada, foi preciso viajar de Rio Branco até Xapuri, município ao qual a reserva pertence e que é conhecido por sediar o sindicato dos seringueiros onde o ativista político Chico Mendes, cujo aniversário de morte faz 30 anos agora em dezembro, militou. Lá, atravessamos o Rio Acre de balsa. Depois de seguir viagem por mais uma hora por uma estrada de terra, cheguei à Semitumba, nome de uma das comunidades de seringueiros que mora na Reserva e que me recebeu por 20 dias.

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Foto: Bruna Scorsatto/VICE

A Semitumba é o lar de 50 famílias que vivem em casas de madeira paxiúba simples, com fogão a lenha e galinhas no quintal. Lá, o programa "Luz para todos" não chegou nas partes mais afastadas, a internet ainda não atravessou a estrada de terra e banho quente só em dias de muito frio (é raro, mas eles existem).

A distância geográfica ao mesmo tempo isola a região e permite que ela seja o que é. Por mais redundante que seja, é inevitável falar sobre a exuberância da natureza da floresta Amazônica. Ela está em todos os lugares, perfeitamente integrada à vida dos moradores. Com o tempo também fica claro que essa simbiose entre o ambiente e as pessoas dita o dia a dia da comunidade, que segue o ritmo imposto pela mata através das estações e períodos de plantio e colheita.

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Foto: Bruna Scorsatto/VICE

Os dias começam cedo na Chico Mendes. Os seringueiros entram na mata bem antes de o sol nascer e só saem no meio da tarde, depois das 15h. Nesse meio tempo, percorrem as estradas de seringa duas vezes, na primeira cortando as seringueiras e na segunda coletando o látex. Depois de armazenar a matéria-prima da borracha, ainda vão para a roça plantar o que comem: arroz, feijão, macaxeira, banana e açaí. Algumas vezes ainda voltam para a mata à noite, para caçar. A familiaridade com a natureza é evidente: conhecem cada canto da mata como se fosse o quintal de casa. Reconhecem trilhas entre as árvores, quanto tempo é preciso para percorrê-las e como pegar atalhos se preciso.

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Foto: Bruna Scorsatto/VICE

A maioria deles aprende a cortar seringa ainda criança, acompanhando os pais. As horas de trabalho são longas e o trabalho pesado, mas isso não abala o ânimo dos seringueiros.

Eles compartilham histórias do seringal com orgulho, compõem músicas que exaltam os conhecimentos tradicionais e contam a quem quiser ouvir como as coisas mudaram nos últimos anos, principalmente depois da chegada do ramal (estrada de terra que vai até a cidade) e da escola.

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Foto: Bruna Scorsatto/VICE

A abertura da estrada de terra melhorou muito a qualidade de vida da comunidade. Os moradores contam que a região era ainda mais isolada antes da estrada. O acesso à cidade só era possível à cavalo e podia levar até três dias, isso se a chuva não atrapalhasse o trajeto.

Outra transformação que também sempre é lembrada por eles é a chegada da escola nos anos 80. Antes dela, eram raras as pessoas alfabetizadas no seringal. Os poucos que sabiam ler ficavam responsáveis por ler para os outros as cartas que chegavam com notícias da cidade e de membros da família que moravam em outros seringais. Atualmente a educação formal é uma realidade para um número cada vez maior de moradores – não só crianças mas vários adultos decidem retomar os estudos. A escola é também uma referência para a organização social da comunidade e lá acontecem as reuniões e eventos importantes na Semitumba.

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Foto: Bruna Scorsatto/VICE

São essas mesmas melhorias que afastam as gerações mais novas do corte da seringa. Com maior escolaridade, atraídos pela facilidade de acesso e buscando oportunidades melhores de emprego, muitos filhos de seringueiros mudam para "a rua" (como chamam a cidade). A transição não é fácil: na cidade, tudo tem que ser comprado – uma mudança brusca para quem sempre plantou e produziu a maior parte das suas necessidades. Parte desses jovens volta a morar no seringal, pois não se acostuma ao ritmo da vida urbana. Os mais velhos ainda assim se preocupam com o futuro da reserva.

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Foto: Bruna Scorsatto/VICE

Essa não é a única ameaça que eles veem ao futuro do ofício. O principal comprador do látex extraído na reserva era o próprio estado do Acre, que usava a matéria-prima para fabricar as camisinhas da Natex – fábrica que fornecia os preservativos distribuídos pelo Ministério da Saúde no país todo. No meio desse ano, a fábrica fechou as portas devido a má administração financeira, deixando os seringueiros sem escoamento para a maior parte da sua produção. O governo do estado não ofereceu nenhuma alternativa ou auxílio aos seringueiros, e eles se veem tendo que enfrentar o desafio de como diversificar suas fontes de renda.

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Foto: Bruna Scorsatto/VICE

Essas dificuldades são recentes, mas a trajetória dos seringueiros sempre foi de resistência. A demarcação de reservas extrativistas foi o resultado de mais de 10 anos de luta, em que os moradores da região se articulavam nos "empates" para impedir o desmatamento da região – que era ameaçada por fazendeiros que queriam vender a madeira da Amazônia. Os conflitos entre seringueiros e fazendeiros culminaram na execução de Chico Mendes, presidente do sindicato dos seringueiros, em dezembro de 1988. A Resex Chico Mendes foi demarcada dois anos depois da morte do líder sindical seringalista, sendo uma das primeiras reservas desse tipo no Brasil. O espírito de luta é celebrado na letra de uma das músicas compostas por Seu Zé Gaudêncio, seringueiro que também é responsável por animar o forró da comunidade nas noites de sábado.

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Foto: Bruna Scorsatto/VICE

O que dá força ao povo seringueiro para resistir a todas as adversidades é se manter unido. Mesmo sendo uma distância grande entre uma casa e outra, as famílias se visitam frequentemente e mantém laços de amizade estreitos. É comum sentar para tomar café – sempre com bastante açúcar – no fim da tarde e os vizinhos irem chegando e chegando, até a cozinha estar cheia de gente. Quem deu sorte caçando na noite anterior, divide com quem está sem carne naquela semana ou organiza um jantar comunitário. Tudo é compartilhado, especialmente o sentimento de pertencimento àquela comunidade e àquela terra.

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Foto: Bruna Scorsatto/VICE

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Foto: Bruna Scorsatto/VICE

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Foto: Bruna Scorsatto/VICE

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