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Identidade

Depois de Pittsburgh, uma nova guerra civil nos EUA parece cada vez mais próxima

Na sequência do pior ataque a judeus da história norte-americana, ocorrido no último fim-de-semana, é altura de ter medo do futuro.

Por E.J. Graff
30 Outubro 2018, 12:00pm

Um polícia atravessa a rua em frente à sinagoga Tree of Life, depois do atentado que deixou 11 mortos, em Squirrel Hill, Pittsburgh, a 27 de Outubro de 2018. Foto: Brendad Smialowski/AFP/Getty Images.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Aqui vai o que não vais ler na cobertura que se está a ver do último episódio de violência em massa nos EUA: o atirador de Pittsburgh que matou 11 pessoas numa sinagoga no último sábado, 27 de Outubro, tal como o terrorista das cartas-bomba, simpatizante de Trump, podem ter agido no período que antecederá a próxima guerra civil norte-americana. Esta não é uma guerra com dois lados formais, declarações, bombardeamentos, um derrotado e um vencedor - pelo menos, ainda não.

No entanto, esta disputa - sobre o que significa ser americano, uma ruptura que ainda não se abriu totalmente - tem vindo a fermentar há algum tempo. E, por muitas razões (uma delas, claro, o medo intergeracional que os meus bisavós e avós trouxeram quando fugiram dos pogroms na Europa, no final do século XIX), este atentado a uma sinagoga dá-me um desejo desesperado de fugir. Provoca-me flashbacks do anti-semitismo casual dos colegas de escola e das escuteiras na infância, até à praga de pesadelos na adolescência em que eu era perseguida e capturada por nazis. Fez-me ligar a amigos canadianos para lhes perguntar se têm um quarto de sobra.

Ainda assim, é algo irracional. Hoje, não há ninguém a vir atrás de mim para me apanhar. Nem amanhã - acho eu. Mas, o atirador de Pittsburgh era racional?


Vê: "A milícia de extrema-direita 'Three Percent' está determinada a defender as suas armas"


Já estamos familiarizados com o guião que se segue quando lemos uma manchete sobre outro atentado com armas de fogo - desta vez numa sinagoga, por um lobo solitário cheio de ódio e ressentimento, infectado pelo anti-semitismo inflamado pelos ataques da direita a George Soros e a temida figura de Shylock, o financeiro globalista. Como esta era uma casa de adoração, como o atentado a um templo sikh no Wisconsin, em 2012, o massacre racista na igreja Emanuel, em Charleston, em 2015 e o atentado na Primeira Igreja Baptista, no Texas, em 2017, outras congregações de fé vão fazer doações generosas, para mostrar que o seu Deus ama todos os seres humanos. Bandeiras vão ficar a meia haste as autoridades prometeram, claro, investigar e punir severamente este crime de ódio.

Oficiais vão continuar a condenar actos destes como um ultraje anti-americano (ou será uber-americano?), oferecendo as suas condolências e preces como incenso no altar da hipocrisia. As pessoas vão continuar a fazer vigílias à luz de velas pelo país, enquanto outras, sem dúvida, vão encontrar uma forma - como têm vindo a fazer desde Sandy Hook - de argumentar que o atentado foi forjado para mudar sentimentos políticos (neste caso, para o lado dos Democratas).

Afinal de contas, se consegues acreditar que pais receberam dinheiro de Geoge Soros para fingir a morte dos próprios filhos para fins políticos, porque é que pensarias de maneira diferente no caso dos judeus?


Vê o primeiro episódio de "Odiarás o Teu Vizinho"


Enquanto isso, as velhas discussões políticas já começaram a povoar as páginas editoriais. Artigos de opinião regurgitaram argumentos sobre direitos de armas e regulamentação de porte, já que lunáticos não poderiam causar massacres tão facilmente com uma faca como podem com uma AR-15 - e, do outro lado, que só um homem bEm armado pode impedir o que a NRA chama de anarquia e carnificina. Nos próximos anos, a comunicação social vai propor análises sérias sobre o pico de crimes de ódio e incidentes anti-semitas - tipo as “tochas tiki” -, enquanto outros vão chamar a isto de “fake news”, pensadas para minar um presidente eleito democraticamente.

E com renovada atenção sobre o Gab, outra plataforma de “liberdade de expressão” (um novo código para discurso de ódio), vamos descobrir novamente como o ódio se espalha como uma infecção mortal dentro do corpo político e ouvir mais sobre como algoritmos estão a encapsular os norte-americanos em loops de feedback de versões mais extremas dos seus pontos de vista. E claro, vamos ouvir o nosso presidente, Donald Trump, dizer que não “não há espaço para a violência de ódio”, só para logo depois promover o seu slogan divisivo Make America White Again, que convidou nacionalistas brancos que antes se escondiam a marchar em plena luz do dia.

Não é o suficiente.


Vê: "Charlottesville: Raça e Terror"


Tudo isso são sintomas - sintomas, que certamente se tornaram muito, muito mais visíveis depois de Novembro de 2016. Mas, o problema subjacente é que somos uma nação profundamente dividida sobre o que significa ser norte-americano. Adam Serwer, do The Atlantic, sugeriu no documentário de Anna Holmes, The Loving Generation, que os EUA já há algum se aliou a duas visões muito diferentes do que significa ser um norte-americano. Para um lado, ser “americano” é assinar por baixo de uma fé cívica na Constituição, na lei, na privacidade da cabine de voto e de liberdade e justiça para todos. Esse é o norte-americano de Hamilton, de Lin-Manuel Miranda, dos centros urbanos costeiros, uma visão que é aberta para os cansados, os pobres e os refugiados do Mundo, que querem ser livres e estão prontos para trabalhar arduamente. Do outro lado, estão aqueles que acreditam que “americano” significa pessoas cujos pais nasceram aqui, que são brancas e cristãs, que querem barrar a porta contra as hordas mais escuras. E sim, alguns destes últimos - como o atirador do fim-de-semana - acreditam no mais sinistro slogan da história, o arbeicht macht frei [o trabalho liberta].

O governo dos EUA tem vindo a equilibrar-se entre estas duas visões há gerações. E não importa que lado esteja a ocupar a Casa Branca, o outro vai querer o seu país de volta. Um lado estava feliz com a presidência de carne vermelha, estado vermelho, de George W. Bush, a invadir nações que odiavam a liberdade, torturando suspeitos para mostrar força e mantendo o país seguro com um aparato cada vez maior de “segurança”. O outro lado - os globalistas, amantes da diversidade, os cosmopolitas das grandes cidades - achavam que, elegendo Barack Obama, tinham reconquistado o seu país. Agora, se já não o sabiam antes, essas pessoas sabem que a fervilhar o sob a superfície da presidência de Obama havia uma resistência furiosa: o Tea Party, os racistas, os nacionalistas branco que, depois, elegeram o seu chefe.

Mesmo se o 6 de Novembro, quando acontecem as eleições legislativas dos EUA, trouxer uma onda democrática que coloque mais mulheres, pessoas não-brancas e progressistas na Câmara dos Representantes, a maré vermelha contrária, que comanda muitos dos estados menos populosos , vai certamente manter o perfil republicano do Senado. Quer Trump ou um democrata vença as eleições de 2020, o lado derrotado vai indignar-se pelo facto de a sua América moral e “real” estar novamente em exílio, enquanto os EUA são liderados por um demagogo perigoso da outra visão - a falsa - do seu país.

Judeus, negros, sikhs, queers, imigrantes e democratas estão, geralmente, de um lado dessa guerra ideológica. O outro lado - o lado da política de identidade branca cristã - está pesadamente armado. Com isso não quero dizer apenas com armas pessoais; quero dizer que eles tendem a ser aqueles que servem o exército norte-americano ou associados a milícias. E temo que estejamos a rumar para uma guerra civil.


Vê: "Viagem ao interior de uma milícia nacionalista norte-americana"


É óbvio que os EUA já enfrentaram rupturas sociais terríveis no passado, sem caírem numa violência aberta que tenha dividido a nação. As primeiras décadas do século XX foram de desigualdade extrema, fome, protestos, greves, violência policial, atentados anarquistas e medo de uma guerra civil - até que o New Deal, de Franklin Roosevelt e o sacrifício nacional partilhado da Segunda Guerra Mundial uniu os norte-americanos durante um tempo. Depois, os anos 1950 do conformismo macartista resultaram nos anos 1960 e 1970 noutra era sangrenta de inquietação social, assassinatos, atentados com bombas, rebeliões e violência policial contra civis que eram negros, brancos, mulheres, gays e hippies.

Talvez a turbulência e ódio entre essas visões irreconciliáveis dos EUA que vemos hoje tenha demorado a acontecer. Talvez este seja apenas um interlúdio de insanidade, que vai acalmar de alguma forma. De uma forma que agora não conseguimos imaginar.

Ou, talvez a erupção dos últimos anos de racismo, anti-semitismo e xenofobia abertos - agora apoiados pelo governo, reforçados pelo exército, com imigrantes a serem levados para campos ilegais - seja um sinal de que somos uma nação a marchar para uma batalha aberta e prolongada. Talvez quando pessoas perturbadas cometem (ou tentam cometer) actos de violência, baseadas na convicção de que o “outro” lado é mau, estes sejam os primeiros surtos de uma guerra que vai rebentar quando as alterações climáticas começarem a tomar as nossas costas e a queimarem o nosso interior.

Espero estar errada. Mas, quando as pessoas de uma sinagoga progressista e defensora da justiça social - como a minha - são massacradas por supostamente poluirem a América branca, claro que vou pensar em quem fugiu e quem não fugiu da Europa a tempo de escapar do Holocausto. E, mesmo não gostando do que se pode considerar como política de vítima - acredito na política de mudanças - sou uma mulher judia, queer, jornalista e mãe de um jovem não-branco, factos que atiçam os trolls. E estou com medo.


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