Os ricos deste Mundo têm muito mais dinheiro do que pensas

Um novo relatório mostra detalhes chocantes de como estamos a viver numa “nova Era Dourada”.

Por Allie Conti; Traduzido por Madalena Maltez
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jul 30 2018, 1:20pm

Imagem por Lia Kantrowitz.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Para quem anda a prestar atenção, a situação nos Estados Unidos e em muitos outros países do Mundo, já há algum tempo que não é das melhores. Estamos 2018 e jovens com dezenas de milhares de dólares em dívidas estão a mudar-se para cidades com custos de vida muito além do que podem suportar, porque é impossível lançarem a sua vida adulta em qualquer outro sítio.

Enquanto isso, os ricos não têm efectivamente de enfrentar a forma como o resto do povo vive: quando não estão a passar férias longe das massas, em sítios como Newport, Rhode Island – como faziam os Vanderbilts – os barões do século XXI, como Elon Musk e Peter Thiel, usam a guita acumulada para escaparem para o espaço ou criarem paraísos libertários flutuantes. Os restantes estão presos aqui na Terra, em economias que afundam e, cada vez mais, se voltam para o populismo ou para o socialismo.

Agora, um novo trabalho do norte-americano Economic Policy Institute (EPI) veio tornar ainda mais evidente aquilo que já muita gente suspeitava: estamos a viver numa nova Era Dourada. “Os dados sobre os salários a nível mundial estão a voltar ao que eram no último pico que tivemos, em 1928”, diz à VICE o co-autor do trabalho, Mark Price, depois da sua recente publicação. Logo após a Grande Depressão, começou aquilo a que alguns historiadores chamam de Grande Compressão, que incluía uma grande subida nos salários dos pobres dos EUA a partir dos anos 1940 em diante.


Vê: "A Terceira Revolução Industrial: uma nova e radical economia de partilha"


Houve, por exemplo, um rápido crescimento no número de sindicatos, o que significava que os trabalhadores tinham negociado poder para garantirem que o dinheiro que o seu trabalho estava a gerar se notasse nos seus salários, não só no bolso dos CEOs. O crescimento de salários também estava ligado ao aumento da produtividade e, enquanto as empresas do sector automóvel se tornavam mais eficientes, melhores eram os salários pagos às pessoas que faziam carros, assim como para os metalúrgicos que forneciam a matéria-prima. E a Segunda Guerra Mundial levou a impostos mais altos para os ricos. O resultado foi, bem, uma compressão de salário no topo da cadeia alimentar.

“Isso não significa que era horrível ser CEO naquela época”, explica Price. E salienta: “Ainda trocarias tudo no Mundo para ser um CEO em vez de um cargo de base. No entanto, significava que o crescimento de rendimento era partilhado de forma mais ampla”. Muito disso começou a desfazer-se nos anos 70. Houve uma queda no poder de aquisição do salário mínimo e um declínio entre os sindicatos do sector privado. Como CEO, tornou-se socialmente aceitável sobrecarregar uma empresa com dívidas e aceitar um grande salário. “E, desde 2000, houve uma mudança na fonte de rendimento no 1% do topo. De 1973 a 2000, a história do 1% era a história dos ricos trabalhadores, como o CEO. Mas, depois de 2000, o que [um estudioso chamado] Piketty [e os seus colegas] notaram foi uma mudança, em que o dinheiro do 1% começou a vir cada vez mais de ganhos de capital”.

Basicamente, o que Price está a descrever é um fenómeno em que os ricos ganham mais dinheiro só pela qualidade de serem ricos – e não já precisam de viver perto de onde, originalmente, começaram a acumular ordenados. O relatório mostra como isso se parece hoje e o que tal significa para muitas cidades norte-americanas - e não é bonito.

Há cinco anos atrás, segundo os dados do relatório, baseados em números de impostos registados pelo Serviço de Rendimento Interna dos EUA, o 1% recebia um pouco mais do que 25 vezes o salário do resto das famílias norte-americanas; em 2015, essa relação de cima para baixo tinha aumentado para mais de 26 para 1. Isso significa que, até 2015, em cinco estados e 30 cidades dos EUA, a desigualdade salarial era maior do que em 1928, com várias outras áreas a aproximarem-se do mesmo nível de disparidade. Em Nova Iorque, Flórida e Connecticut, o 1% tinha um salário médio 35 vezes maior do que o resto das pessoas.

E há relações ainda mais perturbadoras ao nível de condados e áreas metropolitanas. Olhemos, por exemplo, o condado de Teton, Wyoming. É uma área de resorts, lar de gente como a herdeira do Walmart, Christy Walton, e onde Kanye West gravou o seu último disco. Em 2015, o 1% dos moradores ganhava, em média, 140 vezes mais do que o salário médio de 99 por cento das famílias na base. Aí tens a área metropolitana Naples-Immokalee-Marco Island, Flórida, onde ricos reformados vivem perto de trabalhadores migrantes com condições miseráveis e a relação de cima para baixo é de 90 para 1. A diferença parece ter aumentado depois do fim da Grande Recessão: segundo o estudo, o 1% em nove estados ficou com mais da metade de todo o crescimento de salários desde 2009.

Enquanto isso, segundo aponta o relatório, a administração Trump tem tomado várias medidas que, certamente, vão aumentar essa diferença. Primeiro, disseram que vão cortar uma regra da era Obama que tornou milhões de trabalhadores automaticamente elegíveis para horas extras, até um juiz federal ter bloqueado a acção. Também atrasaram a implementação da regra fiduciária, que exige que consultores de investimento actuem no melhor interesse dos seus clientes. O gigantesco corte nos impostos aprovado no ano passado deve distribuir todos os seus benefícios entre o 1%. Outro golpe veio, recentemente, na forma de uma decisão do Supremo Tribunal, que vai eviscerar ainda mais os sindicatos – as instituições que foram tão cruciais para nos tirar da primeira Era Dourada.

Ainda assim, quando conversámos, Price parecia optimista de que isto não chegará a um ponto sem retorno. Ele espera que a publicação deste trabalho venha iluminar o caminho onde estamos, o que pode permitir que os norte-americanos revertam a maré, entre outras coisas, ao exercerem o seu direito de voto. Mas, se isso não acontecer, também reconhece que o futuro parece sombrio – como um regresso ao tempo em que aristocratas controlavam um exército de servos que não tinham controlo nenhum.

“Essa seria a minha preocupação, sim, e se as tendências continuarem, vamos alcançar um nível de desigualdade que nunca antes vimos”, sublinha Price. E conclui: “Não regressamos para já totalmente à era das trevas mas, daqui a 50 anos, se continuarmos no caminho em que estamos, vamos lá chegar".


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