alimentação

Passei uma semana comendo só produtos fit

Eu não queria ficar forte, só queria saber qual era o gosto dessas merdas.
22.10.18
Comidas fit
Todas as fotos pelo autor.

Vivemos em tempos fit. Não só porque boa parte dos seus amigos vão pra academia ou pro crossfit, mas porque, atualmente, até os supermercados têm uma zona de comida fit, com barrinhas proteicas, queijos especiais sem gordura e iogurtes sem lactose. Adolescentes, velhos, trintões, todo mundo quer ficar boladão, saudável e resistente; tudo pela saúde, pelo bem-estar do corpo e pela felicidade.

Mais por desejo empático do que por querer fortalecer o meu corpo – a essa altura da construção o edifício já é irrecuperável –, quis viver cinco dias na mente de uma dessas pessoas que se alimentam à base de comida proteica para crescer; quis ser solidário com elas na questão gustativa, para saber como entendem a experiência de comer, que sabores lhes vem à boca e, ao engolir tudo isso, que horrores emergem e que prazeres experimentam. Será que essa galera sofre? Será que é uma comida incrível? Era isso que eu queria saber.

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tipo posando con comida fit

Aqui, posando com o que seria a minha comida, antes do momento do "unboxing", com meio escritório me olhando.

Fiz um pedido enorme num desses sites de comida "especial", onde todos os produtos tinham um extra de proteínas, ínfimas calorias ou níveis muito baixos de gorduras saturadas, para além de um packaging incrível, ilustrado com muitos estímulos visuais – cores apelativas, muita informação nutricional e tipografias que pareciam logotipos de super-heróis. Fiquei surpreso ao ver a quantidade enorme de produtos processados e já prontos pra comer, como se quem buscasse esse tipo de alimentação não tivesse nem um minuto para ferver uma massa ou fazer algo remotamente parecido com cozinhar.

SEGUNDA-FEIRA

comida fit pavo en lata y ensalada

Uma pessoa levanta na segunda-feira com muito pouca vontade de viver, mas, nesse dia, eu sabia que me esperava o início de uma grande semana, a minha semana fit. O menu do meio-dia consistia numa salada enlatada, mas um pouco mais gourmet (essa comida é cara para caralho, amigos). A minha tinha salmão e vegetais. Voltaria a comê-la sempre que pudesse. Repetitivo, mas correto, como o sexo ou as piadas sobre gente fascista.

Coloquei peito de peru enlatado (segunda, o dia das latas) por cima de umas torradas integrais que não tinham muito sabor, mas quem é que se importa com sabor quando sabe que está comendo coisas tão saudáveis? O peru enlatado era altamente desagradável. Achei que esse tipo de produto nem existia. Ao abrir a lata, apareceu um feto encaracolado (o peru) cheio de grumos de sêmen (uma imagem, em si, desagradável). Era a salmoura. Esteticamente desagradável e inviável. Era como comer um pedaço de cartão molhado.

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Matar um peru para isso, para não desfrutar nem de uma só mordida de boca cheia. Podiam ter matado uma alface ou um tronco, mas como essa gente vive de proteínas, tiveram que sacrificar algo vivo para obtê-las. O problema é que, para os humanos que se interessam pela experiência do sabor, esse peru morto vai ser uma grande desilusão.

salsa Alfredo Walden farms fit

À noite comi a coisa mais nojenta da minha vida. Fiz um prato de massa com molho “Guilt Free” (sem gorduras, sem calorias, sem açúcares, carboidratos e sem glúten). Ao abrir o pacote do molho, meu cérebro foi inundado por um fedor letal. Nesse momento, devia ter jogado tudo no lixo. Mas acabei esquentando o molho e misturando com a massa, e foda-se. Mas tive que cuspir aquilo, pois era puro veneno.

Parecia um produto de carpintaria, uma cola tóxica, gosmosa. Não era comida, certeza. Tive uma vontade de cagar imediata, o meu corpo precisava botar pra fora o que restava desse molho demente. Depois de beber água como um macaco ressacado, o cheiro continuava a me perseguir. Esse produto me marcou para sempre, um fedor que nunca mais sairia das minhas entranhas. Isso foi o que pensei no momento. Agora, uma semana depois, já não noto nada, estou livre das garras do molho fétido. Finalmente comi a massa, que era tipo integral, ou seja, terrível. Um dos piores jantares da minha vida e, atenção, eu já comi lixo.

kippah

Quando limpei a frigideira, vi como a massa que tinha sobrado estava ressecada, formando uma espécie de quipá, que não tive dúvidas na hora de colocar sobre a minha careca.

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TERÇA-FEIRA

Depois da experiência fatal da noite anterior, precisava jogar pelo seguro. Por isso, ao meio-dia comi um frango com curry que vinha numa espécie de wok de plástico. Me fascina a quantidade de merda pré-cozinhada que essas pessoas chegam a comer para atingir o corpo perfeito.

Aqui tenho poucas críticas, pouco sabor, era como um prato pré-cozinhado de merda normal, só que com mensagens estranhas na embalagem: “NutriPak”, “38 g Protein”, “Protein meal” e tudo isso. A obsessão. De sobremesa, comi um snack de chocolate que parecia sangue na boca.

pulled pork

O jantar foi o melhor. Abri uma lata de pulled pork com sabor de barbecue que joguei numas fatias de "protein bread" com poucos carboidratos. Que não falte a maldita proteína, claro. Acrescentei tomate e cebola para não comer tanta merda e o resultado foi maravilhoso. Recomendo a todos vocês, viveria nessa maldita lata.

QUARTA-FEIRA

pasta precocinada fit

Levei outro prato preparado para o escritório da VICE, dessa vez uma massa picante pré-cozida. Ao abrir a caixa, o cenário era desastroso. Tinha uns pacotes com o molho e a massa que mais pareciam com uma bolsa de colostomia.

comida fit

Apesar de tudo, não estava nada mal, dou nota 8 de 10. Gosto desse lance pré-cozido que você pode comer cru se algum dia ficar preso no meio de uma floresta ou de uma caverna. A massa já cozida era bastante elástica, por isso a embalagem advertia para que pessoas com dificuldades em engolir bebessem muita água ao comê-la, já que podiam engasgar e morrer. Normal.

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fitzza, la pizza fit

À noite, comi uma bela "fitzza", ou seja, pizza fit. Bem pensado o nome, não? Apesar de bastante densa, era útil pra ser recheada com vegetais e presunto. A pessoa precisa se habituar com o produto pra elaborar uma massa adequada, mas, ainda assim, o sabor é bom. Talvez um pouco defumado demais, já que era "sabor barbecue". É raro uma pizza ser ruim, portanto dou minha aprovação, embora essa fitzza seja um pouco cansativa por causa do intenso sabor de FOGO.

QUINTA-FEIRA

Na quinta-feira um saco de “Indian Bombay Potatoes”, um prato que também não transparecia filosofia fit por nenhum lado, me esperava. Estava realmente bom, com um forte tempero de cominho. Isso podia estar no cardápio de qualquer restaurante, longe da zona fit. Algumas vezes os dois mundos – fit e não fit – colidem e vivem em perfeita harmonia.

comida fit

De sobremesa tentei fazer um muffin instantâneo (juro que toda comida que essa galera come funciona assim, com merdas que levam um minuto no microondas), mas fracassei fortemente. Só consegui deixar o negócio como uma espécie de torta ou musse, de consistência espumosa, que terminou – que pena, amigos – no lixo.

pechuga de pollo en lata fit

À noite fiz umas torradas dessas redondas, com uma lata de peito de frango. Depois da experiência daquele peito de peru confesso que esperava o pior mas, inexplicavelmente, o frango enlatado era bem melhor que o peru enlatado. Sabe-se lá qual é a diferença, são ambas aves, desagradáveis, que não sabem nem sequer ligar uma televisão. Pode ser que a imagem do cara fortão na embalagem tenha afetado terrivelmente a minha percepção do produto.

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SEXTA-FEIRA

Já faltava pouco. A semana também não tinha sido assim tão fodida, à exceção do molho fétido e da lata de peito de peru, os dois embustes da minha semana fit. Tinha, isso sim, a sensação de ter passado vários dias comendo merda pré-cozida e enlatada (basicamente, foi isso mesmo que eu fiz).

Mais do que me sentir fit, eu estava me sentindo um saco cheio de comida de merda, apesar de alguns rangos até terem certa qualidade. O fato de ter tirado essas comidas de um saco e ter aquecido quase todas num microondas já me dava a sensação de comer porcaria. Suponho que a elaboração da comida é importante para perceber o que você está ingerindo.

soja roja adzuki

Enfim, no almoço comi um bom espaguete de azuki (soja vermelha) que não estava nada mau. Basicamente, é um produto que recusamos pois não estamos habituados, mas, na verdade, não é ruim. Às vezes, é preciso sair da zona de conforto e comer coisas novas, conhecer gente nova e aceitar, sim, uma dedada no cu. Por sorte comi a massa com um molho de tomate que tinha em casa. Me recusei a comer outra vez aquela cola fedida.

pollo tikka masala

A despedida da minha semana fit chegava, assim como o prato final, que me devolveria à comida de gente normal: era um preparado de frango tikka masala. Estava ótimo, bom demais pra ser uma comida quase imortal.

ingredientes pollo tikka masala

Explico: a questão é que a comida que estava dentro da embalagem vencia em fevereiro 2019. São muitos meses de vida, não consigo compreender como é que algo que não tem um único conservante (tudo feito de ingredientes mais ou menos naturais) pode durar tanto tempo. Garanto que essa é a comida do futuro, porque, aliás, nem era preciso conservá-la no freezer. Como se explica isso? Não sei, pois também não estava fechada a vácuo. Era a autêntica comida dos astronautas, astronautas de um planeta chamado Músculo, um planeta que eu não visitaria nunca na vida.

Terminados esses cinco dias, foi um prazer voltar a cozinhar e deixar de aquecer coisas tiradas de embalagens no microondas. Entendo que a galera fit não come sempre esses produtos, mas é revelador que, na loja online, mais ou menos 40 por cento dos produtos à venda sejam deste tipo. Gente muito grande, forte e musculosa apertando o botãozinho do microondas. Essa é a imagem.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

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